Michael Tamura

Michael Tamura

O empresário e publicitário Michael Tamura é sócio-executivo do Café Tamura em Maringá, fundador e sócio-acionista da VQV Eventos, empresa de eventos corporativos que também produz eventos ligados ao setor do café. Representa a quarta geração de uma família dedicada a essa cultura, que na família Tamura, começou com a chegada de seu bisavô ao Brasil e segue até hoje na produção e torrefação de cafés especiais. É um entusiasta associativista, presidindo diversas entidades relacionadas ao turismo e foi um dos fundadores da Rota dos Cafés Especiais de Maringá e Região.

Grão em grão

Um café com endereço: a história que vem dentro da xícara

18/08/2026 11:01
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Indicação geográfica: o endereço que muda o sabor do seu café. Crédito: pexels

O consumidor brasileiro começou a entender que café não é tudo igual. Quem trabalha com cafés especiais sabe que cada vez mais o consumidor tem aumentado a exigência sobre o nível de informações sobre o grão que ele está adquirindo. Os rótulos já começaram a contar essa história. Hoje, embalagens de café trazem nomes como "Cerrado Mineiro", "Alta Mogiana", "Norte Pioneiro do Paraná". Não é enfeite. Não é marketing. É um endereço — e esse endereço faz toda a diferença na xícara.

O que é uma Indicação Geográfica?

Indicações Geográficas BR. Crédito: SEBRAE PR
Indicações Geográficas BR. Crédito: SEBRAE PR
Imagine você comprar um queijo da Canastra e descobrir que ele foi feito em uma fábrica industrial em São Paulo, com leite de outra região. Algo está errado, certo? O queijo da Canastra é da Canastra — o nome carrega o lugar. É exatamente isso que uma Indicação Geográfica faz pelo café.
Uma Indicação Geográfica, ou IG, é um selo oficial que reconhece que um produto tem características únicas por causa do lugar onde é produzido. Não é qualquer um que concede. Quem faz esse trabalho é o INPI, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o mesmo órgão que registra marcas e patentes no país. E existem dois níveis de reconhecimento.
O primeiro é a Indicação de Procedência (IP). Funciona assim: uma região já é conhecida pela fama de produzir um bom café. As pessoas de lá cultivam o grão há gerações, construíram uma reputação. A IP reconhece isso — é como dizer "aqui se faz café de qualidade há muito tempo". É o selo que confirma a tradição de uma região.
O segundo é a Denominação de Origem (DO), e aqui o jogo fica mais sério. A DO exige comprovação de que as características do café — o sabor, o aroma, a acidez, o corpo — se devem de verdade ao terroir, aquele conjunto de clima, solo, altitude e até a cultura de produção daquela região. Não basta ter fama. É preciso provar, com laudos técnicos e estudos científicos, que o lugar está dentro da xícara. É o selo mais difícil de conquistar.
Pense no vinho do Porto, que só pode receber esse nome se for produzido em uma região específica de Portugal. Ou no champanhe, que só é champanhe se vier de Champagne, na França. A IG faz o mesmo pelo café brasileiro: tira o grão do anonimato da commodity e dá a ele nome, sobrenome e endereço.

O Brasil no topo do ranking

Agora, um dado que merece ser dito com orgulho: o café é o produto brasileiro com o maior número de Indicações Geográficas registradas no INPI. São 20 IGs de café espalhadas pelo país. Nenhum outro produto agrícola brasileiro — nem o vinho, nem o queijo, nem a cachaça — tem tantas.
Isso é uma virada de chave e tanto. O Brasil é o maior produtor de café do mundo há mais de 150 anos, mas sempre foi visto como o país do café em volume, do grão anônimo exportado em sacas sem identidade. Aos poucos, essa imagem está mudando. O país prova, com cada novo registro, que também sabe produzir café de origem — com território, com história e com qualidade que pode ser medida e protegida.
O mapa das origens é rico e diverso. Em Minas Gerais, o grande protagonista dessa história, concentram-se a maior parte das IGs: o Cerrado Mineiro, que em 2025 celebrou 20 anos do reconhecimento e foi a primeira IG de café do Brasil; a Mantiqueira de Minas, com seus cafés de altitude e complexidade sensorial; as Matas de Minas, o Sul de Minas, Campos das Vertentes e a Chapada de Minas. Cada uma dessas regiões tem seu próprio perfil de xícara. Em São Paulo, a Alta Mogiana e a Região do Pinhal mantêm viva a tradição cafeeira do estado.

O que a IG muda na prática?
Mas o que a IG muda, concretamente? Muita coisa, e em vários níveis.
No preço, o salto é visível. Um café com IG deixa de ser negociado como commodity — aquele café vendido a preço de mercado, sem distinção — e passa a ter um prêmio, um valor agregado reconhecido pelo comprador. O produtor recebe mais pelo seu grão.
Na proteção, o selo impede que outras regiões usem indevidamente o nome. Ninguém pode vender um café como "Cerrado Mineiro" se ele não vier de lá, assim como ninguém pode chamar de champanhe o que não vem de Champagne. Isso protege o trabalho e a reputação de quem produz de verdade.
No desenvolvimento territorial e no associativismo, o impacto é talvez o mais bonito — e mais complexo. A IG fortalece cooperativas, organiza pequenos produtores e cria uma rede de governança que beneficia comunidades inteiras. Não é um selo para um produtor isolado — é um selo para uma região. Juliano Tarabal, diretor executivo da Federação do Cerrado Mineiro, explica com clareza o que acontece por dentro do território:
"Quando uma região obtém o título de Indicação Geográfica, ela começa a criar uma estrutura de governança, de pertencimento, de cooperação e de associativismo entre os produtores. Há uma busca pela melhoria e pela evolução da qualidade dos cafés, pela construção de uma identidade regional e pelo posicionamento dessa região no mapa. Se você quer de fato gerar valor de forma coletiva, o território precisa estar no mapa. Tudo isso vai cultivando uma cultura regional que, no longo prazo, constrói a reputação pela qual a região será reconhecida."
Juliano Tarabal - Diretor Executivo da Federação do Cerrado Mineiro. Crédito: Divulgação
Juliano Tarabal - Diretor Executivo da Federação do Cerrado Mineiro. Crédito: Divulgação
E esse benefício não fica só com o produtor. A IG percorre a cadeia inteira, chegando ao torrador e à cafeteria com um ativo valioso em mãos. Tarabal continua:
"Para o torrador e a cafeteria, a Indicação Geográfica traz a garantia de procedência, a rastreabilidade, a garantia de qualidade e de origem certificada, a história do produtor — e a possibilidade de contar essa história para frente. A IG carrega consigo o terroir, a história da região, a cultura, o tipo do café, as características que envolvem o território. Tudo isso pode ser compilado e enquadrado numa narrativa de venda, de diferenciação e de geração de valor para o consumidor."
Na qualidade, a IG exige padrão e controle. Para usar o selo, o café precisa atender a critérios técnicos, passar por auditorias e manter rastreabilidade. O consumidor sabe que, ao comprar um café com IG, está adquirindo um produto que passou por um filtro de qualidade sério.
E vale um toque de honestidade, porque coluna boa não é só celebratória. O setor vive, neste momento, um momento de reflexão sobre as IGs. Há um debate legítimo: ter muitas IGs é sempre bom, ou corre-se o risco de diluir o valor do selo? Como garantir que o reconhecimento se traduza de fato em preço justo para o produtor, e não apenas em marketing para marcas grandes? São perguntas que mostram que o tema está amadurecendo — e que o caminho pela frente é tão importante quanto o que já foi percorrido.

O Paraná no mapa da origem

IGs Paranaenses. Crédito: Sebrae PR
IGs Paranaenses. Crédito: Sebrae PR
E aqui o assunto chega perto de casa. O Paraná tem presença importante nesse cenário — e mais forte do que muitos imaginam. O estado conta hoje com três cafés com Indicação Geográfica, conforme explica Mabel Guimarães, Gestora Estadual de Indicações Geográficas do Sebrae PR::
"O estado do Paraná conta hoje com três cafés com Indicação Geográfica. O Norte Pioneiro, com Indicação de Procedência, e Mandaguari e Serra de Apucarana, com Denominação de Origem. A Denominação de Origem é um título concedido quando o terroir contribui diretamente para as características do produto. Isso é comprovado por análises e estudos que mostram que os cafés de Mandaguari e da Serra de Apucarana possuem um sabor único e diferenciado, com notas de caramelo, rapadura e nuances de doce de leite."
Mabel Guimarães - Gestora Estadual das Indicações Geográficas. Crédito: Divulgação
Mabel Guimarães - Gestora Estadual das Indicações Geográficas. Crédito: Divulgação
Vamos por partes. O Norte Pioneiro do Paraná, reconhecido como Indicação de Procedência, é uma região tradicional, uma das mais antigas do estado na cafeicultura, com municípios como Jacarezinho, Bandeirantes e Ribeirão Claro formando um corredor cafeeiro que construiu a história do café no Paraná.
Mandaguari e Serra de Apucarana conquistaram a Denominação de Origem — o nível mais alto de IG. Isso significa que estudos comprovaram que os cafés dessas regiões têm características sensoriais ligadas diretamente ao seu terroir. E o que isso significa na xícara? Como descreve Mabel Guimarães, são cafés com notas de caramelo, rapadura e nuances de doce de leite — um perfil sensorial único, que você só encontra porque o solo, o clima e a altitude daquelas regiões específicas entregam isso no grão.
Mandaguari, aliás, é cidade da região de Maringá — a menos de uma hora de distância. É um orgulho local que merece ser celebrado por quem lê esta coluna no Norte do Paraná.
E o que torna o café paranaense especial é exatamente essa combinação: um clima que favorece o cultivo, altitudes que contribuem para a maturação lenta do grão (o que desenvolve mais açúcares e complexidade) e, principalmente, a mão das famílias que cultivam café no estado há gerações. Mas, como ressalta Mabel Guimarães, o selo não se sustenta sozinho — ele exige disciplina:
"Para se ter um café com Indicação Geográfica, é preciso estar dentro de uma delimitação geográfica, seguir o Caderno de Especificações e ter um controle que verifica se o café está mantendo o padrão e o sabor esperado."
Ou seja: não basta estar no lugar certo. É preciso produzir dentro de regras, manter o padrão e garantir que cada safra continue entregando aquilo que fez a região ser reconhecida. A IG é um compromisso — com o lugar, com o produto e com quem vai beber.

Do grão à xícara

A próxima vez que você entrar numa cafeteria ou passar pela prateleira de cafés especiais no mercado, repare nos rótulos. Procure por aqueles nomes de região, por aquele selo de Indicação Geográfica. Cada um deles representa um território, um clima, um solo, uma comunidade de pessoas que se organizou para produzir algo único.
Juliano Tarabal, do Cerrado Mineiro, faz uma comparação que ajuda a entender para onde caminhamos:
"Hoje, no vinho, isso é muito claro: você fala que tomou um vinho da França, mas de onde na França? Champagne, Alsácia, Bordeaux, Borgonha. Não basta falar o país, porque cada região tem sua característica. No Brasil, estamos construindo essa arquitetura. Você fala que tomou um café — mas de onde? Do Cerrado Mineiro, da Mantiqueira, das Matas de Minas, da Alta Mogiana. O selo leva a garantia da origem para o consumidor, que passa a identificar os cafés não só pelo sabor, mas pela história — e a navegar melhor na hora da compra."
O café brasileiro sempre foi gigante em volume. Agora, está ficando grande em identidade. E isso é uma excelente notícia para quem gosta de café — e para quem o produz.
Da próxima vez que você preparar uma xícara, leia o rótulo. Talvez ele tenha um endereço. E esse endereço conta uma história que vale a pena conhecer — de perto, e na xícara.