De uma forma um pouco sugestiva, esse texto vai relacionar o tema de invasão alienígena a um prato com batatinha frita. Mas, espero, vai fazer sentido quando terminarem de ler. Prometo.
Em junho, antes do jogo do Brasil contra a Escócia, uma vidente com mais de 23 milhões de seguidores chorou nos stories prevendo que uma nave alienígena desceria sobre o Hard Rock Stadium, levando jogadores e torcedores embora. A data marcada para a invasão alienígena era 24 de junho.
Em casa, esse tipo de assunto mais esotérico sempre foi levado a sério com bom humor. Conversamos sobre isso no almoço, já que a piada já estava pronta: meu pai e eu temos sangue tipo AB-, e existe uma brincadeira entre nós de que esse tipo sanguíneo vem "de origem extraterrestre". Existem muitos fóruns de ufologia, na verdade, que dizem que o sangue Rh negativo (especialmente o AB-, por ser o mais raro) seria o resultado direto desse cruzamento genético ou de uma linhagem "pura" desses tripulantes espaciais.
Então, se a vidente tivesse razão, seríamos os primeiros da lista a serem abduzidos no planeta.
Daí surgiu a discussão: se fôssemos mesmo abduzidos no dia 24 de junho, qual seria a nossa última refeição?
Minha resposta veio sem pensar muito. Bife acebolado com batata frita, o mesmo prato que minha mãe fazia no almoço antes da escola, quando eu era criança. Por coincidência ou não, foi exatamente o que ela preparou para mim no dia que, hipoteticamente, eu seria abduzida durante o jogo da Copa. Hoje, quando é o prato do dia, brincamos que é a "refeição do último dia". Sem brincadeira nenhuma.
E é a mesma refeição que eu ainda peço para fazerem para mim, seja mãe ou avó, ou cozinho sozinha, quando preciso me sentir cuidada, amada ou confortada de alguma forma.
Existe algo revelador nesse exercício hipotético. Perguntar qual seria sua última refeição nem sempre fala do prato mais impressionante que você já comeu. Busca quem cuidou de você primeiro. O vínculo que a gente cria com um prato de conforto mora menos na receita e mais em quem estava por perto quando aquele sabor apareceu pela primeira vez, seja na casa, na mesa, no dia comum em que ele surgiu sem nenhuma pretensão.
E não sou só eu carregando isso. Descobri que o engajamento com pratos de infância cresceu 3,3 vezes de um ano pro outro entre o pessoal da minha idade, de acordo com uma pesquisa da Tastewise, um movimento que a indústria observa de longe tentando entender.
Se nunca ouviu falar do nome que leva esse tipo de prato, vou te contar. O termo surgiu nos anos 90, e desde o início nunca foi sobre o prato em si, e sim sobre o que ele representa. Se chama comfort food, ou "comida conforto". Pode ser um docinho de festa infantil, o miojo da Turma da Mônica sabor tomate, um prato com batatinha frita ou aquele prato em específico que a sua avó fazia antigamente. Às vezes, eu mesma peço no delivery uma caixa com 24 docinhos de festa só porque, hoje em dia, não frequento mais tantas festas de criança (e hoje em dia elas não são tão divertidas como quando eu era criança, rs).
Joguei a pergunta pros stories pra ver se a resposta era só minha ou se existia um padrão. Uma colega minha me mandou a mais completa: arroz doce, especificamente o da mãe dela. "Arroz doce é aquele dia que eu me sinto abraçada pela minha mãe, é aquele arroz doce hiper mega calórico, com leite condensado, canela, leite em pó. Não é todo dia que eu tenho em casa por causa disso, de ser bem calórico, toda vez que a minha mãe faz eu me sinto a mulher mais amada do mundo. É aquela sensação quentinha no fundo do estômago, me sinto especial."
O padrão se repete em quase toda resposta, como o macarrão da mãe, o arroz que a avó faz com batatinha e salame. Arroz, feijão e linguiça de todo domingo. Ninguém mandou nome de restaurante.
O que esse tipo de resposta costuma revelar é que a receita quase nunca foi escrita em lugar nenhum. Foi decorada de olho, observando a mão de alguém mexer a panela sem medir nada. E quando essa pessoa não está mais por perto pra fazer o prato, sobram duas saídas: pedir pra quem sempre fez continuar fazendo, enquanto ainda dá, ou aprender a fazer com as próprias mãos, para manter esse afeto vivo mesmo sem a companhia. Faz sentido, também, que quase quatro em cada dez pessoas da minha geração digam não ter orçamento sobrando pra sair experimentando comida nova: nem sempre dá pra sair atrás de uma versão bonita e cara desse prato quando bate a saudade.
Ninguém respondeu prato de restaurante nem nada bonito de feed. A lista virou puro caderno de receita de mãe e de avó, miojo específico de alguma infância. Se a vidente acertar a data um dia, pelo menos já sabemos, coletivamente, o que vai estar na mesa quando a nave chegar.