Jussara Voss

Jussara Voss

Jussara Voss é jornalista especializada em gastronomia. Reconhecida por seu olhar criterioso, valoriza autenticidade, origem dos ingredientes e o trabalho autoral dos chefs. É uma das vozes mais respeitadas fora do eixo Rio-São Paulo e autora do livro Juro que Comi e dos e eventos Letras à Mesa - um jantar literário-, e do Juro que danço, uma balada ao meio-dia, durante a semana, para retomar as atividades da Gastromotiva em Curitiba. Instagram: @jussaravoss

Vosso Blog de Comida

Ninguém cozinha o futuro sozinho

28/08/2026 12:15
Thumbnail

Ninguém cozinha o futuro sozinho. Crédito: Divulgação.

Gastromotiva 20 anos
Venci meu medo de altura, subi os mais de 400 degraus da torre no Museu da Amazônia para ver de cima um mar de árvores, o dossel. Além do feito, voltei da Amazônia com a certeza de que a balada na hora do almoço, durante a semana, o Juro que danço, inspirada em um clube de Berlim, é necessária. A ideia é proporcionar às pessoas um momento disruptivo: da alegria à empatia para olhar o próximo que precisa ser incluído. Já foram realizadas cinco edições em Curitiba, e é nesse gesto que mora a conexão com a Gastromotiva: o evento tenta arrecadar recursos para retomar as atividades da ONG em Curitiba. Mas foi a merendeira manauara Adeilza Martins, que trabalha na rede pública há 18 anos, quem me deu a certeza do poder da união e da festa.
Entendi que o Juro que danço é um “ajuri” em que cada pessoa oferece o que pode: “música, comida, trabalho, recursos, presença e alegria para construir alguma coisa juntos”. No Amazonas, significa o trabalho coletivo, mutirão, ajuda comunitária: pessoas que se juntam para realizar o que sozinho seria difícil. Geralmente, o mutirão termina com comida, bebida, música e celebração. A alegria faz parte da ação comunitária.

Encontros

Conheci Adeilza, e tanta gente mais, em um dos quatro encontros promovidos pela Gastromotiva. Fui até São Paulo, Rio de Janeiro e Manaus. O próximo será na Cidade do México. A série de eventos foi organizada para comemorar os 20 anos da ONG e para pensar o futuro. A instituição foi criada pelo chef David Hertz com uma ideia simples: mudar vidas a partir da comida. Ele viu na cozinha uma oportunidade para formação profissional, geração de renda, fortalecimento das comunidades e combate às desigualdades. A cozinha, muito mais do que um espaço de produção de alimentos. 
Em Manaus, território foi uma das palavras mais ouvidas e a certeza que ficou é a de que quem vive no local conhece o problema e precisa participar da solução. Há projetos em que a filantropia precisa assumir o risco inicial, defendeu o empresário Denis Minev. Mostrar que uma solução funciona e criar um modelo que depois possa ser ampliado. “É preciso encontrar aqueles pequenos investimentos capazes de produzir uma grande transformação”. Ele afirmou que existem milhões de hectares já degradados que poderiam voltar a produzir combinando tecnologia, agrofloresta, irrigação, conhecimento tradicional, geração de alimentos, emprego e renda. “Faltam empresários nessa mesa”, provocou.
Em todas as cidades muito se falou sobre o presente, os desafios, as experiências e a necessidade de construir o futuro. O futuro, lembrou David, será resultado das escolhas que fazemos hoje. “É preciso saber quem terá lugar à mesa em que esse futuro é decidido”.
O desafio é sensibilizar gestores, mostrar resultados, criar conselhos e redes de apoio, até recorrer aos instrumentos legais que garantem o direito humano à alimentação. “É nos municípios que as coisas acontecem", ressaltou o diretor de Estratégias em Sistemas Alimentares da Prefeitura de Curitiba, Felipe de Jesus. A União e os estados podem criar programas, normas e destinar recursos, mas são as cidades que conhecem os territórios e conseguem conectar agricultores, escolas, universidades, assistência social, cultura, meio ambiente e segurança alimentar.
Futuro
Depois de 20 anos realizando projetos, a Gastromotiva identifica a necessidade de comunicação e articulação. Para alcançar escala e permanência, é preciso inspirar a política pública, como aconteceu em Curitiba. O Refettorio Gastromotiva inspirou a criação de um restaurante popular na cidade. Hoje, de acordo com Felipe de Jesus, são sete unidades e mais de dois milhões de refeições servidas gratuitamente, com mais de 1.500 voluntários trabalhando. “Curitiba está tentando colocar o alimento dentro do planejamento da cidade como elemento estratégico”, explicou.
Os encontros também têm como objetivo amplificar o que foi discutido para o maior número possível de pessoas. “A gente acredita nesse poder de comunicar tudo o que está sendo feito e o que pode ser feito”, disse David. Os próximos 20 anos serão dedicados a descobrir como sociedade civil, poder público, setor privado e academia podem trabalhar juntos. “Cada um com sua competência para diminuir desigualdades e transformar sistemas alimentares”. 
A Amazônia vive um paradoxo: tem uma enorme biodiversidade e, ao mesmo tempo, fome. A conclusão é que não basta produzir comida. É preciso reorganizar o sistema alimentar. Um projeto de criação comunitária de aves é um exemplo concreto. A iniciativa aconteceu diante da fome que David constatou em uma comunidade. “Produziam guaraná orgânico para exportar e tinham farinha para comer”. 
Uma parceria entre Gastromotiva, Instituto Acariquara, universidade, iniciativa privada e comunidade possibilitou o desenvolvimento de um protótipo, que ganhou autonomia e depois escala. Uma experiência territorial virando tecnologia social e política pública. “Um modelo que deu certo”, contou o empreendedor social. É isso que significa cozinhar o futuro.
BOX
“Nós das comunidades é que sabemos onde está a pedra no sapato”, disse Adeilza. A afirmação da merendeira foi confirmada pelo professor Cloves Pereira: os povos indígenas e as comunidades tradicionais são “sujeitos políticos detentores de conhecimento”. O professor defende que não se trata de levar uma solução pronta à Amazônia, mas de construir a partir do que já existe. “Nós somos o meio ambiente”. O ser humano esquece que faz parte da natureza.
O diagnóstico mais duro veio no Rio de Janeiro. O coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia e conselheiro de instituições, Ricardo Abramovay, falou sobre a monotonia do atual sistema agroalimentar. Ele citou como problemas: a agricultura separada da biodiversidade; a criação animal separada dos ecossistemas que deveriam sustentá-la; e a alimentação separada da saúde.
“Não basta formar mais pessoas”, disse a executiva Luana Génot. E ressaltou que é preciso criar condições para que elas tenham autonomia, ascensão social e reconhecimento. 
Joana Martins, que é apaixonada pela sua terra, o Pará, defendeu o consumo de ingredientes amazônicos para criar conexão com o território e gerar desenvolvimento. “Podemos reaprender com modos ancestrais de produzir, cozinhar e comer”.
A imagem das árvores vista da torre mostra que não enxergamos onde ela termina. A cooperação, a reciprocidade, o pertencimento, como as raízes da floresta, não aparecem de cima. Acontecem embaixo da terra, onde a vida real da floresta se sustenta.
A resposta para “quem vai cozinhar esse futuro” é ninguém sozinho. No Amazonas, aprendi o nome disso: “ajuri”. “Trabalhamos por uma causa comum e festejamos”, contou-me Adeilza.