Embora não esteja tão distante no tempo, poucos se lembram de que o Paraná já foi o maior produtor de café do mundo. Na década de 1970, o Estado respondia por quase metade da produção nacional, com mais de 20 milhões de sacas por ano, segundo séries históricas do IBGE. A Geada Negra de 1975 mudou esse cenário para sempre, deslocando a cafeicultura em larga escala para estados como Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo. Durante décadas, o Paraná passou a ser associado ao passado do café brasileiro, e não ao seu futuro.
Essa história, porém, está sendo reescrita. Não pela quantidade, mas pela qualidade.
Um mercado que cresce três vezes mais rápido que o café commodity
Os cafés especiais crescem cerca de 15% ao ano no Brasil, enquanto o café convencional avança em torno de 2%. Embora ainda representem entre 5% e 10% do mercado nacional, esse segmento movimenta consumidores dispostos a pagar mais por rastreabilidade, qualidade e experiência. O valor pago por um lote especial pode variar de 30% a mais de 100% em relação ao café tradicional.
É nesse novo posicionamento que o Paraná volta a ganhar destaque. O estado ainda cultiva café em mais de 180 municípios, reúne cerca de 8 mil produtores — 85% deles ligados à agricultura familiar — e já possui regiões reconhecidas por Indicação Geográfica, como o Norte Pioneiro, a Serra de Apucarana e os Cafés de Mandaguari. Em 2025, o estado também marcou presença de forma institucional na Semana Internacional do Café, em Belo Horizonte, uma das principais vitrines do setor no país.
Maringá: de consumidora a protagonista
Se a produção de cafés especiais ainda é relativamente modesta em volume, é no consumo e na formação da cultura cafeeira que Maringá vem se destacando nacionalmente.
A cidade abriga a Rota dos Cafés Especiais de Maringá e Região, núcleo setorial do Programa Empreender da ACIM em parceria com o Visite Maringá e Região. A iniciativa reúne dezenas de cafeterias, torrefações e produtores em ações permanentes voltadas à capacitação de profissionais, educação do consumidor e fortalecimento do mercado por meio de campanhas coletivas, como o Festival de Bebidas Geladas e a Rota da Experiência.
O ponto alto desse movimento foi o Festival do Café Especial, realizado em Maringá, que reuniu cerca de 30 empresas em uma operação colaborativa batizada de "A Maior Cafeteria do Mundo". O evento sediou a eliminatória da região Sul da Copa Hario, promoveu masterclasses de análise sensorial e recebeu alguns dos principais nomes do barismo e do mercado nacional.
O festival consolidou uma percepção que já vinha ganhando força: Maringá tornou-se um dos principais polos da cultura do café especial no Sul do Brasil. Mais do que cafeterias, a cidade construiu uma comunidade de consumidores, empreendedores e profissionais que passou a competir pela qualidade da experiência oferecida ao cliente.
Há ainda um diferencial importante. Conhecida como Capital do Associativismo, Maringá demonstra, na prática, como empresas concorrentes podem atuar de forma colaborativa para fortalecer todo um setor econômico, ampliando mercado, qualificando profissionais e formando novos consumidores.
Curitiba: um mercado consolidado
Curitiba, por sua vez, ocupa há mais tempo uma posição consolidada no cenário dos cafés especiais. Foi na capital paranaense que nasceram algumas das principais marcas e franquias do segmento no país.
A cidade desenvolveu uma cultura própria de cafeterias de bairro, espalhadas por regiões como Batel, Centro Cívico e Mercês, onde predominam a curadoria de grãos, a torra própria, métodos filtrados, cold brew e uma agenda constante de cursos e eventos voltados ao café.
Projetos como o café-escola do SENAC, instalado junto ao Jardim Botânico, também reforçam a vocação da cidade para a formação de profissionais.
Curitiba concentra ainda boa parte da qualificação técnica do setor no Paraná. Empresas como a Lucca Cafés Especiais — pioneira na difusão do café especial no Brasil e uma das primeiras escolas credenciadas pela Specialty Coffee Association (SCA) — ajudaram a formar gerações de profissionais. Hoje, nomes como Argenta Cafés, Lucca e Sperto Coffee continuam capacitando dezenas de baristas, classificadores e empreendedores todos os meses.
Curitiba funciona como vitrine do mercado: possui maior visibilidade, maior volume de consumo e um público já acostumado a valorizar cafés de maior qualidade. Mas é justamente essa maturidade que abre espaço para cidades como Maringá demonstrarem que excelência e cultura cafeeira não são exclusividade dos grandes centros.
Duas velocidades, um mesmo movimento
O que conecta Curitiba e Maringá — e, por consequência, o Paraná — é uma mudança de paradigma: a transição do café como commodity para o café como experiência.
Rastreabilidade, método de preparo, perfil sensorial e história do produtor deixaram de ser informações técnicas para se tornarem elementos centrais da narrativa e do valor percebido pelo consumidor.
Curitiba representa um mercado mais consolidado, com consumidores experientes e profissionais altamente qualificados. Maringá, por sua vez, demonstra como o associativismo acelera a formação de mercado, aproximando produtores, cafeterias, torrefações e consumidores em torno de objetivos comuns. O intercâmbio constante entre profissionais das duas cidades fortalece todo o ecossistema do café especial paranaense.
Esse movimento aponta para uma nova vocação da cafeicultura estadual. O Paraná talvez não volte a ser o maior produtor de café do Brasil em volume, mas pode se consolidar como referência em qualidade, agregação de valor e rentabilidade ao produtor.
Mais do que recuperar um protagonismo perdido, o estado tem a oportunidade de transformar sua tradição cafeeira em um dos ativos mais relevantes da gastronomia, do turismo e da economia criativa paranaense.