Rio Grande do Sul

Muito além de setembro: um lugar para viver a cultura gaúcha o ano inteiro em Porto Alegre

Anderson Hartmann, de Porto Alegre, especial para Bom Gourmet
09/09/2026 13:27
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O fogo de chão é um dos protagonistas das experiências do Rancho Tabacaray, onde o churrasco se conecta à tradição, ao território e à cultura gaúcha.

Finalista de Melhor Parrilla no Prêmio Bom Gourmet RS 2026, Rancho Tabacaray ocupa uma propriedade histórica na Zona Sul da Capital e transforma fogo, música, gastronomia e memória em uma experiência de conexão com a cultura do Rio Grande do Sul
Setembro muda o ritmo do Rio Grande do Sul. A pilcha aparece mais, o mate circula com ainda mais frequência e a música regional ganha espaço em palcos, parques e galpões. Mas há lugares em que essa experiência não depende do calendário. Em Porto Alegre, o Rancho Tabacaray é um deles. Instalado na Vila Nova, na Zona Sul da Capital, o Rancho ocupa uma propriedade histórica com mais de um século de existência. A casa, de 1898, e o galpão centenário carregam histórias de diferentes gerações e hoje servem de cenário para encontros que aproximam passado e presente por meio da gastronomia, da música e da cultura regional.
O Rancho não funciona como um restaurante convencional, aberto diariamente. É uma casa de experiências culturais e gastronômicas, que recebe programações em datas específicas e tem no fogo um de seus elementos centrais. Até o nome carrega esse propósito. Tabacaray, de origem tupi-guarani, significa “filho de um grande líder” e traduz a intenção do espaço de honrar as raízes, fortalecer a comunidade e manter viva a cultura gaúcha.
Em 2026, o Rancho chega ao Mês Farroupilha como finalista na categoria Melhor Parrilla do Prêmio Bom Gourmet Rio Grande do Sul. À frente do projeto está Antônio Costaguta, que, em 2025, foi um dos homenageados pelo próprio Prêmio por seu trabalho de valorização da gastronomia do fogo e da cultura gaúcha.

Quando ser gaúcho parecia ser o mundo inteiro

A relação de Costaguta com esse universo começou muito antes de transformar fogo, carne e cultura em profissão. Na abertura do Piquete El Topador, realizada neste mês de setembro no próprio Rancho, ele voltou à infância para explicar de onde vem essa conexão.
Houve um tempo em que eu pensei que todo mundo era gaúcho. Na minha infância, eu imaginava que as conversas ao redor do fogo e o mate amargo eram dois elementos comuns na vida de qualquer ser humano. Nos meus sonhos, a milonga era o ritmo que embalava todos os amores, a pilcha era a roupa de gala e o cavalo o nosso melhor amigo.
Nascido em Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, Costaguta cresceu em um território onde culturas, sotaques, comidas e costumes atravessam a linha que separa dois países. Mais tarde, o fogo se tornaria também uma forma de expressão profissional. Com o El Topador, criado em 2015, passou a construir experiências que aproximam gastronomia, música e tradição. No Rancho Tabacaray, esse trabalho encontrou um território para ganhar novas formas.

Um gaúcho feito de muitos pedaços

Mas reduzir o trabalho de Costaguta à carne e ao fogo seria contar apenas parte dessa história. Filho de Tiaraju Costaguta, ele cresceu ouvindo do avô, Zeca Costaguta, histórias sobre Sepé Tiaraju e as Guerras Guaraníticas. Com o passar dos anos, começou também a refletir sobre as diferentes influências que formaram a identidade do Rio Grande do Sul. A conclusão aparece em uma das frases mais fortes de sua fala:
Anos depois fui entendendo que o gaúcho era feito de muitos pedacinhos.
A identidade gaúcha não nasceu de uma única origem. Foi construída por diferentes povos, encontros, conflitos, fronteiras e movimentos que atravessaram esse território ao longo dos séculos. Em 2026, o Piquete El Topador escolheu justamente as Missões como ponto de partida para refletir sobre essa formação. A sétima edição coloca em evidência o legado dos povos indígenas e a contribuição artística e cultural da região missioneira, mostrando uma identidade que permanece viva e em transformação. É também nesse contexto que outra frase de Costaguta ajuda a compreender o pensamento por trás do Rancho:
Antes da palavra vinha o fogo, antes do discurso a roda de mate passando de mão em mão, assim como passou de geração em geração o direito e o dever de contar essa história.

O fogo como linguagem

No Rancho Tabacaray, o fogo deixa de ser apenas uma técnica de cocção. É linguagem. A parrilla e o fogo de chão ocupam o centro de muitas das experiências promovidas pela casa e remetem também à cultura de fronteira na qual Costaguta cresceu. Mas o fogo não está sozinho. Música, gastronomia, arquitetura, fotografia, artesanato, mate e outras manifestações culturais podem dividir o mesmo espaço. É uma proposta que o próprio Costaguta resume ao dizer que “a música é a porta de entrada, mas compartilha o espaço com a gastronomia, a escultura, a fotografia, o artesanato, a cultura do mate, a arquitetura”.
É justamente essa convivência que ajuda a explicar a singularidade do Tabacaray. O galpão vira palco, o fogo permanece aceso e a mesa recupera uma de suas funções mais antigas: ser lugar de encontro. Não se trata de reproduzir uma imagem congelada do que é ser gaúcho. Trata-se de fazer essa cultura acontecer no presente.

Um Rio Grande que também se prova

Se a música e as histórias ajudam a contar o Rio Grande do Sul, é à mesa que essa identidade ganha sabor. Nas experiências do Rancho, o cardápio muda conforme cada encontro, mas o fogo permanece como protagonista. Costelão preparado lentamente no fogo de chão, cortes na parrilla, linguiças artesanais, empanadas, carreteiros e outras receitas ligadas à cozinha do Sul já passaram pelos diferentes menus da casa.
Mais importante do que uma lista fixa de pratos, porém, é a lógica que orienta essa cozinha. Aproveitamento integral dos ingredientes, valorização dos produtores locais e respeito ao bioma Pampa estão entre os princípios que norteiam o trabalho desenvolvido por Antônio Costaguta.  É uma gastronomia que faz sentido justamente porque não está isolada do restante da experiência. A carne, o fogo, a música e a conversa pertencem à mesma mesa.
É possível chegar atraído por um artista e terminar a noite descobrindo um corte. Ou chegar pelo fogo e encontrar no palco uma música que ajuda a compreender melhor aquele território.

Uma casa que carrega mais de um século de histórias

O endereço também faz parte da experiência. Na Vila Nova, distante do circuito gastronômico mais óbvio da região central de Porto Alegre, o Rancho ocupa uma propriedade histórica. A casa de 1898 e seu galpão centenário fazem com que entrar no espaço seja também entrar em contato com outra camada da história da Zona Sul da cidade. E isso importa.
O fogo aceso dentro de uma propriedade atravessada por gerações, a música regional e uma mesa compartilhada produzem uma atmosfera difícil de reproduzir em um endereço criado apenas para parecer antigo. No Tabacaray, o passado não funciona apenas como cenário. Faz parte da experiência.

Muito além de setembro

É durante o Mês Farroupilha que o Rancho ganha uma de suas programações mais intensas. Neste ano, a sétima edição do Piquete El Topador ocupa o espaço entre 2 e 20 de setembro, reunindo música, gastronomia, artes visuais, artesanato, fotografia, declamação, fogo de chão e outras manifestações culturais. Mas setembro é apenas uma das portas de entrada para o lugar.
Desde sua inauguração, em 2022, o Rancho mantém uma programação permanente que aproxima música, gastronomia, literatura, fotografia e manifestações culturais do Sul da América. E talvez esteja justamente aí uma das melhores razões para conhecê-lo. Para quem vem de fora, é uma oportunidade de experimentar diferentes elementos da cultura do Rio Grande do Sul para além dos cartões-postais e das celebrações de setembro. Para quem nasceu aqui, pode ser uma maneira de reencontrá-los.

De homenageado a finalista

A relação com o Prêmio Bom Gourmet Rio Grande do Sul ajuda a completar essa trajetória. Em 2025, Antônio Costaguta foi homenageado pelo Prêmio por sua contribuição à cultura gastronômica do Estado e por encontrar no fogo uma maneira de difundir conhecimento, tradição e identidade. Um ano depois, o olhar se volta para o Rancho. Em 2026, o Rancho Tabacaray está entre os cinco finalistas da categoria Melhor Parrilla do Prêmio Bom Gourmet Rio Grande do Sul.
A indicação reconhece a parrilla, mas ajuda também a colocar luz sobre algo maior que acontece ao redor dela. Em um momento em que a gastronomia se tornou também uma maneira de viajar e compreender territórios, o Rancho propõe uma viagem que começa sem sair de Porto Alegre. Uma viagem pelo fogo, pela música, pela fronteira, pelas Missões, pela memória e pela mesa. Setembro pode ser o convite. Mas a cultura gaúcha que se vive ali não termina no dia 20.

Serviço

Rancho Tabacaray
Avenida Vicente Monteggia, 2770 - Vila Nova, Porto Alegre
Casa de experiências culturais e gastronômicas
Programação em datas específicas - consulte a agenda da casa
Piquete El Topador 2026
De 2 a 20 de setembro
Rancho Tabacaray
Informações: (51) 99876-4010