Brasil

De cinco estados para a taça: os vinhos Grande Ouro que revelam a nova geografia do vinho brasileiro

Anderson Hartmann, de Porto Alegre, especial para Bom Gourmet
29/08/2026 16:40
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Os produtores por trás dos Grande Ouro: diferentes territórios reunidos para celebrar a força do vinho brasileiro.

Em Bento Gonçalves, masterclass reuniu 20 rótulos premiados no Brazil Wine Challenge 2026 e mostrou um Brasil que produz vinhos de excelência muito além de suas fronteiras tradicionais.

O mapa do vinho brasileiro está cada vez maior. E, em uma única noite, foi possível percorrer parte importante dele sem sair de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha. Vinhos produzidos por casas do Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, São Paulo e Distrito Federal dividiram as taças durante a Masterclass Grande Ouro do Brazil Wine Challenge 2026, realizada no dia 27 de agosto, no CIC Bento Gonçalves.

Foram 20 rótulos brasileiros, apresentados em quatro baterias de cinco, todos detentores da principal distinção do concurso. Mais do que uma degustação, o encontro colocou lado a lado diferentes expressões de uma vitivinicultura brasileira que avança em qualidade, diversidade e território. E havia uma particularidade: os vinhos não chegaram sozinhos. Enólogos e representantes das vinícolas puderam contar ao público o que existe por trás de cada garrafa - justamente a história que uma avaliação às cegas, por definição, não conhece.
É aí que está, para Caroline Dani (foto acima), presidente da Associação Brasileira de Sommeliers do Rio Grande do Sul (ABS-RS), uma das razões de existir da masterclass.
“O produtor, quando encaminha um produto para um concurso, não tem a chance de contar sobre ele. A degustação é às cegas: não sabemos quem são os produtores nem a história daquele vinho. Quando temos esse vinho premiado, entendemos que é justo dar voz para quem pensou aquele produto.”
A edição de 2026 tornou essa conversa ainda mais significativa. O 13º Brazil Wine Challenge, promovido pela Associação Brasileira de Enologia (ABE), foi o maior da história: recebeu 1.127 amostras de 19 países. Os vinhos foram avaliados às cegas por um júri internacional e, neste ano, a régua ficou ainda mais alta: para receber Grande Ouro, passou a ser necessário alcançar 94 pontos ou mais
Mesmo assim, o Brasil chegou a um resultado histórico: 28 rótulos brasileiros receberam Grande Ouro, dentro de um total de 53 vinhos agraciados com a distinção no concurso. Como algumas vinícolas conquistaram mais de um Grande Ouro, a organização da masterclass pediu que selecionassem um rótulo para representá-las. Assim se chegou aos 20 vinhos efetivamente degustados na noite, conforme explicou Caroline Dani.

Rio Grande do Sul segue no centro da taça

A nova geografia do vinho brasileiro não diminui a importância de seu território mais tradicional. Pelo contrário. O Rio Grande do Sul dominou a seleção da masterclass, com 14 dos 20 rótulos degustados. E os números gerais do Brazil Wine Challenge reforçam essa liderança: das 241 medalhas conquistadas pelo Brasil nesta edição, 168 foram para produtos gaúchos - quase 70% do total nacional. 
É da Serra Gaúcha, inclusive, a maior parte dos nomes que chegaram às quatro baterias: Garibaldi, Casacorba, Casa Perini, Valmarino, Casa Valduga, Peterlongo, Don Laurindo, Battistello, Don Guerino, Gazzaro, Jolimont, Nova Aliança e Cave Antiga, além da Miolo.
Mas ao redor deles aparece um Brasil que há algumas décadas dificilmente seria imaginado numa mesma degustação de grandes vinhos. Minas Gerais esteve representada pela Casa Geraldo e pela Alma Mineira; o Distrito Federal, pela Oma Sena e pela Vinícola Brasília; São Paulo, pela Davo's; e o Paraná, pela Zanlorenzi.
“Vemos essa evolução, o quanto estamos evoluindo, com vinhos de Brasília, São Paulo, Minas Gerais, do Nordeste. Isso mostra exatamente a pujança que temos em nível de país”, resumiu Caroline.
E o próprio resultado geral do concurso amplia ainda mais essa fotografia: as 241 medalhas brasileiras foram distribuídas entre produtores de 11 estados e do Distrito Federal, incluindo Pernambuco, Santa Catarina, Goiás, Acre, Rio de Janeiro, Paraná e Bahia. 

Paraná conquista seu espaço entre os Grande Ouro

Entre os 20 escolhidos para a noite, um rótulo colocou o Paraná no seleto grupo: o Campo Largo Freeze Frisante Natural Rosé 2026, da Zanlorenzi Bebidas, de Campo Largo.
O frisante recebeu Grande Ouro no Brazil Wine Challenge, enquanto outros dois produtos da empresa - Campo Largo Espumante Moscatel e Lunar Espumante Branco Brut Rosé - receberam Ouro. No resultado geral, o Paraná encerrou o concurso com quatro medalhas
A presença paranaense ganha relevância justamente em uma degustação dominada pela tradição gaúcha: mostra como novas empresas, estilos e origens começam a ocupar espaço entre os vinhos brasileiros reconhecidos por avaliações internacionais.

Quatro baterias, 20 Grande Ouro

Dos 28 rótulos brasileiros que conquistaram Grande Ouro no Brazil Wine Challenge 2026, 20 foram selecionados para a Masterclass. Como algumas vinícolas tiveram mais de um vinho entre os premiados, a escolha permitiu ampliar a presença de diferentes produtores na degustação.
Na taça, os 20 vinhos foram apresentados em quatro baterias de cinco rótulos. A sequência começou pelos espumantes, avançou pelos tintos e terminou com uma bateria de estilos diversos - um percurso que ajudou a revelar não apenas diferentes uvas e métodos de elaboração, mas também a diversidade de terroirs que hoje compõem o vinho brasileiro.

Bateria 1 — Espumantes

Garibaldi VG Espumante Brut Rosé
Cooperativa Vinícola Garibaldi - Garibaldi (RS)
Casacorba Espumante Brut
Vinhos Casacorba - Nova Roma do Sul (RS)
Casa Perini Vintage Barriqué Espumante Brut 2023
Vinícola Casa Perini - Farroupilha (RS)
Valmarino Espumante Blanc de Noir Brut 2021
Vinícola Valmarino - Pinto Bandeira (RS)
Casa Valduga 130 anos D.O.V.V. Espumante Extra Brut
Casa Valduga Vinhos Finos - Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves (RS)

Bateria 2

Mantis Cabernet Sauvignon 2020
Casa Geraldo - Andradas (MG)
Armando Winemaker Teroldego 2020
Estabelecimento Vinícola Armando Peterlongo - Garibaldi (RS)
Miolo Vinhas Velhas 2022
Vinícola Almadén / Miolo Wine Group - Santana do Livramento (RS)
Dialeto 2022
Oma Sena Vinhos - Brasília (DF)
Merlot Memorável 2020
Vinhos Don Laurindo - Vale dos Vinhedos, Garibaldi (RS)

Bateria 3

Felício Tinto 2024
Vinícola Alma Mineira - Senador José Bento (MG)
Battistello Reserva Cabernet Franc 2020
Vinícola Battistello - Vale dos Vinhedos, Garibaldi (RS)
Monumental Syrah 2023
Vinícola Brasília - Brasília (DF)
Davo Syrah 2023
Vinícola Davo's Vinhos e Espumantes - Ribeirão Branco (SP)
Don Guerino Cemento 2023
Vinícola Don Guerino - Alto Feliz (RS)

Bateria 4

Gazzaro Passaporte Check-in
Vinícola Gazzaro - Flores da Cunha (RS)
Jolimont Intendente 2018
Vitivinícola Jolimont - Canela (RS)
Campo Largo Freeze Frisante Natural Rosé 2026
Zanlorenzi Bebidas - Campo Largo (PR)
Aliança Espumante Moscatel Rosé 2026
Nova Aliança Vinícola Cooperativa - Flores da Cunha (RS)
Cave Antiga Vinho Licoroso 2002
Cave Antiga Vitivinícola - Farroupilha (RS)

Muito além da medalha

Se no Brazil Wine Challenge os vinhos conquistaram suas medalhas às cegas, sem que os jurados conhecessem produtores, rótulos ou histórias, na Masterclass aconteceu o movimento inverso. Depois do reconhecimento técnico, as pessoas por trás das garrafas ganharam voz. Enólogos e representantes das vinícolas apresentaram escolhas, processos e histórias que ajudaram a construir cada um dos 20 Grande Ouro degustados.
Para Caroline Dani, é justamente essa possibilidade de conhecer o pensamento por trás do vinho que torna o encontro especial.
“Poder escutar da boca deles o que pensaram é algo muito legal, porque é o storytelling que a ficha técnica nunca vai trazer.”
A noite terminou, assim, revelando algo que vai além das medalhas: um vinho brasileiro que se diversifica em territórios e estilos, conquista reconhecimento às cegas e, depois de abrir a garrafa, tem cada vez mais histórias para contar.