Porto Alegre

Um novo Mandarinier: a cozinha que coloca Porto Alegre no mapa da alta gastronomia ganha um novo palco

Anderson Hartmann, de Porto Alegre, especial para Bom Gourmet
01/07/2026 15:25
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A arquitetura chama a atenção. A gastronomia faz esquecer o restante. O novo Mandarinier ocupa um dos casarões mais bonitos de Porto Alegre, mas o que realmente marca a experiência acontece à mesa.

Há restaurantes que evoluem aos poucos. Outros têm momentos que redefinem completamente sua trajetória. Para o Mandarinier, esse momento chegou quando Leonardo Magni e Liliana Andriola deixaram a casa da Cidade Baixa para ocupar um palacete histórico no Moinhos de Vento, na capital gaúcha. A mudança vai muito além do endereço. É uma declaração sobre o tamanho do restaurante que eles desejam construir.
Eleito o 2º melhor restaurante do Rio Grande do Sul pelo ranking dos 35 Melhores Restaurantes do Prêmio Bom Gourmet, o Mandarinier inicia uma nova fase sob o comando de Leonardo Magni e Liliana Andriola, ambos reconhecidos como Chefs 5 Estrelas pelo Prêmio Bom Gourmet Rio Grande do Sul - uma das principais distinções concedidas à gastronomia do Estado.
Leo e Lili com o time de profissionais que fazem acontecer no Mandarinier.
"O convite surgiu em um momento em que entendemos que estávamos prontos para esse passo. Era um desafio importante para o nosso crescimento profissional e pessoal", resume Leonardo Magni.
O novo endereço amplia o restaurante, mas preserva aquilo que sempre fez dele uma das mesas mais interessantes de Porto Alegre: uma cozinha que não se prende a modismos e que encontra personalidade na combinação entre técnica, memória, viagens e ingredientes locais.

Cozinha guiada pelo tempo do mundo

Há uma frase impressa discretamente no cardápio que talvez explique melhor o Mandarinier do que qualquer descrição: "Cozinha guiada pelo tempo do mundo."
Quando perguntamos o que isso significa, Leonardo responde sem recorrer a conceitos complicados.
"Essa frase tem dois significados. O primeiro está relacionado à sazonalidade, ao respeito pelo tempo de cada ingrediente e pelo que cada época do ano tem de melhor para oferecer. O segundo vem das nossas viagens, que inspiram a gastronomia que fazemos."
Essa resposta ajuda a entender por que é tão difícil definir o Mandarinier dentro de uma única cozinha. Há referências asiáticas, mediterrâneas, latino-americanas e brasileiras convivendo naturalmente no mesmo menu. Mas, em vez de reproduzir pratos de outros países, Leonardo e Lili traduzem essas experiências para uma linguagem própria, construída a partir de ingredientes gaúchos.

O Rio Grande do Sul como ponto de partida

Apesar das influências internacionais, a cozinha do Mandarinier nasce no território. O siri vem de Rio Grande. O cordeiro chega do Pampa. O vazio é produzido em Santo Ângelo. Grande parte dos vegetais continua vindo da tradicional feira orgânica de Porto Alegre.
"Nossa cozinha é baseada no produto. Continuamos utilizando muito hortifruti da feira orgânica, agora em uma escala maior. Trabalhamos com ingredientes que se destacam pela qualidade e que representam muito bem o Rio Grande do Sul", explica Leonardo.
Essa relação entre produto e técnica aparece naturalmente no cardápio. O tartare com arroz, servido sobre um bolinho de arroz thai jasmim, emulsão de gergelim e picles de pepino com cúrcuma, talvez seja a entrada que melhor represente essa nova fase da casa. Delicado, preciso e surpreendente.
raviolone de siri com molho diable confirma a mesma impressão, enquanto a lula salteada na manteiga com requeijão caseiro de bergamota mostra como combinações improváveis podem parecer absolutamente naturais quando executadas com equilíbrio.

Entre a memória e a viagem

Nos principais, a cozinha segue transitando entre referências internacionais e ingredientes profundamente gaúchos. O vazio feito na brasa, servido com demi-glace, batata hasselback, aioli, tomate grelhado e chimichurri, tem sabor de domingo em família, mas aparece apresentado com delicadeza quase cirúrgica.
Já a kafta de cordeiro com homus de ervilha, coalhada, tomate, pepino e hortelã mostra outro lado da cozinha: mais aromático, mais leve e igualmente autoral. São pratos que não procuram impressionar pelo excesso. Preferem conquistar pela precisão.

O doce como assinatura

Na confeitaria, Liliana Andriola continua fazendo aquilo que talvez seja uma das grandes marcas do Mandarinier: sobremesas elegantes, equilibradas e sem exageros.
"Utilizo muito das minhas experiências com ingredientes pelos quais sou apaixonada, como framboesa, doce de ovos e iogurte. Aqui consigo produzir muito mais sorvetes, que sempre foram uma das minhas grandes paixões. Mas nunca perco minha essência de fazer sobremesas equilibradas."
quindim de abóbora e coco, servido com bolinho de milho e sorvete de coco, sintetiza bem essa filosofia. É uma sobremesa brasileira, afetiva e, ao mesmo tempo, contemporânea.
torta de chocolate branco com praliné de pistache e sorvete de framboesa segue o mesmo caminho, equilibrando acidez, textura e doçura sem excessos.

Um restaurante que amplia seus horizontes

A mudança para o Moinhos de Vento também permitiu ampliar a experiência além da cozinha. O Mandarinier agora conta com um bar próprio, carta de vinhos significativamente maior e uma seleção de rótulos que vai de excelentes opções de custo-benefício a garrafas destinadas aos apreciadores mais exigentes.
Tudo isso acontece dentro de um casarão que parece ter encontrado o restaurante certo para ocupar seus ambientes. Quando pergunto qual é o próximo sonho, Leonardo não fala em novas casas ou novos endereços.
"Queremos consolidar o Mandarinier nesta nova operação, trabalhar cada vez mais com produtos daqui, explorar novos sabores e sermos um restaurante de destaque também fora do Estado."
É um objetivo ambicioso. Mas, depois de uma noite no novo Mandarinier, a impressão é de que esse caminho já começou.

Serviço

Mandarinier
Rua Santo Inácio, 295 – Moinhos de Vento, Porto Alegre (RS)
Terça a sábado, das 19h às 22h30
@mandarinier
mandarinier.com.br