Fui conhecer os novos rótulos da Casa Silva
Sempre quero aprender mais sobre vinho. É um universo que não se esgota e que me surpreende. Cada taça é uma descoberta. Aceito sem pensar se o convite vier do Alcioni Dümes. Há quase 20 anos no mercado brasileiro, ele é formado em enologia e viticultura na Alemanha, professor, palestrante e consultor. Lembro das degustações na La Vinothèque, do Wine bar e do Wine Flight, evento que acontecia naquela casa imponente da Saldanha Marinho e sinto saudades.
Então, dei um jeito na agenda e, no meio da semana, às 17h30 em ponto, lá estava eu no restaurante Vindouro, em Curitiba, pronta para provar os novos rótulos e outros já consagrados da vinícola Casa Silva. O enólogo Juan Francisco Calderone, Leocir Venazzi, proprietário da Vinhos do Mundo, e o responsável pela minha ida, Dümes, recepcionaram o pequeno grupo de especialistas e a aprendiz de plantão.
Fomos testemunhas do lançamento da nova linha Gran Reserva Single Vineyard de Los Lingues. A linha, chamada de “intermediária” e no mercado há cerca de três meses, foi criada para preencher uma lacuna no portfólio. Podem ser a “porta de entrada para conhecer os ícones da vinícola”, disse Calderone. Os novos rótulos são mais ousados, longe dos tons de bege que identificam a marca. Mas a proposta é mostrar que foram elaborados com a mesma qualidade de todos os produtos da bodega chilena. Têm frescor, textura e equilíbrio.
A vinícola familiar foi fundada em 1997 no Valle de Colchagua por Mario Pablo Silva e seu pai Mario Silva. Eles afirmam e divulgam que a ligação da família com a terra remonta aos fins do século XIX, com um ancestral vindo de Bordeaux direto para o Chile. Seus vinhedos estão em quatro micro terroirs e acumulam prêmios locais e internacionais. A Casa Silva já ganhou pontos na minha seleção para fugir de rótulos de produção grande e industrial.
O fundador da loja Vinhos do Mundo, com sede em Porto Alegre, visitou o Chile em 2001 e acompanha o trabalho da vinícola desde então. É o representante no Brasil e amigo de Dümes.
Com perfil técnico e muita experiência em viticultura, o enólogo trabalhou 14 anos ao lado de Mario Geisse, conhecido pelo trabalho com espumantes no Brasil e com a Carmenère no Chile, a uva emblemática do país. Calderone acredita que um vinho de alta qualidade depende do manejo agrícola. Defendeu também a necessidade de atualização da vinícola sem perder a identidade ao longo do tempo, citando como exemplo os vinhos franceses de Bordeaux e da Borgonha, que não mudam de estilo drasticamente de geração a geração.
Gosto de ver nos rótulos os selos de produto vegano ou orgânico, apesar de isso não assegurar a qualidade da bebida. O vinho vegano não usa produtos de origem animal. Se for orgânico, não usa pesticidas sintéticos proibidos pelas normas de certificação. A Casa Silva tem esses selos e produz vinhos excelentes.
Ainda tivemos a oportunidade de provar os rótulos da chamada “Quinta Generación”. Cinco gerações da família deram o nome à bebida. Estão na proposta: o comprometimento com a produção, a qualidade e a preservação da tradição. Além dos lançamentos, provamos o elegante Quinta Generación, blend Sauvignon Blanc, Sauvignon Gris e Viognier, que tem potencial de guarda. E o tinto Quinta Generación, outro vinho de guarda, está entre os vinhos que “pedem comida”.
Entre goles de vinhos, aromas de pêssegos e ameixas, batemos papo e falamos sobre tendências e mercado. Eram velhos amigos de um lado da mesa e amigas com interesses comuns do outro lado. E sobre o consumo de álcool, os especialistas são categóricos: o público está bebendo menos e escolhendo produtos melhores. Os restaurantes vêm ampliando a seleção de vinhos em taça, o que estimula o consumo e a experimentação. É o meu lema: menos e melhor, seja na bebida ou na comida.
A noite já tinha descido quando deixei o Vindouro e ganhei uma carona de volta para casa. Saí pensando no homem que atravessou o oceano carregando a tradição dos vinhos de Bordeaux na bagagem. Com ele, no novo país escolhido para morar, veio a vontade de plantar uvas e produzir vinhos. Talvez devêssemos pensar nisso na hora de beber, refletir sobre o tempo que foi preciso até a bebida chegar à nossa taça. Sigo aprendendo.