Anacreon de Téos

Anacreon de Téos

 Luiz Augusto Xavier é o nome por trás do pseudônimo Anacreon de Téos. É jornalista especializado em gastronomia e cozinheiro na incansável busca de novos sabores e novas texturas.

Panela do Anacreon

Um menu só de polvo, para comemorar o retorno do restaurante Olivença

02/09/2026 15:57
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Levante Valenciano - polvo grelhado sobre uma cama de arroz cremoso de siri. Um dos destaques do menu especial de reabertura do Olivença. | Foto: Camarci do Lago

Lembro-me daquelas noites de terça-feira. Morava, então, ali perto de onde era o Olivença, no Batel, e descia nos fins de tarde para beliscar as tapas que o restaurante proporcionava.
Foi, na ocasião, 2014, uma bela sacada do empresário e restaurateur Raphael Zanette, à frente do Grupo Vino!, ao qual o restaurante estava integrado. Aproveitou o movimento um pouco mais baixo das terças para atrair o público de outra maneira e introduzir por aqui um costume muito arraigado naqueles recantos espanhóis: “tapear”. Por lá, as tapas fazem parte da programação diária de todos, numa passadinha aqui e outra ali, beliscando delícias. Chamava-se “Terça entre tapas”, oferecendo um rodízio com variedades de montaditos e outros aperitivos criados pelo chef Gilberto Prado, a preço fixo. Sempre me recordo, com saudades, daqueles momentos (registrei aqui, na época).
E por que entrei no assunto? Porque o Olivença voltou, depois daquele período de sucesso no Batel e posteriormente na Mercadoteca, até o fechamento desta. E retornou dividindo o espaço físico (salão e cozinha) com o Terra Madre, outro restaurante do Grupo Vino!, no modelo de um restaurante 2 em 1, reunindo duas cozinhas e duas identidades em um mesmo espaço.
E funciona assim: o cliente que chega pode optar entre o menu de um ou de outro, mesmo que, na mesma mesa, haja desejos divergentes. Parece ideia boa, que a prática vai poder chancelar.
Márcia Borges e Gilberto Prado conceberam juntos o menu festivo de polvo para a reinauguração do restaurante Olivença. | Foto: Camarci do Lago
Márcia Borges e Gilberto Prado conceberam juntos o menu festivo de polvo para a reinauguração do restaurante Olivença. | Foto: Camarci do Lago
Mas o retorno do Olivença não poderia ser assim, tão simples. Teria de ser retumbante, com um cardápio especial, diversificando sabores entre preparos de um dos pescados mais populares da Espanha, o polvo. Gilberto Prado foi convidado para esse momento especial, dividindo a criação dos pratos com a chef titular da casa, Márcia Borges, que começou exatamente ali, compondo a equipe de cozinha de Prado e que hoje em dia vinha tocando, com esmero e inspiração, a cozinha do Terra Madre.
O menu especial se chama “Rota do Polvo Ibérico” e estará disponível durante todo o mês de setembro, tanto no almoço como no jantar, para os apreciadores do molusco – e o cardápio normal do Olivença também. As receitas traçam um percurso entre Santiago de Compostela, no noroeste da Espanha, e Olivença, cidade fronteiriça com Portugal, cuja curiosa história inspirou o nome do restaurante. O município é administrado pela Espanha e integra a província de Badajoz, na comunidade autônoma da Estremadura, mas é formalmente reivindicado por Portugal, desde o início do século XIX. Apesar da antiga questão territorial, os dois países mantêm relações amistosas, enquanto o Estado português preserva simbolicamente sua reivindicação.
<em>A Peregrina</em>, uma empanada gallega de polvo, com massa fina, assada na casa. | Foto: Simone Meirelles / Comer &amp; Curtir
A Peregrina, uma empanada gallega de polvo, com massa fina, assada na casa. | Foto: Simone Meirelles / Comer & Curtir
F<em>eira de Carballiño</em>, com polvo cozido, batatas, páprica defumada e um fio generoso de azeite. ! Foto: Simone Meirelles
Feira de Carballiño, com polvo cozido, batatas, páprica defumada e um fio generoso de azeite. ! Foto: Simone Meirelles
Ao todo, são oferecidos sete itens, duas entradas, três pratos principais e duas sobremesas, todos com preços individuais em um menu aberto, no qual o cliente escolhe livremente o que deseja provar. Nas entradas, Márcia Borges assina A Peregrina (R$ 29), uma empanada gallega de polvo, típica de Santiago de Compostela, com massa fina, assada na casa. Já Gilberto Prado apresenta a Feira de Carballiño (R$ 59), com polvo cozido, batatas, páprica defumada e um fio generoso de azeite, inspirada na tradicional iguaria de Ourense, na Galícia.
<em>Tinta de Donostia</em>, com polvo grelhado sobre massa negra (produzida na própria cozinha) com manteiga de estragão. | Foto: Simone Meirelles
Tinta de Donostia, com polvo grelhado sobre massa negra (produzida na própria cozinha) com manteiga de estragão. | Foto: Simone Meirelles
Dos pratos principais, Márcia criou um para compartilhar, a Tinta de Donostia (R$ 265), inspirada em San Sebastián, no País Basco, com polvo grelhado sobre massa negra (produzida na própria cozinha) com uma deliciosa manteiga de estragão. Prado foi o responsável pela concepção dos outros dois. O Levante Valenciano (R$ 145) tem uma feliz combinação do polvo grelhado sobre uma cama de arroz cremoso de siri (R$ 145), enquanto o Bocata Madrileño (R$ 75) é um sanduíche com maionese de páprica, picles de cebola, tomate e polvo cozido – formato que lembra um choripan, só que de polvo.
Bocata Madrileño, sanduíche com maionese de páprica, picles de cebola, tomate e polvo cozido. | Foto: Camarci do Lago
Bocata Madrileño, sanduíche com maionese de páprica, picles de cebola, tomate e polvo cozido. | Foto: Camarci do Lago
São duas as sobremesas, uma de cada chef. Márcia apresenta a La Barceloneta, uma crema catalana (versão espanhola do brûlée) queimada na hora. Tradicional sobremesa da Catalunha, é preparada à base de leite e gemas, aromatizada com canela e cítricos e finalizada com uma crocante camada de açúcar caramelizado. Já ele, completa o menu com o Churros da Fronteira, inspirado na Estremadura, região onde fica a cidade de Olivença. A receita traz churros com sorvete de doce de leite e crispy de jamón. Qualquer uma delas custa R$ 28.
Churros da Fronteira, com sorvete de doce de leite e crispy de jamón. | Foto: Simone Meirelles
Churros da Fronteira, com sorvete de doce de leite e crispy de jamón. | Foto: Simone Meirelles
Uma ementa (como dizem por lá) comemorativa de fascinar. Cada item marcando por uma característica do que se faz nas várias regiões (ou divisões) da Espanha e trazendo o restaurante inteiro de volta. E é como se já estivesse por aí, pelo fato de tanto Márcia Borges – como eu já citei – quanto o maître, Reginaldo dos Santos, serem oriundos do Olivença, em suas versões anteriores.
Vale pelo polvo e pelo resgate do menu que tanto encantou as pessoas por um bom tempo.

Horários: Jantar, de terça-feira a sábado, das 19h às 23h; Almoço, sábado e domingo, do meio-dia às 15h.

(Ah, sim. Gilberto Prado comandou a cozinha do Olivença por cerca de quatro anos, em duas passagens,
incluindo a inauguração, em setembro de 2013. Atualmente radicado em Balneário
Camboriú, onde criou o festejado Pulpo
Bar e Tapas
, ele voltou especialmente para apresentar suas novas criações no
evento de relançamento do restaurante, nesta última terça-feira, 1º de Setembro.)

Rua Desembargador Otávio do Amaral, 515 – Bigorrilho
Reservas: WhatsApp (41) 3335-6070