Guilherme Rodrigues

Guilherme Rodrigues

Notas Báquicas: O melhor dos vinhos

O segredo do Malbec argentino

05/05/2026 09:45
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Descubra o segredo técnico que transforma essa uva no tinto mais desejado do momento. Créditos: Freepik

O século XXI trouxe com ele um vinho novo. Nasceu um tinto de cor violeta escura, púrpura, perfumado, opulento e complexo, ao mesmo tempo estruturado e redondo. Luxuriante, com frescor e definição sobre uma base rica e suave, de pronto conquistou grande aceitação e prestígio, firmando-se como um dos maiores êxitos da enologia contemporânea. O Malbec argentino é esse vinho, a surpreendente novidade do alvorecer do século. 
Faz pensar como a uva Malbec demorou tantos séculos para encontrar essas condições especiais, a ponto de gerar um tinto único e surpreendente. Tão diferente até daquele elaborado no seu berço, na região de Cahors, França.
Uma das castas mais antigas da França, também chamada Cot ou Auxerrois, foi trazida pelos romanos, aproximadamente na época de Cristo. Cultivada na Aquitânia, em especial em torno do rio Lot, sudoeste da França, adaptou-se e modificou-se através dos tempos, vindo a integrar parte importante dos famosos vinhedos de Bordeaux e do vale do Loire. 
O impulso decisivo em sua expansão foi dado a partir do casamento, em 1152, de Eleonor da Aquitania, duquesa soberana francesa, senhora de domínios desde o Loire até os Pirineus, com Henrique II, o Plantageneta, rei da Inglaterra. A partir desse enlace, o mercado inglês passou a beber cada vez mais os vinhos de Malbec de Cahors, região dentro dos domínios da rainha. O prestígio e cultivo da casta cresceu cada vez mais, chegando a ser uma das principais uvas dos grandes vinhos de Bordeaux até o século XX. Atualmente permanece largamente cultivada ao redor da cidade de Cahors, seu berço de nascença.
No auge da fama, foi trazida para a América do Sul em meados do século XIX, passando a ser cultivada no Chile e Argentina. Tornou-se numa das mais importantes uvas para o vinho argentino, ofuscada no entanto pelo padrão de viticultura massiva praticada naquele país até recentemente. 
Os ventos viraram na mudança do século, com a descoberta de que a Malbec das regiões de altitude, acima de 850m e até 1.500m, próximas a Mendoza, notadamente Luján de Cuyo e Valle del Uco, gerava um vinho especial, diferenciado, destacado da produção massiva e mais rústica das terras baixas. Com melhor acidez, frescor, definição e complexidade, o Malbec de altitude revelou-se um tinto superior e de grande apelo. Quase dois mil anos depois de nascer na França, a uva atravessou o Atlântico para vir  desabrochar num terroir todo especial e diferenciado nas terras altas junto aos Andes. A grande safra de 2002 marcou o ano em que esses vinhos conquistaram o mundo.
O leitor dirá então, vendo o título, que até aqui nenhum segredo foi revelado, já que todos conhecem o diferencial do Malbec de altitude. Acontece que somente isso não faria esses vinhos serem tão fulgurantes, complexos, frescos e definidos. 
Para que as melhores qualidades da Malbec de altitude se expressem e apareçam no vinho é necessário que as uvas passem por uma maceração pré-fermentativa a frio. As uvas recém-colhidas são resfriadas em torno de 10ºC e assim permanecem na cuba por volta de 3 a 5 dias, pouco mais ou menos conforme cada caso. Somente depois é que  inoculam-se as leveduras para  iniciar a fermentação alcoólica, que por sua vez aportará força e estrutura, ossos e massa, completando o vinho.
Nesse período pré-fermentativo, sem formação de álcool, os componentes fenólicos, solúveis em água (antocianos), são melhor extraídos. Respondem pela cor, aromas e melhores perfumes do vinho – além de seu poder antioxidante. Formam-se os nervos, parte vital do vinho. No caso do Malbec argentino, faz toda diferença. Graças a esse processo, os componentes varietais especiais da Malbec de altitude adquirem expressão máxima, ficam mais destacados e definidos, ganham energia, a cor melhora, o frescor e definição aumentam, explodindo nesse bouquet de aromas e sabores que encanta os apreciadores. 
Aliás, essa técnica, que não é nova, cada vez mais vem se difundindo em todo mundo. Na Borgonha passou a notabilizar-se a partir dos grandiosos vinhos esculpidos pelo lendário vinicultor  Henri Jayer. Para se ter idéia, atualmente os tintos do Domaine de la Romanée-Conti passam por ela. 
Como no célebre poema de Goethe (“Ginkgo Biloba”), dedicado a sua amada, ambos os amantes são um e dois. Cada qual um, mas sobretudo juntos. Aí está o segredo: o terroir de altitude e a maceração pré-fermentativa fazem o vinho Malbec de altitude da Argentina tal como se revela aos apreciadores; cada qual um fator, ambos em conjunto um vinho todo especial.