Guilherme Rodrigues

Guilherme Rodrigues

Crítico independente e aficionado em vinhos, escreve sobre o tema desde 1990. Destaca-se participação permanente na Revista GULA (colaborador e coordenador de provas de 2004 a 2009) e Revista GOSTO (editor de vinhos, colunista, 2009-2015), editadas em São Paulo. Visitou e visita os melhores produtores mundiais de vinhos. Participou de juris nacionais e estrangeiros. Membro de confrarias, destacando-se: Vinho do Porto (Infanção - grau máximo), Ordre des Coteaux de Champagne, Bairrada, Periquita.

Notas Báquicas: O melhor dos vinhos

O premiado enólogo chileno Marcelo Papa, da Concha y Toro, explica a Camanchaca e mais!

02/07/2026 12:08
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O premiado enólogo chileno Marcelo Papa, da Concha y Toro. Crédito: Divulgação.

Saiba porque a Camanchaca faz do Valle del Limarí a mais nova Meca mundial para vinhos diferenciados de chardonnay e pinot noir.
Situado na região de Ovalle, Coquimbo, pouco menos de 400 km ao norte de Santiago, fica numa concha especial de terreno, próximo ao oceano Pacífico. O diferencial é o solo argilo calcário, raro no Chile, base dos grandes vinhos dessas duas castas emblemáticas. Como na Borgonha, região de origem e referência.
Mas não só. Tem também a Camanchaca.  Descubra o que é e o milagre que produz. Ninguém melhor do que Marcelo Papa, dos maiores enólogos chilenos, verdadeira celebridade em se tratando da arte de criar grandes vinhos, para contar aos leitores. 
Enólogo líder da Concha y Toro, onde atua com grande sucesso desde 1998, responsável pelo Amelia Chardonnay e Amelia Pinot Noir, conhece como poucos no mundo os segredos do Valle del Limarí. Concedeu entrevista especial ao BOM GOURMET.
BG:  Qual o diferencial do Valle del Limarí ?
Marcelo Papa: Resumindo em poucas palavras, destaco 3 fatores. O solo de argila roxa (com boa presença de ferro) e calcário, está criado por deposição marinha. A brisa do mar, para o frescor. E a Camanchaca, que produz uma luminosidade filtrada.
BG: Com latitude menor do que Casablanca, e junto ao deserto de Atacama, era de esperar em Limarí vinhos mais pesados, ricos e menos complexos. Contudo ocorre o inverso, com mais frescor e elegância. Como explica o paradoxo ?
Marcelo Papa: Ressaltou a Camanchaca, uma névoa mais alta, que filtra os raios solares e abençoa a região com maior frescor, umidade e sobretudo limita o excesso de radiação solar. Faz com que o período de colheita fique mais longo. Junto ao calcário, outro diferencial, forma um terroir todo especial, que ressalta a mineralidade, frescor, complexidade e tensão dos vinhos. É uma benção única, formada junto ao mar nesta região.
BG: Limarí é tão diferenciado que a Concha y Toro deslocou para lá 2 de seus mais emblemáticos rótulos de ícone. A Amelia Chardonnay e a Amélia Pinot Noir. 
Marcelo Papa: Sem dúvida, desde 2.017 o Amelia vem do Limari, do vinhedo Quebrada Seca (70 ha), propriedade da Concha y Toro. Em sua extensão tem parcelas de solos diferenciados, como os Santa Cristina, com mais argila e menos calcário, resultando em vinhos de especial intensidade, estrutura e mineralidade.
BG: Deu tão certo que recentemente, em 2026, foi criada a Viña Amelia, filial independente dentro do grupo CyT, especialmente para os Pinot Noir e Chardonnay. Uma aposta de que o vinhedo referência de Quebrada Seca tem vocação para o Amelia, como o de Puente Alto tem para o Don Melchor. Como são elaborados os Amelia?
Marcelo Papa: O cultivo das videiras tem manejo integrado, quase orgânico. A região é tão sã que as plantas resistem por si, necessitando pouco auxílio contra pragas. No Amelia Chardonnay não fazemos a malolática, temos cremosidade natural, espontânea. No Amelia Pinot Noir, as uvas passam por maceração pré fermentativa a frio por 4 a 5 dias.  O vinhedo ainda não tem 20 anos, de modo que na medida em que envelheça mais, dará vinhos ainda melhores. A qualidade já é fabulosa, com invejável potencial para crescer.