Cadu Lopes

Cadu Lopes

Cadu Lopes é empreendedor e especialista em negócios, com a gastronomia como uma de suas principais paixões. Cervejeiro de formação, vive na prática os desafios do setor de alimentos e bebidas. Na coluna Negócio no Prato, compartilha reflexões e aprendizados sobre gestão, estratégia e o que sustenta um negócio gastronômico.

Negócio no Prato

O erro mais caro de um restaurante: escolher o público errado

10/07/2026 09:58
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Restaurante vazio: O erro de mirar no público errado. Crédito: magnific

Há uma pergunta que todo empreendedor da gastronomia deveria responder antes mesmo de escolher o ponto comercial, contratar um chef ou desenhar o cardápio. Curiosamente, ela costuma ser deixada para depois, como se fosse um detalhe de marketing ou uma preocupação que pudesse ser resolvida quando o restaurante já estivesse funcionando. A pergunta é simples: para quem, exatamente, este restaurante existe?
A resposta parece óbvia até o momento em que alguém tenta formulá-la. Muitos empresários dizem que seu público é "a classe média", "famílias", "quem gosta de comer bem" ou simplesmente "todo mundo". Nenhuma dessas respostas ajuda a tomar decisões. Pelo contrário, elas revelam a ausência de uma direção clara. E é justamente dessa falta de clareza que nasce um dos erros mais caros da gastronomia.
Ao longo dos anos, tornou-se comum atribuir o sucesso ou o fracasso de um restaurante exclusivamente à qualidade da comida. Se o negócio prospera, imagina-se que a cozinha seja excepcional. Se fecha as portas, conclui-se que faltava talento ao chef ou competência operacional. Embora esses fatores tenham enorme importância, raramente contam a história inteira. Existem restaurantes com cozinhas brilhantes que vivem vazios e outros, tecnicamente modestos, que trabalham com filas de espera durante boa parte da semana. A diferença entre eles nem sempre está no que servem, mas para quem decidiram servir.
A gastronomia tem uma característica peculiar. Ela desperta paixões. Muitos restaurantes nascem do sonho de cozinhar, de compartilhar receitas de família, de criar um ambiente agradável ou de transformar um hobby em profissão. Tudo isso é legítimo. O problema começa quando o sonho do empreendedor passa a ocupar o lugar das necessidades do cliente. Um restaurante pode ser a realização pessoal de quem o criou, mas continuará dependendo da decisão de compra de pessoas que possuem expectativas, hábitos e motivações próprias. Ignorar essa realidade costuma ser um caminho caro.
Basta observar o comportamento de muitos negócios nos primeiros anos de funcionamento. As vendas não atingem o esperado e, quase sempre, a reação é ampliar as opções. O cardápio cresce, surgem novos pratos, aparecem promoções, festivais, rodízios, música ao vivo, descontos em aplicativos, menus executivos, opções fitness, vegetarianas, veganas, infantis e qualquer outra iniciativa que prometa atrair mais clientes. Aos poucos, o restaurante deixa de ser aquilo que pretendia para se transformar em um conjunto de tentativas de agradar públicos diferentes.
A intenção parece lógica. Afinal, se mais pessoas entrarem pela porta, o faturamento aumentará. Na prática, acontece exatamente o contrário. Quando um restaurante tenta ser tudo para todos, deixa de ser relevante para alguém.
O casal que procura uma experiência romântica encontra um ambiente barulhento demais. A família com crianças acha o restaurante sofisticado e pouco acolhedor. O executivo considera o atendimento lento para um almoço de negócios. O jovem procura um ambiente descontraído e encontra um serviço excessivamente formal. O apreciador da alta gastronomia sente falta de ousadia, enquanto quem busca comida caseira considera os preços elevados. Cada cliente encontra um pequeno motivo para não voltar. Nenhum deles está completamente errado. O restaurante apenas nunca decidiu quem gostaria de conquistar.
É curioso perceber que essa discussão raramente começa pela cozinha. Ela começa na estratégia. Todo restaurante, queira ou não, faz uma promessa ao mercado. Essa promessa pode ser explícita ou implícita. Alguns prometem rapidez. Outros, exclusividade. Alguns oferecem tradição, enquanto outros vendem inovação. Há aqueles que conquistam pelo conforto, outros pelo espetáculo, outros pela simplicidade. A questão é que essa promessa precisa ser coerente. Quando ela muda a cada mês, acompanhando modismos ou respondendo às reclamações isoladas de clientes, a identidade do negócio se dissolve.
Essa clareza nasce de escolhas. E toda escolha implica renúncia.
Talvez essa seja a parte mais difícil para quem empreende. Admitir que nem todos os clientes são desejáveis parece contradizer a lógica do comércio. Entretanto, os negócios mais fortes costumam ser exatamente aqueles que sabem dizer "não". Não para o modismo que não faz sentido. Não para ampliar um cardápio sem necessidade. Não para copiar o concorrente da esquina apenas porque ele está em evidência. Não para transformar a própria identidade em uma colcha de retalhos.
Durante muito tempo, a indústria automobilística ensinou que um carro não era vendido apenas pelo motor. Era vendido pelo estilo de vida que representava. Na gastronomia acontece algo semelhante. Restaurantes não vendem apenas refeições. Vendem ocasiões.
Ninguém convida alguém para jantar apenas porque determinado prato é saboroso. Escolhe-se um restaurante para celebrar um aniversário, fechar um contrato, pedir alguém em casamento, reencontrar amigos, comemorar uma conquista ou simplesmente transformar uma noite comum em uma experiência agradável. A comida é protagonista, mas não atua sozinha. Ela divide espaço com o ambiente, o atendimento, a música, a iluminação, o ritmo do serviço, a arquitetura, a carta de vinhos e até com a maneira como a conta chega à mesa.
É justamente por isso que dois restaurantes podem servir pratos muito semelhantes e praticar preços completamente diferentes. O cliente raramente paga apenas pelos ingredientes. Ele paga pelo significado daquela experiência.
O verdadeiro diferencial nasce quando o consumidor percebe valor em algo que não pode ser facilmente copiado.
Esse valor pode estar na história da casa, na personalidade do atendimento, na consistência da cozinha, na curadoria dos ingredientes, na experiência proporcionada ou na forma como o cliente se sente durante sua permanência. O ponto central é que tudo isso precisa conversar com o público escolhido.
Ouvir o cliente é indispensável. Submeter toda a estratégia às opiniões isoladas dos clientes é perigoso. Empresas sólidas escutam o mercado, mas filtram as informações à luz de seu posicionamento. Nem toda sugestão deve ser incorporada. Algumas simplesmente pertencem a outro modelo de negócio. Essa capacidade de dizer "isso não faz parte da nossa proposta" costuma ser um sinal de maturidade empresarial.
É exatamente nesse momento de dizer “não” que um restaurante deixa de ser apenas mais um endereço na cidade e passa a ocupar um espaço na memória de quem o frequenta por afinidade. Esse talvez seja o ingrediente mais valioso que um empresário da gastronomia pode colocar sobre a mesa.