O Brasil foi eliminado da Copa do Mundo antes mesmo de chegar nas quartas de final: o sonho do Hexa ficou para a próxima, mas não precisamos reviver esse trauma em mais uma matéria. A questão agora é, o que resta pra quem só queria viver a experiência com a Seleção em campo? O torneio ainda tem quase um mês pela frente, quartas, semis e final só no dia 19 de julho.
Vivi o melhor dos dois mundos antes da eliminação. Fizemos uma rodada em casa com a galera, churrasco, vinho aberto cedo porque em Curitiba o frio já não perdoa quem queira ficar do lado de fora por muito tempo. Mas fomos para o bar também, não existe comparação: a energia de assistir um jogo fora de casa, cercada de gente que você conhece e gente que nunca vai ver de novo, o carro buzinando na rua do bar, o barulho de alguém que claramente não tem vizinho que se incomoda e o double quando saía gol do Brasil.
Agora que o Brasil caiu, a sensação de que não tem mais a mesma graça é bem evidente. Será que vale abandonar a Copa inteira só porque parou de valer pro time que a gente queria ver campeão?
Numa conversa informal com jovens da minha idade, perguntei o que mudou nos planos de cada um agora que o Brasil está fora. As respostas vieram bem parecidas: quem pretendia sair em todos os jogos, revezando entre casa de amigos e bar, agora não tem nada definido como antes. Tive uma amiga que me respondeu já meio derrotada: "nem sei bem o que vou fazer, agora só sobrou europeu e argentino pra torcer".
Ampliei essa mesma pergunta para entender os planos de cada um pro resto do torneio e a maioria vai ficar em casa. O motivo mais repetido, sem muita hesitação, foi o financeiro, mas nem por isso a Copa do Mundo vai ser esquecida.
A Abrabar confirma que, mesmo com a Seleção fora, quartas, semis e final ainda devem ter público acima da média nos bares de Curitiba, principalmente onde tem estrutura de transmissão boa. A entidade chega a sugerir, abertamente, que o torcedor "escolha um novo favorito" para a reta final, uma frase que eu não conseguiria escrever melhor se tentasse.
Em nível nacional, a CNC projeta R$ 2,42 bilhões faturados em bares e restaurantes durante a Copa, 15,7% a mais que em 2022. O nosso cenário econômico ajuda a explicar esse otimismo do setor: desde o Mundial do Catar, a taxa de desemprego caiu de 8,1% para 5,8%, e a massa de rendimentos avançou 20,2% em termos reais.
Ou seja, o brasileiro chega a essa Copa, em média, com mais dinheiro no bolso do que chegou na última — o que torna a resposta "financeiro" ainda mais curiosa quando aparece como motivo de ficar em casa.
Uma pesquisa da Abrasel mostra que 52% dos estabelecimentos vão transmitir jogos, e entre eles, 59% vão exibir partidas de seleções que não são a nossa. O jogo continua sendo pretexto suficiente, mesmo sem Brasil em campo, e o mercado está claramente apostando nisso.
Só que essa expectativa de movimento não bateu com o que ouvi na prática. Reparei em algo mais interessante do que só o "onde vou assistir": a resposta financeira apareceu quase sempre como justificativa automática para quem decidiu ficar em casa, como se dispensasse outra explicação. Mas o financeiro raramente é uma causa isolada. Muitas vezes funciona como uma desculpa mais educada para uma ausência de vínculo que a gente sente e prefere não nomear: seja com o time que restou ou com a comemoração que no fundo não é nossa.
E o argumento tem lógica dentro da própria lógica financeira da nossa geração. Quem tabela gasto com disciplina, quem sabe exatamente quanto sobra no mês depois das contas, não costuma justificar um gasto por hábito ou obrigação social, precisa que ele valha a pena. Bancar uma noite de bar por um jogo que não carrega pouco vínculo ou vínculo algum é, sob esse critério, um investimento sem retorno emocional, mesmo que o preço do double de cerveja continue o mesmo.
Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, reforça essa migração de comportamento, mesmo sem falar diretamente sobre vínculo. Segundo ele, o crédito mais caro fez o brasileiro priorizar a experiência imediata de lazer em vez de investir num bem durável, como a televisão nova, item tradicional de Copa em edições anteriores. Trocamos a posse pelo acesso pontual – e a diversão momentânea, que também merece ser valorizada. E é exatamente esse tipo de decisão, pontual, calculada, sem compromisso de longo prazo, que também explica por que ficar em casa deixou de ser sinônimo de desinteresse: é resultado de escolha criteriosa, não de abandono. Ainda mais que a Copa do Mundo só acontece a cada 4 anos.
O que fica, então, quando o time que a gente amava (nós mesmos) sai da disputa?
Pode ser que esta Copa do Mundo sirva justamente pra isso: não para provar que paramos de torcer, mas para mostrar com que facilidade trocamos de causa, de bar, de time, contanto que a experiência continue valendo o gasto.