Cissa Mariah é bartender, mixologista e educadora com mais de 17 anos de experiência na coquetelaria e mais de duas décadas dedicadas ao ensino. À frente da CM Bartender School, forma profissionais e compartilha conhecimento sobre técnicas, cultura de bar e o universo dos destilados, com destaque para a cachaça brasileira.
Olga Speakeasy: quando a história vem antes do cocktail
21/07/2026 09:53
Olga Speakeasy traz uma experiência onde a história vem antes do cocktail. Crédito: Ebrain Martini.
Existe algo curioso nos bares escondidos.
Antes mesmo de provar o primeiro cocktail, eles despertam uma emoção que raramente encontramos em outros lugares: a curiosidade.
Descobrir uma porta discreta, informar uma senha e atravessar um ambiente pensado nos mínimos detalhes nos coloca, ainda que por alguns instantes, dentro de uma narrativa.
Foi exatamente essa sensação que vivi ao visitar o Olga Speakeasy, um dos bares que vêm ajudando a consolidar Curitiba como um dos destinos mais interessantes da coquetelaria brasileira.
@Ebraim Martini 2025
Inspirado nos antigos speakeasies americanos (bares clandestinos que funcionavam durante a Lei Seca nos Estados Unidos), o Olga resgata esse imaginário desde a chegada. A entrada discreta por uma loja de televisores antigos, o ritual da senha e a ambientação cuidadosamente construída conduzem o visitante para um universo inspirado na personagem fictícia Olga, uma boticária que serve de fio condutor para toda a identidade da casa.
Ali, cocktails, ingredientes, linguagem e atmosfera parecem cumprir um único propósito: construir uma experiência que vai muito além da bebida.
Mas, enquanto observava tudo aquilo, uma pergunta começou a surgir.
Por que contamos histórias através dos cocktails?
Durante muito tempo, a coquetelaria buscou impressionar pela técnica. Depois vieram os ingredientes raros, os destilados de prestígio e as apresentações elaboradas. Tudo isso continua sendo importante. Mas acredito que existe algo ainda mais poderoso: o significado.
Nós, seres humanos, sempre buscamos histórias para compreender aquilo que consumimos.
Queremos conhecer a origem do café, a vinícola por trás de um grande vinho, a receita que atravessou gerações em uma família.
Na coquetelaria, acontece exatamente o mesmo.
Fui recebida no Olga com um lugar no balcão. Pedi cocktails sem álcool e fui surpreendida ao encontrar uma carta dedicada a esse universo com a mesma criatividade, técnica e cuidado dedicados aos cocktails alcoólicos. Um detalhe que merece destaque e que revela uma preocupação crescente em acolher diferentes perfis de clientes sem abrir mão da experiência.
Crédito: Ebrain Martini
Enquanto preparava os cocktails, Júlio Perbichi, bartender e idealizador do Olga, conduzia a conversa com a mesma naturalidade com que preparava cada bebida.
Em determinado momento, desapareceu por alguns instantes e voltou trazendo pequenas conservas feitas por ele mesmo.
Eram todas diferentes. Não estavam no cardápio. Não faziam parte de uma harmonização. Nem pareciam existir para impressionar.
E talvez tenha sido justamente por isso que aquele gesto permaneceu comigo.
Segundo ele, quem senta no balcão do Olga vive uma experiência diferente da de quem ocupa qualquer outra mesa.
@Ebraim Martini 2025
Enquanto conversávamos sobre fermentações, ingredientes e sabores, percebi que aquelas conservas revelavam algo muito maior do que uma habilidade culinária. Revelavam curiosidade, pesquisa, experimentação e, principalmente, prazer em compartilhar.
Foi ali que compreendi uma diferença importante.
Hoje se fala muito em storytelling na gastronomia e na coquetelaria. Mas existe uma enorme distância entre criar uma narrativa para impressionar e compartilhar uma história porque ela faz parte da identidade de quem recebe.
O cliente percebe essa diferença. Percebe quando um bartender recita um discurso decorado e quando compartilha algo que realmente faz parte da sua trajetória.
A autenticidade dificilmente precisa ser anunciada.
Conversando com Júlio, tive a impressão de que o conceito do Olga não termina na ambientação ou na personagem que inspira a casa. Ele continua vivo na maneira como a equipe ocupa aquele balcão todos os dias e transforma um projeto criativo em hospitalidade.
Talvez seja justamente esse o maior desafio da coquetelaria contemporânea.
Criar conceitos é importante. Construir narrativas também.
Mas nada disso faz sentido se a história terminar no momento em que o cocktail chega à mesa.
Ela precisa continuar viva na conversa, na atenção aos detalhes e na maneira como cada cliente é recebido.
Na minha coluna anterior, escrevi que a memória começa antes do primeiro gole.
Depois de conhecer o Olga, acrescentaria outra ideia: a narrativa também.
Na coquetelaria contemporânea, contar uma história nunca deveria servir apenas para tornar um cocktail mais interessante. Sua função é criar contexto, despertar expectativa e preparar os sentidos para a experiência que está por vir.
Quando essa narrativa nasce de forma autêntica, ela deixa de ser um recurso de apresentação e passa a integrar a própria construção do cocktail.
Afinal, um grande cocktail não comunica apenas por meio dos ingredientes que carrega na taça, mas também pelas intenções que revela ao redor dela.
Talvez essa seja uma das transformações mais interessantes da coquetelaria contemporânea: compreender que técnica e narrativa não competem entre si. Elas se complementam.
E, quando isso acontece, a história deixa de ser contada apenas pelo bartender.
Ela passa a ser vivida por quem está do outro lado do balcão.