Cissa Mariah é bartender, mixologista e educadora com mais de 17 anos de experiência na coquetelaria e mais de duas décadas dedicadas ao ensino. À frente da CM Bartender School, forma profissionais e compartilha conhecimento sobre técnicas, cultura de bar e o universo dos destilados, com destaque para a cachaça brasileira.
Negroni Week: quando um clássico ganha novas histórias atrás do balcão
21/09/2026 10:15
Negroni Week: novas histórias atrás do balcão. Crédito: Divulgação.
Há cocktails que atravessam gerações sem perder a capacidade de despertar curiosidade. O Negroni é um deles.
Na última semana, estive no Ponto Gin, em Curitiba, para o Esquenta Negroni Week, uma experiência que reuniu convidados em torno de diferentes criações à base de Campari. Foram quatro cocktails, entre eles o clássico Negroni, e uma noite que serviu como antecipação para o que começa oficialmente nesta segunda-feira.
De 21 a 27 de setembro, a Negroni Week chega à sua 14ª edição no Brasil, reunindo cerca de 300 bares e restaurantes em diferentes estados. Criada pela Campari em parceria com a revista Imbibe, a iniciativa nasceu para celebrar a coquetelaria e mantém também uma frente social: parte da arrecadação é destinada à Slow Food, parceira de longa data da ação.
Negroni Week. Crédito: Divulgação.
Para mim, essa segunda camada merece atenção. Afinal, uma semana dedicada a um cocktail poderia se resumir a uma celebração de consumo. Quando uma iniciativa do tamanho da Negroni Week associa essa celebração a uma causa, o bar deixa de ser apenas o destino final da experiência. Uma parte do que acontece atrás do balcão pode chegar muito além dele.
Mas existe outra razão para olhar para essa semana com atenção: o espaço que ela oferece para quem está atrás do balcão.
Um clássico como o Negroni tem uma estrutura muito bem definida: partes iguais de gin, Campari e vermute rosso. É uma combinação simples no papel, mas cheia de possibilidades quando passa pelas mãos de um bartender.
E é justamente aí que a criatividade aparece.
Durante a Negroni Week, os profissionais são convidados a criar suas próprias interpretações do cocktail, mantendo o Campari como parte central da receita. O resultado é o encontro entre tradição e identidade. A estrutura que todo mundo reconhece ganha novas leituras de acordo com a personalidade de cada bar e de cada profissional.
É assim que um clássico permanece vivo.
A receita original continua existindo, mas cada geração encontra uma maneira diferente de conversar com ela.
Também existe algo de particular no próprio ritual de preparar um Negroni. O cocktail clássico pede atenção aos detalhes: um grande cubo de gelo, a colher bailando suavemente no copo e a casca de laranja, cujos óleos essenciais ajudam a construir o aroma antes mesmo do primeiro gole.
É um cocktail que mostra como técnica e simplicidade podem caminhar juntas.
Nesta edição, a Negroni Week também traz uma ação que aproxima ainda mais o bartender de quem está do outro lado do balcão: o Drink Signature. Os bares participantes podem batizar sua criação autoral com o nome de um cliente frequente da casa.
Gosto dessa ideia, porque ela tira o cocktail do lugar de uma simples criação e o transforma em uma história compartilhada. Existe o profissional que criou, existe o bar que acolheu aquela criação e existe a pessoa que, de alguma maneira, ajudou a fazer aquela história acontecer.
No fim, coquetelaria também é sobre relações.
Em Curitiba, essa celebração ganha diferentes formatos.
O Taj Bar participa como uma das embaixadas da Negroni Week. Por lá, a proposta é experimentar uma régua com três interpretações: o Negroni clássico, um Boulevardier e o cocktail autoral da casa. O bartender Douglas Porcel assina o Amarena Negroni, que combina gin, Campari, vermute, Fabbri Amarena e bitter Nib Amarena. Quem participar da ação recebe ainda um brinde exclusivo da Campari.
No Paraná, outra casa também aparece na programação nacional com criações desenvolvidas especialmente para a semana. No Habanero, em Maringá, o bartender Kaio Cezar apresenta o Negroni Habanero, que leva gin, Lillet, vermute rosso e Campari, finalizado com queijo parmesão.
Nas demais casas participantes, a experiência funciona de outra maneira: na compra de dois Negronis, o cliente recebe um food pairing ou snack para acompanhar o cocktail, conforme a disponibilidade de cada estabelecimento.
E são muitas as opções para quem quiser participar da Negroni Week em Curitiba: Flor de Brasa Bar, Lambrutta Cuccina & Co., Pine Parrilla Bar, Tetto, Barceloneta, Caspita Bar & Cucina, Piccolina, Madá Pizza & Vinho, Ginger Bar, Ponto Gin, Officina Restô Bar, Pata Negra Bar y Cocina, AgroBar, Full Jazz Bar, Taj Bar, Céu Bar, Ros Caffè e Zefy Diner.
Mais do que uma semana dedicada a um único cocktail, a Negroni Week revela como um clássico pode continuar criando espaço para novas histórias. Para o público, é uma oportunidade de experimentar diferentes interpretações. Para os bartenders, é um convite para pesquisar, criar e colocar sua própria assinatura em uma receita que já faz parte da história da coquetelaria.
E talvez esteja aí uma das maiores forças de um clássico: ele não precisa permanecer parado no tempo para preservar sua identidade.
Pode continuar sendo reconhecido, enquanto novas mãos encontram novas maneiras de contá-lo.
Aos clássicos que continuam abrindo espaço para novas histórias, aos bartenders que seguem dando voz à sua criatividade e às iniciativas que conseguem fazer a cultura do bar ultrapassar as portas do próprio bar.