"Posso levar esse cocktail para casa?"
Augusto Swaiger ouviu essa pergunta inúmeras vezes atrás do balcão. A maioria dos bartenders provavelmente a receberia apenas como um elogio. Ele preferiu enxergá-la como uma oportunidade.
Há alguns dias, encontrei o Augusto para um café. Nos conhecemos há cerca de dez anos e acompanhei boa parte da sua trajetória na coquetelaria. O motivo do encontro era conhecer o Fidelio, seu cocktail desenvolvido para produção industrial, que tem como base vinho rosé, frutas vermelhas e notas florais. Mas a conversa rapidamente deixou de ser sobre uma garrafa e passou a ser sobre uma transformação.
Até poucos anos atrás, a ideia de comprar um cocktail engarrafado despertava desconfiança entre profissionais do bar. Afinal, uma parte importante da experiência acontecia justamente durante o preparo. Essa percepção começou a mudar. Não porque as pessoas deixaram de valorizar o bartender, mas porque alguns bartenders passaram a descobrir novas formas de levar seu trabalho para além do balcão.
Hoje, bartenders desenvolvem produtos, pesquisam ingredientes, assinam cartas, prestam consultorias, ensinam e constroem marcas próprias. O balcão continua sendo a escola mais importante da coquetelaria, mas já não é o único lugar onde ela acontece.
O Fidelio nasceu exatamente dessa mudança.
Ao perceber que muitos clientes queriam reviver em casa a experiência que encontravam no bar, Augusto identificou uma lacuna no mercado brasileiro: existia espaço para um cocktail autoral que preservasse a identidade da coquetelaria mesmo longe do balcão.
A ideia parece simples.
Não é.
Criar um cocktail para ser servido na hora é muito diferente de desenvolvê-lo para produção industrial. Atrás do balcão, pequenos ajustes acontecem naturalmente: a temperatura, a diluição do gelo, o comportamento dos ingredientes, a intensidade dos aromas. Dentro de uma garrafa, essa margem desaparece.
Tudo precisa funcionar antes mesmo da primeira abertura.
Foi sobre essa complexidade que conversamos durante o café. Não bastava reproduzir uma receita. Era preciso preservar frescor, equilíbrio, textura e personalidade depois que aquele cocktail deixasse de ser preparado pelas mãos do bartender.
Essa reflexão me levou a outro ponto que considero importante compartilhar.
Nos últimos anos, duas siglas passaram a aparecer com frequência no mercado: RTD (Ready to Drink) e RTS (Ready to Serve).
Embora pareçam sinônimos, elas representam propostas diferentes.
O RTD é, literalmente, um “pronto para beber”. Basta gelar, abrir e consumir.
Já o RTS, categoria em que o Fidelio se encaixa com muito mais precisão, pressupõe um último cuidado antes de chegar ao copo. O bartender já fez todo o trabalho criativo e técnico. Quem serve precisa apenas respeitar a forma como aquela bebida foi pensada: bastante gelo, temperatura correta e, no caso do Fidelio, até mesmo a possibilidade de transformá-lo em um Spritz com espumante brut.
Pode parecer um detalhe, mas esse último gesto faz parte da experiência.
Quando a garrafa chegou à mesa, a primeira impressão me conduziu para um caminho. O rótulo elegante, a tonalidade rubi intensa e as notas florais sugeriam uma bebida mais adocicada.
Na coquetelaria, também bebemos com os olhos.
Antes do primeiro gole, nosso cérebro já construiu uma expectativa. Quando um cocktail nos conduz para uma direção e, na boca, revela outra completamente diferente, existe ali uma intenção muito clara de quem o criou.
No Fidelio, o dulçor aparece, mas nunca domina a bebida. É apenas uma camada da construção sensorial. O final surpreende com um leve amargor e uma secura delicada que limpam o paladar e convidam ao próximo gole. É justamente esse contraste que revela o equilíbrio da receita e evidencia o trabalho de pesquisa que existe por trás dela.
Naquele instante, entendi que o maior desafio do Fidelio nunca foi criar um bom cocktail.
Foi fazer com que ele continuasse sendo um bom cocktail depois de engarrafado.
Todo bartender sonha em criar um grande cocktail. Poucos enfrentam o desafio de fazê-lo sobreviver dentro de uma garrafa.
Enquanto voltava para casa, fiquei pensando que talvez a maior transformação da coquetelaria contemporânea não esteja dentro do copo.
Ela está na capacidade de alguns profissionais enxergarem oportunidades onde outros enxergam apenas rotina.
O Fidelio nasceu de uma pergunta feita por clientes ao final de um serviço.
Alguns bartenders continuam respondendo a essa pergunta todas as noites, atrás do balcão.
Augusto decidiu respondê-la de outro jeito.
Colocou a resposta dentro de uma garrafa.
Aos profissionais que seguem ampliando os horizontes da coquetelaria, sem perder a essência da hospitalidade. Cheers!