
Sarah Guilhermo
Sarah Guilhermo é jornalista, produtora de conteúdo e, inevitavelmente, Gen Z. Disseca o comportamento da própria geração à mesa, no bar, no café e na madrugada de qualquer dia da semana. Na coluna COOL KIDS, ela coloca em palavras o que essa geração já sabe… mas nunca viu escrito. @sarahguilhermo
Cool Kids
Home office na cafeteria: como não fazer o dono do espaço te detestar

Crédito: acervo pessoal
Tem algo genuinamente satisfatório em abrir o computador numa mesa que não é a sua, pedir algum prato ou bebida que vai chegar bonito o suficiente pra merecer uma foto e fingir, por algumas horas, que trabalhar é um ato glamouroso, sem a parte do perrengue generalizado. O laptop na mesa certa, o fone com cancelamento de ruído, a playlist que faz qualquer coisa parecer uma cena de comédia romântica... Pessoalmente, é a parte que mais gosto de trabalhar fora de casa, devolve uma certa leveza pro dia, e deixa o trabalho com uma aparência que ele definitivamente não tem quando faço ele do escritório improvisado em casa.
Mas enquanto eu performava muito aesthetic de home office nas cafeterias em Curitiba, eu me peguei pensando no quanto poderia estar sendo inconveniente para quem era o dono.
Pensei nisso pela primeira vez de forma mais concreta quando comecei a procurar lugares para fazer home office em Curitiba. Fui parar no Reddit, pra quem não conhece, é uma rede de fóruns organizados por temas, onde pessoas discutem qualquer assunto imaginável com um nível de sinceridade que as redes sociais mais "apresentáveis", como Instagram e TikTok, raramente permitem. Caí no fórum de Curitiba, mas acabei indo para o r/Coffee, uma comunidade global sobre café, onde alguém havia feito uma pergunta que me parou: quais regras uma cafeteria deveria implementar sobre trabalhar home office e ficar sentado o dia todo sem pedir muito?
Não era uma reclamação nem um manifesto, era alguém tentando entender de forma genuína como não ser a pessoa chata do home office numa cafeteria que todos os funcionários estão te observando. E as respostas da comunidade: tem quem ache que um cliente fixo, mesmo que peça pouco, é melhor do que uma cadeira vazia. Tem quem reconheça que pedir uma xícara de espresso e ocupar mesa por quatro horas no horário de pico é, no mínimo, inconveniente. Talvez existam algumas regras sociais não ditas sobre ser a pessoa que passa a tarde num estabelecimento trabalhando, mesmo.
O home office no café não surgiu do nada. Tem a ver com uma geração que saiu de casa cedo demais para uma quitinete pequena demais, que trabalha remoto mas não aguenta o silêncio do próprio apartamento, que ama a produtividade mas também quer movimento ao redor. Então o café vira o escritório que ninguém assinou contrato para ter.
Isso me lembrou muito da Guiga.
Vou te contar quem ela é. A Guiga é dona do Café Onírico, em Curitiba, um local que frequento muito para trabalhar, e ela é o tipo de pessoa que resolve problemas criando coisas em vez de proibir. Chegou o momento em que ela percebeu que o home office no negócio dela poderia servir de lucro para ela, se soubesse como acrescentar na estrutura. Até porque, não é bacana colocar uma placa de “proibido home office". O que trava o dono do negócio nessa prática é a falta de consumo.
Quando ela percebeu que esse costume no café tinha virado um padrão, com tudo que isso implica, incluindo mesas ocupadas por horas com consumo mínimo, ela criou um clube de assinatura mensal: a pessoa escolhe um dia fixo da semana para trabalhar no espaço, paga um valor que já cobre um consumo dentro do café e garante sua mesa. Bem inteligente, porque transforma um comportamento que poderia ser um problema numa fonte de receita previsível. E gentil, porque não trata o cliente como suspeito.
A solução dessa minha amiga Guiga funciona porque parte de um entendimento que não é óbvio mas deveria ser: o café que você escolheu pra trabalhar hoje tem aluguel, tem equipe, tem conta de luz. E o metro quadrado que você está ocupando custa dinheiro real para quem administra aquele espaço.
Então, afinal, o que faz um coffee officer ser o cliente que o dono de um café detesta? Fazer uma autoanálise do próprio comportamento é mais simples do que parece, e nem requer terapia nesse caso. Não chegar sem consumir nada. Não ocupar mesa para seis quando você é uma pessoa só. Não transformar uma ligação de trabalho num podcast público involuntário pras outras mesas. Não tratar o Wi-Fi como serviço garantido e ilimitado enquanto a caneca fica vazia.
No fim, não é sobre estar do lado do cliente ou do dono. É fantástico entender que o café que você quer que continue existindo, com aquela luz boa e aquele cardápio que te faz voltar, só continua existindo se a conta fechar. Tratar o espaço como parceiro, e não como infraestrutura, é a diferença entre ser um frequentador e ser um cliente que o dono fica feliz de ver entrar.
A performance de home office luxuoso em café continua sendo valiosíssima. Eu amo. Só fica melhor quando os dois lados saem bem.

