Qual livro poderia me acompanhar na viagem programada para Quito e Guayaquil? Pensei nisso assim que recebi o convite. Gosto de atravessar as experiências com literatura. Foi automático lembrar de Equador, o primeiro romance do jornalista Miguel Sousa Tavares. O problema é que havia lido e não lembrava da história. Fui atrás das minhas listas. Uma dica era o ano da publicação: 2003. Será que justificaria meu esquecimento? Descobri: a leitura foi em janeiro de 2020. O livro do autor português trata de direitos humanos, da colonização, da escravidão e de como as paixões humanas interferem nos jogos de poder. Eu havia lido e mesmo assim não me recordava? Um tanto assustador, não fosse o esquecimento tão presente desde a infância. Proust diz que nossa memória está fora de nós, “num sopro chuvoso do tempo. Coisas da natureza que asseguram a permanência da pessoa”. Acho um mistério.
Deixei de lado o romance de Tavares. Apesar do título, não se passa no país, mas em São Tomé e Príncipe, também cortado pela linha do Equador. Viajaria mais de seis mil quilômetros para conhecer o projeto do restaurante Tributo, no Equador, do chef Luís Maldonado e de Vanessa Franzoi. E viajaria de novo. Escrevi em outra coluna contando. Mas com lembranças, imagens e sensações que ainda carrego, volto ao tema.
Pela primeira vez, atravessei a linha imaginária. Um pé lá, o outro cá. O país é o único com nome de um fenômeno geográfico e com muitos vulcões, são 30, oito ativos, e um dos mais altos do mundo.
Além de conhecer o trabalho de Maldonado e Franzoi, tive outras experiências e fartas refeições em casas de parceiros ou de amigos deles. Vou resumir.
No mercado municipal de Quito, descobri um paraíso que não conhecia. Naranjas, chirimoyas, babaco, uvilla. Eu, que não vivo sem frutas, e há tantas no Equador, delirei. Na Huma, o melhor foi a prova de cupping. Garanto: muda a maneira de beber café. Restou lamentar a mala pequena.
O chocolate também virou surpresa. Responsável por produzir mais da metade do cacau fino do mundo (63%), tem o mais raro e premiado. No Tributo, a barra com presunto curado pelo chef, que o chocolatier Esteban Gaviño elaborou, parecia improvável. Não foi. Maldonado também faz embutidos e presuntos para ter o aproveitamento de toda carne do animal. “O tempo é o melhor ingrediente da cozinha, transforma o alimento”, me disse dentro da câmara de maturação do restaurante.
Guiada pela polícia para turista, andei pelo centro da cidade. Patrimônio Cultural da Humanidade, o local foi fundado no século XVI sobre ruínas incas. A igreja da Compañía de Jesús é considerada obra-prima do barroco equatoriano e tem quilos de ouro.
Encontrei Galápagos - uma das maiores reservas marinhas do mundo - sem sair de Quito. Foi no restaurante Nuum. Os cozinheiros trouxeram pescados fresquíssimos - pargo, mero e o bruxo de Galápagos - para um espetáculo. E ainda teve arroz de pato - um dos chefs é espanhol e deu uma aula sobre os arrozes. Eles não têm menu fixo, oferecem os melhores produtos do dia.
Tradição e cozinha popular encontrei no Cosas Finas de Florida. Comecei com uma bebida indígena fermentada e me esbaldei. Mais histórias de amor construídas por cinco gerações de cozinheiros. Dá mais certo quando isso acontece. Uma refeição reforçada já de manhã é a intenção para aguentar o dia sem interrupção.
Depois de muita comida, precisei pular um almoço. O chef Ivan Grain do Marrecife reina há duas décadas em Guayaquil servindo frutos do mar. Fotografei tudo e salivei. Casa cheia sempre.
Hotéis históricos renderam boas noites de sono. O Cultura Manor, em Quito, tem um design diferente, com afrescos provocadores, em cada suíte. Recomendo a casa e cuidado com os sonhos. Já o Hotel del Parque - único Relais & Châteaux da cidade - instalado em um edifício do século 19, tem luxo discreto, merece um tempo para andar pela propriedade e descobrir a natureza.
Volto aos livros porque lembrei de uma obra inesquecível: “A revolução dos bichos”, de George Orwell. Casa com o tema do livro Equador e com a proposta do chef de respeito aos animais. Dos sete mandamentos criados pelos bichos para uma sociedade igualitária, para espanto deles que haviam tomado conta da fazenda, expulsando o dono que os maltratava, um chama atenção: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais”. Está também na Constituição brasileira, que não cumprimos.
Os animais nos ensinam. Há quem defenda prestar atenção nos bichos para a sobrevivência do planeta e seu próprio bem-estar. Além de Maldonado e Franzoi, é a escritora Jay Griffiths. Seu livro "Como os animais nos curam” está cheio de exemplos. Ela nos lembra que “animal” está ligado a “animar” (elevar o espírito). As leituras, o tempo e a memória formam a minha identidade fragmentada. Talvez por isso escreva.