André Henning

André Henning

André Henning é arquiteto e fundador do André Henning Studio, referência em arquitetura de negócios, com mais de 600 projetos desenvolvidos em todo o Brasil e com forte destaque no setor gastronômico. É cofundador da Go Coffee, com mais de 250 lojas no Brasil, sendo uma das redes que mais crescem no Brasil. No Bom Gourmet, André vai falar sobre o mercado, tendências e as histórias da gastronomia curitibana através da arquitetura da cidade.

Arquitetura à Mesa

Bar Stuart: como a arquitetura ajuda a construir a memória de um clássico

13/07/2026 11:38
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Bar Stuart: O resgate da memória através da arquitetura. Crédito: Divulgação.

Sempre falamos que um bom encontro acontece ao redor de uma mesa, acompanhado
de boa gastronomia, boas conversas e experiências inesquecíveis.
Mas existe uma pergunta que faço sempre que entro em um restaurante: o que faz
você querer permanecer ali?
Pouco se fala sobre isso. Um jantar incrível pode se tornar rapidamente desconfortável
se a cadeira não abraçar o corpo, a mesa não tiver a altura ideal, a iluminação não
valorizar o ambiente ou o excesso de ruído impedir uma boa conversa. A gastronomia
nunca chega sozinha. Ela vem acompanhada de um espaço capaz de acolher,
surpreender e elevar nossas expectativas.
Seja bem-vindo ao Arquitetura à Mesa, nosso espaço aqui no Bom Gourmet. Um lugar
para conversar sobre gastronomia através da arquitetura, mostrando como os
ambientes são capazes de transformar experiências, criar memórias e fazer com que a
vontade de permanecer seja tão importante quanto a vontade de voltar.
Sou André Henning, arquiteto especializado em arquitetura de negócios, com atuação
em projetos de gastronomia, entretenimento e espaços corporativos. Também sou
empresário, fundador da rede Go Coffee e professor de pós-graduação em arquitetura
gastronômica. Tenho a oportunidade de enxergar um restaurante por diferentes
perspectivas: de quem projeta, de quem opera e de quem vive o negócio diariamente.
É justamente esse olhar que quero dividir com vocês.
Para começar nossa conversa, vamos viajar pela história de alguns dos restaurantes
mais queridos de Curitiba através da arquitetura. Como nasceram, como chegaram até
aqui, o que mudou ao longo do tempo, quais aprendizados os proprietários tiveram
com seus clientes e como essas experiências transformaram os espaços. Claro, sempre
trazendo também meu olhar técnico de arquiteto e empresário para explicar por que
determinadas escolhas fazem tanta diferença.
Começar por um dos lugares mais tradicionais da cidade é uma grande
responsabilidade.
Estamos falando de um espaço que iniciou sua história na década de 1920 e há mais
de um século faz parte da memória dos curitibanos. Depois de permanecer apenas três
anos fechado, voltou de portas abertas com novos proprietários, um novo projeto de
arquitetura e um novo olhar, mas preservando aquilo que nunca poderia mudar: sua
alma.
Imagem que foi usada como referencia visual para o bar. Crédito: Divulgação
Imagem que foi usada como referencia visual para o bar. Crédito: Divulgação
Claro que estou falando do querido Stuart, o bar mais antigo do Paraná e, segundo
nossas pesquisas, o segundo mais antigo do Brasil.
O Stuart nasceu como uma confeitaria, em uma arquitetura clássica dos anos 20,
marcada por adornos nas paredes, madeira escura entalhada, cadeiras sofisticadas
para a época e um grande salão aberto. Na década de 1950 mudou-se para o endereço
onde permanece até hoje, na esquina da Praça Osório. Um daqueles lugares que
parecem chamar quem passa. Não importa se você estava com fome ou não; existe
algo naquele endereço que desperta imediatamente a vontade de entrar, sentar,
“botecar” e simplesmente ser feliz.
Um lugar centenário, é claro, acumula muitos visuais, reformas, adaptações e desejos
de diferentes proprietários e clientes. É justamente essa mistura que constrói sua
história, desperta lembranças e alimenta a nostalgia.
Eu mesmo carrego uma memória muito especial dali.
Lembro da infância, dos domingos em que ia buscar meu bisavô para o almoço em
família. Ele sempre estava sentado no Stuart, com o jornal do dia à mesa e a carne
assada comprada para levar para casa. Mas, olhando hoje, percebo que o verdadeiro
motivo de estar ali nunca foi a carne. Era o encontro com os amigos.
E o mais bonito é perceber que esse ritual continua vivo. Filhos, netos e bisnetos de
antigos frequentadores ainda mantêm suas mesas, suas conversas e seus encontros
naquele mesmo espaço.
Trazer de volta um lugar que caminhava para o esquecimento pelo desgaste do tempo
é uma missão difícil. Exige pesquisa, sensibilidade, respeito e muito aprofundamento
técnico.
Tive a honra de ser convidado para conduzir esse projeto e gosto de dizer que este não
é um projeto do André Henning Studio. É uma curadoria histórica traduzida em
arquitetura.
Foram meses pesquisando reportagens antigas, visitando a Casa da Memória de
Curitiba e conversando com antigos proprietários e frequentadores. E foi justamente
nessas conversas que encontramos as informações mais valiosas.
Imagem que foi usada como referencia visual para o bar. Crédito: Divulgação
Imagem que foi usada como referencia visual para o bar. Crédito: Divulgação
As pessoas não lembravam apenas da comida.
Lembravam da cadeira.
Da parede azul.
Do espelho atrás do balcão.
Da mesa onde gostavam de sentar.
Alguém dizia: “Aquela cadeira dos anos 90 era muito confortável.”
Outro lembrava: “As paredes ficaram muitos anos azul-claro, depois vieram o bege, o
vermelho… mas bar de verdade tem parede azul.”
E surgiam também histórias curiosas: “A mesa do Leminski ficava bem naquele canto.
Ele gostava de permanecer na área central do bar.”
Foi nesse momento que entendemos que não deveríamos reconstruir o Stuart de uma
única época.
Precisávamos reconstruir a memória afetiva do Stuart.
Essas lembranças foram guiando o projeto, criando um ambiente que reúne
fragmentos de diferentes décadas, estilos e histórias, respeitando tudo aquilo que fez
do Stuart um patrimônio afetivo da cidade.
Hoje, quem chega ao Stuart encontra um lugar novo, mas com a sensação de que
sempre esteve ali. A madeira escura, os espelhos de bar, a granitina no piso, os
lambris e as paredes azuis não pedem licença para contar sua história. Quadros,
fotografias, recortes de jornais e objetos históricos ajudam a transformar a visita em
uma verdadeira imersão.
Ao mesmo tempo, o restaurante ganhou melhorias fundamentais para os dias atuais.
Banheiros adequados para homens e mulheres — vale lembrar que de acordo com
histórias, durante muitos anos, mulheres sequer eram bem-vindas ao espaço e nem
banheiro destinado a elas existia — além de uma cozinha totalmente preparada para
atender às normas sanitárias de hoje.
Tudo isso sem perder sua essência.
A carne de onça continua presente.
A famosa porção de testículo de touro segue despertando curiosidade.
A cerveja continua gelada.
Os senhores da confraria permanecem ocupando suas mesas.
Agora dividem espaço com famílias, grupos de amigas, jovens e turistas que observam
atentamente cada detalhe desse clássico curitibano, pronto para viver seu próximo
centenário.
A arquitetura gastronômica faz exatamente isso.
Ela não substitui a culinária. Ela a completa.
Porque, no fim, não lembramos apenas do que comemos, lembramos de onde
estávamos, de quem estava ao nosso lado, da luz que tocava a mesa, do som ao redor
e da sensação de pertencimento que aquele espaço nos proporcionou.
Os lugares guardam histórias. E, mais do que isso, ajudam a construí-las.
Cada detalhe de um ambiente tem o poder de transformar um momento comum em
uma memória duradoura.
Na próxima vez que você entrar em um restaurante, tente perceber além do prato.
Observe o espaço, sinta o ambiente e repare no que faz você querer ficar ou ir embora.
E me diga: que histórias esses lugares estão ajudando você a construir?
Te convido a seguir comigo nesta coluna e descobrir, a cada edição, como a
arquitetura molda as experiências que levamos para a vida.
Onde será nossa próxima mesa?
Abraços,
André Henning