Jussara Voss é jornalista especializada em gastronomia. Reconhecida por seu olhar criterioso, valoriza autenticidade, origem dos ingredientes e o trabalho autoral dos chefs. É uma das vozes mais respeitadas fora do eixo Rio-São Paulo e autora do livro Juro que Comi e dos e eventos Letras à Mesa - um jantar literário-, e do Juro que danço, uma balada ao meio-dia, durante a semana, para retomar as atividades da Gastromotiva em Curitiba.
Instagram: @jussaravoss
O que sobra e o que falta entre o prato e a política. Crédito: Divulgação.
Tento entender tudo o que envolve os sistemas alimentares – uma das funções básicas de uma cidade, resumidamente, “da produção do alimento à nossa mesa e de volta à terra” – e aceito o convite para estar na 1ª oficina para a criação do Laboratório Alimentar de Curitiba. O assunto me interessa, sem falar no local escolhido: a fazenda urbana da CIC, que todo mundo deveria conhecer. Começo dizendo que Curitiba é referência em segurança alimentar, tem 40 anos de políticas públicas para a área e sigo com um resumo dessa história. É um trabalho que avançou muito e é motivo de orgulho para a cidade.
Tudo começou em 1986 com a criação da Secretaria de Abastecimento e o primeiro Mercadão Popular em um ônibus que atravessava a cidade levando produtos para as pessoas que não tinham onde comprar alimentos, uma versão do atual Armazém da Família, que vende produtos até 30% mais baratos.
Pulo para a década de 1990 quando a secretaria recebeu um repasse do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) e, de acordo com o histórico apresentado, fomos a única capital que conseguiu investir esse recurso criando o Fundo de Abastecimento Alimentar de Curitiba. Na sequência surgiram: o Câmbio Verde, a troca de material reciclável por alimento; as hortas e as fazendas urbanas. Curitiba foi também precursora na criação de um conselho municipal de segurança alimentar, dos restaurantes populares e do Mesa Solidária, que nasceu inspirado no Refettorio Gastromotiva, do Rio de Janeiro. Depois, as cozinhas evoluíram também para escolas de gastronomia social, como fez a Gastromotiva, ONG criada pelo chef David Hertz.
Oficina
A oficina, realizada na última quarta-feira (02/09), é uma iniciativa da Secretaria Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional da Prefeitura de Curitiba. Participei, representando a Gastromotiva, ao lado dos técnicos Ezequias Alves e Tatiana Rigler. Após conhecer a evolução das ações na área, formamos grupos, começamos a levantar projetos e iniciativas existentes com a metodologia e orientação de consultores do Sebrae. No dia 23 de setembro, todos estarão reunidos novamente para tratar de questões estratégicas com definição de prioridades, metas e indicadores. O objetivo é avançar na elaboração de uma proposta para os próximos 30 anos.
A secretaria pretende a partir da experiência criar uma estrutura permanente para conectar, testar, medir, aperfeiçoar e multiplicar soluções para o sistema alimentar da cidade, reunindo poder público, academia, setor privado, terceiro setor, produtores, startups e população. Tarefa possível, mas difícil. As palavras-chave que abrigam os eixos a serem trabalhados são: produzir; abastecer e distribuir; alimentar e cuidar; formar e incluir; conhecer e inovar; e articular e transformar.
A preocupação inicial do poder público era de colocar comida ao alcance das pessoas, agora, o objetivo é maior e engloba saúde, cultura, sustentabilidade ambiental, geração de renda, território, resíduos, produção, distribuição e autonomia.
Pontos importantes
A Região Metropolitana tem capacidade estimada para produzir alimentos para cerca de 3,5 milhões de pessoas, mas a agricultura familiar, embora represente grande parte dos estabelecimentos e do trabalho no campo, vem perdendo unidades produtivas. Ao mesmo tempo, Curitiba ainda possui potencial expressivo para agricultura urbana.
Mas existe um paradoxo: há produção, programas e equipamentos e, ainda assim, permanecem desertos alimentares e pessoas vulneráveis que não acessam políticas já existentes. Existem questões importantes sem resposta. Por que organizações da sociedade civil não conhecem os programas existentes ou produtores não sabem como acessar mercados e políticas? A população ainda desconhece muito dos serviços existentes ou como acessá-los e dados e pesquisas produzidas pelas universidades nem sempre chegam a quem os aproveitaria. Outra lacuna está nas empresas que muitas vezes têm recursos e programas mas não sabem onde aplicá-los.
Conexão e comunicação estratégica foram apontadas como solução, assim como escutar a população. Os cinco grupos formados concluíram que não basta reunir técnicos, gestores, universidades e organizações. É preciso criar mecanismos permanentes de escuta territorial. E apareceram públicos que precisam participar: agricultores familiares, lideranças comunitárias, mulheres, população migrante, povos e comunidades tradicionais, população em situação de vulnerabilidade e jovens. Outra questão é profissionalizar e dar autonomia econômica ao produtor. Não basta estimular a agricultura familiar.
Estudo
Somente 25% das pessoas com 18 anos ou mais em Curitiba consomem cinco ou mais porções diárias de frutas ou hortaliças. Estou entre elas e reflito sobre o problema. A informação está no estudo “Os caminhos da comida: o papel do planejamento urbano na transformação do sistema alimentar”, apresentado pelos técnicos do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc). No relatório ficamos sabendo quais são e de onde vêm os alimentos consumidos, quantos estabelecimentos agropecuários existem, quanto de alimento é produzido entre outras informações importantes, como as doenças que afetam as pessoas que não têm os mesmos privilégios que eu. O documento está disponível para consulta em www.ippuc.org.br na aba ‘estudos e publicações’.
Em todos os grupos de trabalho ficou claro que precisamos pensar em uma linguagem acessível para comunicar o que existe, plataformas integradas, divulgação territorial e até novos mediadores, incluindo mídia e comunicadores digitais. Comunicação – fazer a política pública chegar a quem deve utilizá-la – deve ser um eixo central no Laboratório de Sistemas Alimentares de Curitiba.
Falar em comunicação me leva à Gastromotiva, que completou 20 anos com eventos em quatro cidades, entre elas a Cidade do México, onde discutimos o papel da organização daqui para frente. Nascida modesta, hoje ela promove segurança alimentar, justiça social e adaptação climática em parcerias público-privadas em vários países. As ideias da ONG somam-se à da secretaria. A proposta para o Laboratório Alimentar de Curitiba, ou Laboratório de Sistemas Alimentares de Curitiba, nome ainda a definir, que sairá da segunda oficina, deve validar a visão de futuro, identificar contribuições, priorizar desafios e oportunidades, detalhar ações e indicadores e definir compromissos. Será apresentada no III Fórum do Pacto de Milão, em novembro, em Curitiba.