Sonhadores querem mudar o mundo. Precisam de coragem. Beto Madalosso tem. Ele poderia apenas cuidar dos seus negócios, o que já é muito trabalho, mas não sossega enquanto não aumenta sua contribuição ao setor.
Recentemente, organizou uma versão miniatura do Fórum Tutano. Chamou de “Panelaço”. É bom de criar nomes. A mudança foi além disso, claro. Mais maduro, ele reduziu o evento, que faz todo ano ao lado da Dani Volcov e da Alê Vianna, da Nazdarovia. Desta vez, optaram por uma versão menor com foco em negócios, tendências de consumo e economia. Fui até lá.
Cheguei com calor e céu azul. Fiquei meio hipnotizada com a vista do terceiro andar do Vale do Pinhão e acabei não fotografando. São ângulos meio desconhecidos da cidade. Entrei e vi o pequeno auditório lotado. Muita gente conhecida. Quando saí, o céu preparava-se para desabar. O vento parecia que me carregaria. O Uber cancelou a corrida várias vezes. Pensei no que estava fazendo ali. Tem dias que bate um cansaço.
Lembro de quando conversava com o Beto sobre a ideia de reproduzir aqui um evento como o Mistura, do Peru. Na época, imaginava o estacionamento do restaurante Madalosso cheio de produtores. Bons tempos. Ele achou que um fórum de debates e promoção de pessoas da área e produtos locais poderia também financiar a revista Tutano (pura vanguarda), o que não aconteceu. Outro sonho.
Agora, a intenção foi dar informações para que o empresário possa agir com base em números e dados. “Atendemos uma demanda”, resumiu Beto, satisfeito com o resultado. Ele fala que agora tem “os pés no chão” e que é preciso separar “o que a gente gostaria de fazer do que é possível fazer”. Cruzei com o chef, nos abraçamos, ele deu um sorriso largo e apontou para a plateia interessada: “olha isso”.
Fui saber com os participantes como enxergaram o Panelaço. Tatiane Schioschet abriu recentemente o Floreria Café e acompanha há oito anos o mercado com o marido, proprietário de dois bares. Ela disse que às vezes o empresário sente-se solitário na tomada de decisão. “Foi muito bom conversar com pessoas da área para trocar ideias”. Na plateia tinha quem queria começar um negócio e pessoas estabelecidas há décadas. “Tratar de gestão, de dificuldades comuns e perceber que cada história pode contribuir de alguma forma com a trajetória do outro é enriquecedor. A gente percebe que não está sozinho no enfrentamento dos problemas. Aprendemos com quem está ao nosso lado”, completou.
Outra empresária, Anauila Lugarini Madalosso, que comanda um catering e três unidades do restaurante Spring, gostou da versão pequena. “Permite mais conexões”. Também comemorou o acesso a números sobre o setor de alimentação no Brasil e nos Estados Unidos, perfil do consumidor e mudanças de hábitos relevantes para o mercado. “Nos pequenos grupos de discussão trocamos ideias sobre marketing e gestão de pessoas. Conhecer propostas e experiências diferentes é fundamental”. Saiu decidida a incrementar o serviço de delivery e com exemplos de como usar a Inteligência Artificial para melhorar os processos.
Oficina
Entre o Panelaço e a 2ª Oficina do Laboratório Alimentar de Curitiba, promovida pela Secretaria Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional, passei dois dias vendo números e dados estatísticos. Encontrei muita gente sonhadora por lá também. Entre eles, David Hertz, da Gastromotiva, e Felipe de Jesus, diretor do Departamento de Estratégias da secretaria.
Já contei como foi o primeiro encontro em outra coluna. Hoje, falo do segundo, que aconteceu no Mercado Municipal de Curitiba, pensado para dar continuidade à proposta da criação de um “laboratório alimentar”. A consultora do Sebrae Simone Mussolin resumiu as oficinas: “transformar dados em informação para atingir os objetivos”.
Desta vez, foi um pouco diferente. Vi pessoas que não estiveram na primeira e senti falta de outras, o que não significa que o objetivo não será atingido. É consenso que Curitiba já é, na prática, um laboratório alimentar. O chef curitibano David Hertz vê com entusiasmo o trabalho. “É essa ideia que, depois de 20 anos de atuação, vemos como caminho: transformar-se em modelo facilmente replicado por outros municípios”.
A intenção é, em conjunto com diferentes setores do poder público e da sociedade civil, planejar ações para o futuro da alimentação em Curitiba e Região Metropolitana para os próximos 20 anos. O laboratório consolida a iniciativa, que será lançada oficialmente em novembro, em Curitiba, durante o 3º Fórum Regional para a América do Sul do Pacto de Milão sobre Política de Alimentação Urbana.
Felipe fala em conexão e fortalecimento de boas práticas e projetos. “Queremos Curitiba como referência em sistemas alimentares sustentáveis. Agora, estamos ampliando os resultados da nossa atuação”. Guardo da sua fala a ideia simples de que uma cidade precisa de minhocas, sementes e abelhas. É ir além da tecnologia, é compreender os ecossistemas e a relação entre natureza, produção e alimentação.
Na oficina, todos os presentes passaram pelas estações dos principais temas, dando as suas contribuições. Um mapa de Curitiba e Região Metropolitana, apresentado pelo Ippuc, mostrava as iniciativas existentes, porque é preciso saber onde estão a população, os equipamentos, as atividades econômicas e as desigualdades de acesso. Curitiba tem histórico de 40 anos na criação de soluções alimentares. O desafio agora é transformar a cidade inteira em um laboratório que una partes do mesmo sistema.
Seguimos com os sonhos de zerar a insegurança alimentar e o desperdício, garantir água potável, dar autonomia à agricultura familiar e ampliar a agricultura regenerativa, entre outros.
O desafio é realizar tantos sonhos. Voltei ao que o Beto me disse depois do Panelaço: fazer o que é possível. Um sonho precisa de planejamento e gente disposta a realizá-lo. Foi o que vi nos dois encontros. De um lado, empresários tentando entender os seus negócios para decidir o próximo passo e prosperar. De outro, gente imaginando como alimentar uma cidade nos próximos 20 anos.
Naquele fim de tarde, me perguntava o que eu estava fazendo ali. Concluí que, para quem está há muito tempo no setor, sonhar também cansa. Desanimar faz parte, mas logo a gente volta a revirar a terra, semear e polinizar.