Taça em uma mão. Celular na outra. Uma conversa acontecendo.
Nesse momento chega um garçom oferecendo algo que precisa de prato, garfo, faca e certa habilidade para conseguir comer sem derrubar nada.
O prato pode estar delicioso. Ainda assim, existe um problema.
Quando desenvolvemos gastronomia para eventos, precisamos lembrar que as pessoas raramente estão ali exclusivamente para comer.
Elas estão conversando, circulando, conhecendo pessoas, assistindo a uma apresentação, comemorando ou fazendo negócios. A comida acontece no meio de tudo isso.
Por isso, uma das perguntas que faço ao pensar em um menu é bastante simples: como o convidado vai comer isso?
Em um jantar sentado, temos mesa, talheres e tempo. Podemos trabalhar com preparações que exigem cortes, molhos mais fluidos e montagens delicadas.
Em um coquetel, a realidade muda.
O convidado provavelmente estará em pé. Talvez esteja segurando uma bebida. Pode estar conversando enquanto come. Nesse contexto, um canapé que desmonta, um molho que escorre ou uma porção que exige cinco ou seis garfadas cria uma dificuldade desnecessária.
Até a temperatura interfere.
Algo quente demais faz o convidado esperar com o alimento na mão. Uma sobremesa congelada demais exige esforço. Uma preparação que deveria chegar crocante e chega úmida muda completamente a experiência.
E existe uma parte dessa equação que muitas vezes fica esquecida: a louça.
O recipiente precisa conversar com o alimento e com o ambiente em que ele será consumido. Há pratos lindos que funcionam perfeitamente sobre uma mesa e são extremamente desconfortáveis nas mãos. Existem bowls pequenos que resolvem uma preparação inteira. Há situações em que uma colher é suficiente e outras em que qualquer necessidade de talher já deveria nos fazer repensar o prato.
Nada disso diminui a importância da estética. Apresentação continua sendo fundamental. Só precisa funcionar depois da fotografia.
Gosto de pensar que existe uma pequena coreografia acontecendo durante um coquetel. O garçom se aproxima, o convidado identifica a preparação, pega uma unidade, come e continua sua conversa.
Quanto menos esforço existir nesse processo, melhor.
É curioso porque, quando tudo funciona, ninguém comenta sobre isso.
Ninguém vai embora dizendo que adorou o fato de o canapé ter exatamente o tamanho necessário para duas mordidas ou que o bowl cabia confortavelmente em uma mão.
Mas basta errar para que todo mundo perceba.
Conforto também faz parte da gastronomia.