
Anacreon de Téos
Luiz Augusto Xavier é o nome por trás do pseudônimo Anacreon de Téos. É jornalista especializado em gastronomia e cozinheiro na incansável busca de novos sabores e novas texturas.
Panela do Anacreon
Agora ir ao Romeo é como estar em qualquer cantinho da Itália

Gnocchi croccanti e costata di manzo (ragu de costela com gnocchi tostado), um dos novos pratos do Romeo Cucina. | Foto: Denise da Vinha
Uma transformação radical ocorre no Romeo Cucina, a partir da sua integração ao mesmo grupo dos restaurantes Maria Eugênia e Ichigo Ichie. Responsáveis pela condução de empreendimentos de ponta, os novos proprietários não poderiam deixar por menos, na fixação e correção dos rumos da casa italiana.
Se é para ser, tem de ser o melhor – ou pelo menos estar entre os melhores, na essência da gastronomia italiana. E o primeiro passo foi buscar a consultoria de um chef italiano de ótimo currículo no Brasil: Simone Brunelli. Quando ele esteve por aqui da primeira vez, foi também no propósito de uma consultoria de quatro meses, para incrementar o menu e os sabores do Terra Madre Ristorante. Ficou quatro anos, levou o restaurante novamente para o topo e ainda, de quebra, em 2017, ganhou uma vaga entre os Chefs 5 Estrelas do Prêmio Bom Gourmet (confira aqui).

O italiano retornou a Curitiba dois anos depois, para um período no comando da cozinha do La Varenne (registrei, na ocasião) e depois se esparramou por aí, entre o Brasil e o mundo. Ultimamente vinha curtindo o sossego de seu próprio estabelecimento, o Ristorante Pizzeria Pinocchio, em Barra Grande, península de Maraú (BA).
Brunelli aceitou o convite (registrei a informação pela primeira vez aqui) e programou um período de dois meses na criação e execução de uma “vera cucina italiana”. Aproveitou o período de baixa por lá (muita chuva) para matar saudades da Curitiba que tanto gosta e para deixar aqui o extrato de seu conhecimento na área. E conta com o respaldo do chef Thiago Abduch, titular do Maria Eugênia e que será o responsável pela continuidade do processo no Romeo.
A guinada


Mesmo acompanhando de perto as informações sobre os primeiros dias de Brunelli no Romeo, fiquei na espreita pela oportunidade de provar o que ele e Abduch estavam produzindo por lá, desde o início de junho. E fui pela primeira somente no início deste mês, pouco antes de o cardápio (ainda enxuto e incompleto) ser lançado oficialmente.
Retornei domingo passado, já com o menu mais encorpado e em seu formato definitivo. E constatei o óbvio: nível lá em cima, tudo o que se poderia esperar da inspiração e do conhecimento desse italiano (ou como ele mesmo se denomina agora: ítalo-baiano).
Mas sempre é possível esperar mais, com o improviso no momento de compor o prato ou mesmo de criar algum em cima da hora. Uma das entradas, por exemplo, é o Crudo di manzo (R$ 52) – o mignon cortado na ponta da faça, com mostarda anciènne, salsa trufada e focaccia artesanal. É a versão italiana do tartare, só que o chef resolveu incrementar e, na ocasião, serviu sobre uma fina base de polenta crocante (acho que essa versão pode ser até a definitiva, pelo menos por mim). Outra entrada que é imperdível – e tem aquela versão bem caseira, vinda da família do chef – é a Melanzane alla parmegiana (R$ 42) a combinação de fatias de berinjela à parmegiana, parmesão e pesto de manjericão.


Outra é tradicional pelas bandas de lá (e por aqui é feita com mignon). Trata-se do Vitello tonnato (R$ 52) - carne de vitelo selada em finas fatias, emulsão de atum e focaccia da casa. Mas o que me impressionou foi uma sugestão que eu não conhecia, o Caciucco alla livornese (R$ 42), um delicioso caldo quente de frutos do mar, acompanhado de torradas. Reconfortante para os dias frios que vivemos.
Entre os pratos principais, o Romeo oferece duas versões do famoso carbonara. O tradicional Spaghetti alla carbonara (emulsão de gema, guanciale e pecorino – R$ 95) e o Spaghetti alla carbonara trufado (emulsão de gema de ovo, guanciale, pecorino e salsa trufada – R$ 98). Fico com o original, mas reconheço que muita gente vai se interessar pelo up da salsa trufada. E aí tem mais pratos: Agnolotti alla boscaiola (massa recheada com costela, ragu de cogumelos e guanciale – R$ 110), Capelletti al formagio (recheado com mozzarela, ao sugo e finalizado com pesto de manjericão – R$ 105) e a grande campeã, que chega a vender até 15 pratos por dia, a Lasagna alla bolognese (tradicional receita da Nonna – R$ 105), para citar algumas das massas.



Entre as carnes, um prato que já se impõe na apresentação, a partir da montagem da canela de boi: Stinco e polenta (carne bovina servida com osso, cozida lentamente em vinho, com| polenta cremosa e chips de milho – R$ 218, para duas pessoas). Mas não dá para desconsiderar o Gnocchi croccanti e costata di manzo (ragu de costela com gnocchi tostado – R$ 110), em belíssima apresentação. Se a escolha recair em pescados, a boa recomendação é o Pesce del giorno (Peixe fresco do dia, legumes grelhados e purê de couve-flor – R$ 94).


Surpresas do dia (fora do meu)
Mas, como não conheço chef algum que não tenha algumas cartas na manga para agradar o cliente, Simone Brunelli não é exceção. Veio pelo menos com duas belas atrações especiais, pratos (ainda) fora do cardápio. O primeiro deles foi logo de pronto, no domingo: Risotto gamberi e zucca (risoto de camarão e abóbora, esta em duas texturas, em creme e sementes cozidas e assadas). Surpreendente e cativante.


A segunda apresentação extra foi já no show da cozinha, na confecção de um aligot (aquele purê francês que leva queijo e fica puxa-puxa). Foi denominado Coppa di maiale con aligot di patate e prugne (porco moura con aligot de batata e demi-glace de ameixa). De arrasar. Primeiro, pela textura que esse nosso porco moura oferece, ainda mais nas mãos de cozinheiros inspirados como Brunelli. E mais ainda pelo inusitado demi-glace que puxa todo o agridoce das ameixas. Dos melhores pratos que provei esse ano.
Das sobremesas, recomendo a Pavlova e amarena (crocante de merengue, gelato de iogurte e amarena R$ 36), pela textura do suspiro e o contraste com a acidez do sorvete. Mas também tem os clássicos, como Tiramisù (R$ 42) e Pannacotta (com água de morango e iogurte – R$ 42).

Dá para cravar: apesar de já existir há cinco anos, o Romeo de verdade, com denominação de origem, está sendo inaugurado agora. E certamente só irá crescer daqui para frente, mesmo quando Simone Brunelli já estiver novamente de bermuda e chinelos, na paz de sua praia baiana.
Romeo Cucina
Avenida Vicente Machado, 975 – Batel
Reservas exclusivamente pelo WhatsApp (41) 3154-4834
Instagram: @romeo.cucina
