Cissa Mariah é bartender, mixologista e educadora com mais de 17 anos de experiência na coquetelaria e mais de duas décadas dedicadas ao ensino. À frente da CM Bartender School, forma profissionais e compartilha conhecimento sobre técnicas, cultura de bar e o universo dos destilados, com destaque para a cachaça brasileira.
Verve Cocktail Challenge em Curitiba: muito além de uma competição de bartenders
27/10/2026 10:04
Verve Cocktail Challenge 2026. Crédito: @eudig_.
Quando recebi o convite para integrar o júri do Verve Cocktail Challenge 2026, sabia que teria pela frente uma responsabilidade importante. Dividiria a bancada com profissionais de destaque da coquetelaria nacional e avaliaria bartenders vindos de diferentes regiões do Brasil. O que eu ainda não sabia era o quanto essa experiência me marcaria.
Nos dias 19 e 20 de outubro, Curitiba foi palco de um encontro que mostrou como a coquetelaria brasileira vem se fortalecendo, não apenas pela qualidade dos profissionais que chegam aos campeonatos, mas também pela disposição de marcas, jurados e organizadores em investir no desenvolvimento da categoria.
Crédito: @eudig_.
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Promovido pela Verve Destilaria, de São Bento do Sul, Santa Catarina, o Verve Cocktail Challenge nasceu com uma proposta que merece atenção: ir além da escolha de um campeão. A competição foi estruturada para incentivar o aprendizado, promover conexões e oferecer aos participantes uma oportunidade concreta de evolução profissional.
E foi justamente isso que encontrei ao longo dessa experiência.
Uma competição que também ensina
Crédito: @eudig_.
Julgar um campeonato de coquetelaria exige muito mais do que provar cocktails e atribuir notas. É preciso observar o conjunto: a hospitalidade, a organização da praça de trabalho, a técnica, a criatividade, o aroma, o sabor, o equilíbrio, a originalidade e a capacidade de contar uma história. Também entram nessa equação o uso consciente dos insumos, o tempo de execução e a possibilidade de reproduzir aquela criação na rotina de um bar.
Quando existe um destilado como protagonista, há ainda outro desafio: demonstrar suas características sem deixar que os demais ingredientes escondam aquilo que faz dele a base da receita.
São muitos aspectos para considerar em poucos minutos. Por isso, a preparação do competidor faz diferença, mas a clareza dos critérios e a qualidade das devolutivas dos jurados também são fundamentais.
Durante o campeonato, vi competidores concentrados, dedicados e empenhados em entregar o melhor de si. Vi também um corpo de jurados criterioso, atento aos detalhes e disposto a explicar suas avaliações de maneira didática.
Esse cuidado tem um valor enorme, especialmente para quem está participando de um campeonato pela primeira vez. Receber um retorno consistente sobre o próprio trabalho permite identificar pontos fortes, reconhecer o que precisa melhorar e transformar a experiência em conhecimento aplicável no balcão.
É assim que uma competição pode contribuir para a carreira de um bartender muito além do resultado final.
Por que Curitiba?
Crédito: @eudig_.
A escolha de Curitiba para sediar a grande final também merece destaque.
A cidade tem uma trajetória importante na formação de profissionais da coquetelaria e da hospitalidade, com bartenders e baristas que conquistaram espaço em campeonatos de relevância. Esse reconhecimento não acontece por acaso.
Curitiba tem um público que valoriza a experiência à mesa, presta atenção ao que consome e está cada vez mais disposto a conhecer novos ingredientes, técnicas e propostas. Um público exigente também contribui para elevar o nível de quem trabalha nos bares. Para corresponder a essas expectativas, os profissionais precisam estudar, pesquisar, aprimorar suas técnicas e compreender cada vez melhor aquilo que servem.
Essa relação entre profissionais e consumidores ajuda a construir uma cena gastronômica mais madura, na qual o cocktail ganha espaço como parte da experiência, e o bartender é reconhecido por seu conhecimento e sua capacidade de criar.
E os resultados do campeonato deram ainda mais força a essa escolha. O pódio do Verve Cocktail Challenge 2026 ficou inteiramente em Curitiba: Marcos Paulo, do Jardim do Bosque Gastronomia, conquistou o terceiro lugar, Heloisa Yuri, do Amalia Pizza Bar, ficou com a segunda colocação, e Lays Rocha, do Purple Cat, levou o primeiro lugar.
Ver os três lugares do pódio ocupados por profissionais da cidade reforça a percepção de que Curitiba vem construindo uma cena de coquetelaria cada vez mais preparada e competitiva. É um reconhecimento que vai além dos vencedores. Também evidencia o trabalho de formação, estudo e dedicação que acontece diariamente nos bares e nos espaços de ensino da cidade.
Ao reunir competidores de diferentes regiões do país em Curitiba, a Verve também promoveu um intercâmbio importante entre mercados e profissionais que nem sempre têm a oportunidade de se encontrar pessoalmente.
Para mim, ver esse movimento acontecendo na nossa cidade foi motivo de orgulho.
A força de uma comunidade
Crédito: @eudig_.
Outro aspecto que me marcou foi a hospitalidade da equipe da Verve.
Por trás de um evento dessa dimensão existe uma operação que o público nem sempre enxerga. Há planejamento, organização, imprevistos, ajustes e uma equipe inteira trabalhando para que cada etapa aconteça. Vi de perto essa dedicação e o empenho de todos para fazer o campeonato acontecer.
Ao longo desse processo, acompanhei de perto parte do esforço de Camila Dall’ Agnol, sócia-proprietária da Verve, para aproximar a marca catarinense do mercado curitibano. Entrar em uma praça que já conta com marcas regionais consolidadas exige muito mais do que investimento financeiro. É preciso construir relacionamentos, conquistar a confiança dos profissionais e criar razões para que a marca passe a fazer parte da rotina de quem trabalha atrás do balcão.
Por isso, ver a emoção de Camila durante o campeonato teve um significado especial para mim. Aquele encontro representava também o resultado de um trabalho de aproximação com a comunidade, feito ao longo do tempo, com dedicação e investimento em pessoas.
A atuação de Yachan Pinsag, mixologista da marca e responsável pelo convite que me levou ao campeonato, também faz parte dessa história. Eu já acompanho sua trajetória profissional há algum tempo. Acompanhar seu caminho até a Verve e encontrá-lo agora envolvido em uma iniciativa nacional foi mais uma dessas conexões que tornam o nosso mercado tão rico.
O resultado do evento foi um encontro que aproximou pessoas, fortaleceu relações e criou oportunidades de troca entre profissionais que compartilham o mesmo universo, mas trazem experiências, referências e trajetórias diferentes.
E essa talvez seja uma das maiores contribuições de iniciativas como essa: lembrar que a evolução de uma categoria depende também da capacidade de seus integrantes se conectarem.
A competição pode colocar os bartenders em lados diferentes do balcão durante a disputa, mas o conhecimento compartilhado beneficia todo o setor. Um profissional que volta para casa com novas referências, contatos e aprendizados leva consigo possibilidades que podem se transformar em melhores experiências para seus clientes, novas oportunidades de trabalho e até outros caminhos para a própria carreira.
É por isso que considero tão valiosas as iniciativas que acolhem quem está começando e, ao mesmo tempo, desafiam quem já tem experiência a continuar aprendendo.
E a celebração continuou atrás do balcão
Crédito: @eudig_.
A programação não terminou com a final.
No dia seguinte, jurados e integrantes da equipe Verve se reuniram para um Guest Especial no Red Room, em Curitiba. Dessa vez, o encontro aconteceu no ambiente que traduz tão bem a nossa profissão: atrás do balcão, preparando cocktails, recebendo pessoas e compartilhando experiências.
Foi uma oportunidade de transformar a conexão construída durante o campeonato em mais um momento de celebração da coquetelaria.
Conheci talentos de diferentes partes do Brasil, troquei experiências com profissionais de alto nível e tive a oportunidade de observar de perto o comprometimento de pessoas que dedicam tempo e energia a uma profissão que exige estudo constante, criatividade, técnica e sensibilidade.
Saí dessa experiência melhor do que entrei. E digo isso com a convicção de quem acredita que aprender não é uma etapa que termina quando conquistamos determinado reconhecimento. É um exercício contínuo, alimentado pelas pessoas que encontramos e pelas experiências que compartilhamos.
O futuro da coquetelaria brasileira
Crédito: @eudig_.
Ao olhar para tudo o que aconteceu nesses dois dias, sinto um verdadeiro quentinho no coração.
Existe muita gente trabalhando para que a coquetelaria brasileira cresça. Bartenders que estudam, treinam e se dedicam a cada detalhe. Jurados que assumem a responsabilidade de avaliar e orientar. Marcas que investem em encontros capazes de movimentar o setor. Equipes que trabalham nos bastidores para criar oportunidades reais de desenvolvimento.
Quando esses esforços se encontram, o resultado vai além de um troféu.
O Brasil tem ingredientes, diversidade cultural, criatividade e profissionais capazes de construir uma identidade própria na coquetelaria. Para que essa potência ganhe cada vez mais reconhecimento internacional, precisamos continuar investindo em formação, pesquisa, intercâmbio e oportunidades para que nossos talentos mostrem seu trabalho.
O Verve Cocktail Challenge me fez enxergar mais uma vez a força desse movimento. E também me lembrou de que ninguém precisa sair de uma competição com o primeiro lugar para voltar para casa com uma conquista importante.
Alguns levam um prêmio. Outros levam uma lista de pontos a aprimorar, novos contatos, ideias para testar ou a coragem de se inscrever em um próximo campeonato. Todos esses resultados podem fazer parte de uma trajetória de crescimento.
Sinto-me feliz, honrada e privilegiada por ter participado dessa edição como jurada. Agradeço à Verve pelo convite e pela oportunidade de fazer parte de um encontro que valorizou não apenas os cocktails, mas principalmente as pessoas que estão por trás deles.
Que venham novas oportunidades de aprender, compartilhar e brindar ao crescimento da nossa profissão. E que a coquetelaria brasileira continue encontrando espaços para mostrar ao mundo a qualidade dos profissionais que temos por aqui.