Cissa Mariah

Cissa Mariah

Cissa Mariah é bartender, mixologista e educadora com mais de 17 anos de experiência na coquetelaria e mais de duas décadas dedicadas ao ensino. À frente da CM Bartender School, forma profissionais e compartilha conhecimento sobre técnicas, cultura de bar e o universo dos destilados, com destaque para a cachaça brasileira.

Drink ou Cocktail?

Officina Restô Bar e a nova linguagem da coquetelaria

14/04/2026 11:06
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O whisky zero álcool da Miden surge como um dos sinais de uma coquetelaria que amplia caminhos e constrói novas possibilidades de sabor. Crédito: Lapalm/Divulgação/Miden.

Nos últimos tempos, tenho observado  e vivido uma mudança na forma como nos relacionamos com a coquetelaria. Depois de mergulhar profundamente no universo da coquetelaria zero álcool com meus alunos, passei a olhar com ainda mais atenção para bares que tratam esse tema com o cuidado e a seriedade que ele merece.
Foi assim que voltei meu olhar para o Officina Restô Bar.
Mais do que um espaço que une gastronomia, arte e design, o Officina vem construindo algo que considero essencial para o futuro do bar: um repertório consistente de bebidas sem álcool que não existem como alternativa, mas como escolha.
À frente dessa construção está Richard Orciuch, que conduz o bar com uma visão muito alinhada àquilo em que acredito. Existe um cuidado evidente em cada criação, uma intenção clara de trabalhar textura, acidez, amargor e complexidade sem recorrer ao álcool como muleta. E isso, para mim, diz muito sobre o nível técnico e criativo de um bartender.
Richard é chefe de bar do grupo, semifinalista do World Class 2024, Top 50 em 2025 e 2026, e vencedor do Bom Gourmet 2025 com a melhor carta de drinques de Curitiba. E há ainda um detalhe que me atravessa de forma especial: ele é ex-aluno da CM Bartender School, formado em 2019.
A ausência do álcool, ao contrário do que muitos ainda pensam, não simplifica: ela expõe. Obriga o profissional a compreender profundamente os ingredientes, construir camadas e buscar equilíbrio com precisão. E, quando isso acontece, o resultado é potente.
A carta premiada do Officina conta hoje com nove coquetéis alcoólicos e sete sem álcool. Segundo Richard, o consumo de ambos já se equipara em volume. Experimentei o Penicillin Zero e fui surpreendida: ele entrega uma experiência muito próxima à do coquetel original, com acidez equilibrada e um retrogosto amadeirado marcante.
Outro ponto que chama atenção, e reforça essa nova fase da coquetelaria, é a parceria do Officina com a Miden. Ver uma marca dedicada ao desenvolvimento de destilados não alcoólicos sendo incorporada de forma estratégica em um bar com identidade tão sólida mostra o quanto o mercado está amadurecendo.
A Miden, primeira destilaria zero álcool do Brasil, lançou no dia 11 de março, no próprio Officina, o Miden Alternative American (whiskey), ampliando um portfólio que já incluía o Miden Italian Spritz e o Miden Alternative London Dry (gin).
Não se trata apenas de substituir o álcool, mas de criar novas bases, novos caminhos e novas possibilidades de construção de sabor.
É exatamente isso que tenho defendido: a coquetelaria zero álcool não ocupa mais um espaço de adaptação; ela constrói o seu próprio território.
Quando encontro bares como o Officina, que entendem essa responsabilidade e exploram esse universo com profundidade, não enxergo tendência, mas direção.
E é nessa direção que escolhi caminhar também.
Não apenas ensinando técnicas, mas formando repertório, criando receitas, desenvolvendo pensamento crítico sobre sabor, construção e experiência.
Porque o futuro da coquetelaria não pertence a quem replica fórmulas prontas; pertence a quem entende o porquê de cada escolha dentro do copo.
E, cada vez mais, esse futuro também é zero álcool.