Sarah Guilhermo

Sarah Guilhermo

Sarah Guilhermo é jornalista, produtora de conteúdo e, inevitavelmente, Gen Z. Disseca o comportamento da própria geração à mesa, no bar, no café e na madrugada de qualquer dia da semana. Na coluna COOL KIDS, ela coloca em palavras o que essa geração já sabe… mas nunca viu escrito. @sarahguilhermo

Cool Kids

Quem são os jovens que não bebem mais para encher a cara

23/07/2026 13:50
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Jovens que não bebem: por que eles trocaram a balada pela corrida e bem-estar? Crédito: Divulgação.

Faz tempo que ninguém me chama para beber. Não no sentido literal, os rolês continuam acontecendo, só a bebida que parou de ser uma grande protagonista. Tirando aniversário em balada ou barzinho, que é uma vez por ano e tem regras próprias, observo cada vez menos pessoas da minha idade tentando encher a cara num sábado qualquer, salvo exceções que podem só significar que estou em uma bolha diferente. Ainda assim: o que muda de uma semana pra outra é o vinho que alguém trouxe, o drink novo que alguém quer provar, quem vai fazer a receita dessa vez. Comparado com a faculdade, quando o álcool era o protagonista absoluto da noite e o resto era cenário, a diferença é de outra categoria.
Parece que não sou só eu. Em dois anos, a abstinência entre quem tem de 18 a 24 anos saltou de 46% para 64%. Entre 25 e 34 anos, foi de 47% para 61%. Por falta de unanimidade, é pelo menos uma maioria crescente, o que já muda o troféu da noite. Antes era a ressaca contada com orgulho na segunda-feira, quem bebeu mais, quem lembra menos. No meu ciclo, hoje o troféu é o oposto: chegar afiado, produtivo, sem dor de cabeça, como se a noite anterior não tivesse acontecido e isso fosse a prova de que ela foi bem aproveitada.
Os bares que frequento continuam cheios. O que mudou foi o que tem dentro do copo. Uma pesquisa da GALUNION aponta presença e conexão como motivo para beber menos em vez de privação, e o mercado parece ter entendido o recado: a cerveja sem álcool cresceu 24% no Brasil, passou de 480 milhões de litros vendidos. Não é exceção de quem não bebe, é produto de prateleira, com preço de drink de verdade, e cabendo cada vez mais fácil na mesa de quem eu conheço.
Parte disso também é matemática de corpo, além do dinheiro. São inúmeros os jovens que pararam de beber porque treinam sério, porque querem o melhor desempenho possível num esporte que levam a sério, e álcool ali é sabotagem direta, não escolha estética. 
E não é só sobre parar de beber, é sobre pra onde essa energia foi. O número de corridas de rua oficiais no Brasil saltou de 2.827 em 2024 para 5.241 em 2025, quase dobrou em um ano, e quem mais cresceu nesse meio foi justamente a faixa de 20 a 24 anos. O crescimento não veio só de quem já treinava. A faixa de 20 a 24 anos foi a que mais cresceu, trocando o sábado de balada pelo sábado de largada, literalmente.
O que me chama atenção é que esse novo rolê tem a mesma estrutura social do bar, só que sóbria por natureza. Os wellness clubs que estão surgindo por aí já não são academia, são treino, recuperação, comida e convivência empacotados juntos, o tipo de lugar pensado para ser ponto de encontro, não só de exercício. 
Tem gente que começou a correr justamente pelos amigos que já corriam, do jeito que antes alguém começava a beber vinho porque o grupo bebia vinho. A comunidade vem primeiro, o esporte é só o pretexto que sustenta o encontro. E treinar sério vira, sem querer, um filtro natural para bebida: ninguém chega afiado numa prova de domingo depois de uma noite de open bar no sábado.
Pagar o mesmo preço por um drink sem álcool também entra nessa conta, mas é só mais um item da lista, não o motivo principal. O que ficou, pelo menos por aqui, foi o costume de degustar. Provar, comparar, fazer em casa antes de sair, escolher o vinho com cuidado maior do que se escolhia o volume antes. Se a embriaguez vier junto, é lucro, não é mais o combinado.
A saída de sábado continua. Só o álcool que ganhou um ressignificado.