
Sarah Guilhermo
Sarah Guilhermo é jornalista, produtora de conteúdo e, inevitavelmente, Gen Z. Disseca o comportamento da própria geração à mesa, no bar, no café e na madrugada de qualquer dia da semana. Na coluna COOL KIDS, ela coloca em palavras o que essa geração já sabe… mas nunca viu escrito. @sarahguilhermo
Cool Kids
A gastronomia parece estar dividindo cada vez mais o protagonismo com atividades manuais nos cafés

Sair para tomar um café, hoje em dia, parece não ser mais o suficiente. Pelo menos, para um grupo de pessoas em específico.
O hábito de 'sair para comer junto' remonta às nossas versões primatas reunidas ao redor do fogo. Nós caçávamos, dividíamos, e, por ordem evolutiva, compartilhávamos aprendizagens de sobrevivência que levariam a nossa espécie para frente nos milhares de anos que se seguiram até a modernidade. Foi a partir desse momento que se alimentar deixou de ser apenas uma necessidade fisiológica e se tornou um dos mecanismos mais antigos de coesão social do ser humano. Na Idade Média, por exemplo, comer e beber de forma agrupada já servia tanto para reforçar laços entre iguais quanto para selar acordos comerciais em tabernas. E quem popularizou se reunir com amigas para conversar e tomar chá no período da tarde foi a rainha Catarina de Bragança.
Mas agora, apesar de sermos a geração de humanos com a maior rede de conexão facilitada da história, sair para somente tomar um café talvez não supra mais completamente as nossas necessidades comunicativas. É por isso que comer e fazer atividades manuais artísticas é uma busca cada vez mais comum para uma geração que teve uma infância com pouca internet, mas cresceu imersa nela a ponto de vê-la como fatigante com a chegada da adultez.
Se é na mesa que transmitimos os nossos valores mais fundamentais e a comida não é mais apenas uma premissa para comer e sim para pensar, faz sentido que, em determinado momento, outras atividades com as mãos ocupem o mesmo lugar ao mesmo tempo.
É uma proposta que alguns locais já estão adotando, e estão mais próximos de você do que você imagina: subindo a escada do Café Cultura, no Bigorrilho, até o mezanino, fica o Mezza Mezzo, o ‘Espaço da Arte’ da unidade.
Conheci o projeto num sábado de manhã em uma oficina de autorretrato com o artista Rafael Mesquita. Acompanhada de um café com maçã e canela, passei a manhã tentando desenhar meu próprio rosto ao lado de gente que eu nunca tinha visto antes e troquei ideia com a Muna, diretora cultural e curadora do Mezza Mezzo, e o Gabriel, sócio do Café Cultura Bigorrilho e Batel, sobre por que tanta gente estava ali num sábado de manhã em vez de estar em casa.
Boa parte de quem busca pelas atividades do Mezza Mezzo cresceu com a internet em algum momento da infância e hoje sente falta exatamente do que não teve mais: uma atividade que exige as mãos em vez do polegar. As pessoas ali não estavam fugindo do café, estavam usando o café também como uma desculpa.
Lá pelos anos 80, o sociólogo urbano Ray Oldenburg deu um nome a isso. Ele dividiu a vida em três lugares: a casa, o trabalho e um terceiro, sem função nenhuma além de existir com outras pessoas por perto. Para ele, era ali que uma comunidade respirava, seja no bar da esquina, na barbearia ou no café. O problema é que esse terceiro lugar anda cada vez mais escasso. A gente trabalha de casa, compra sem sair, esbarra menos em gente que não escolheu ver, e talvez seja por isso que, quando alguém monta de propósito um motivo pra sair, tanta gente apareça.
As primeiras cafeterias não tinham nada de taberna. Elas nasceram como espaço de alerta, não de bebedeira, e que ali um desconhecido sentava ao lado do outro sem hierarquia nenhuma, só na ordem de quem chegou primeiro. Foi assim que viraram, ainda no século XVII, as chamadas 'universidades de um centavo', porque o preço de um café dava acesso a horas de conversa e informação com gente que você jamais cruzaria em qualquer outra circunstância da vida.
O que o Café Cultura fez com o Mezza Mezzo foi pegar essa lógica e virar ela do avesso. Se antes bastava servir café para atrair gente com interesse em comum, hoje é preciso criar o motivo primeiro e deixar o café (e a comida) cumprir o papel de coadjuvante. Existe uma esperteza comercial nisso de perceber que uma geração inteira topa pagar pelo pretexto antes de pagar pelo produto.
E sem a cobrança nenhuma de ser bom na atividade manual, o gesto de criar carrega algo maior e lembra que a arte sempre contou a nossa história, antes da escrita e antes de qualquer linguagem formal. Ela é praticamente um organismo vivo, muda de forma, ocupa espaço, e talvez só precise que alguém abra lugar para ela do jeito que se abre lugar numa mesa.
Tem uma coincidência que vale a pena notarmos aqui: a comida sempre foi pretexto para socialização, a arte sempre foi responsável por registrar quem somos, e essas pessoas estão procurando as duas coisas ao mesmo tempo. Ninguém entra numa oficina de autorretrato pensando em teoria da arte ou em comportamento de consumo, entra porque está trocando a serotonina barata do scroll nas redes por uma atividade que cobra tempo, atenção, as duas mãos ocupadas, e devolve uma sensação que não se esvazia imediatamente.
Isso acontece porque a nossa mente entra num estado diferente quando a tarefa pede atenção e completude e nenhum outro estímulo compete espaço. A gastronomia, aliás, nunca foi sobre mastigar rápido. Quando o termo nasceu, no início do século XIX, ele não descrevia receita nem técnica de cozinha, descrevia um jeito de prestar atenção no que se come, uma disciplina de pensar sobre prazer em vez de só senti-lo.
O mesmo impulso que levou alguém a sentar e escrever sobre o gosto de um queijo dois séculos atrás, leva outro alguém a sentar e desenhar o próprio rosto hoje: a recusa de deixar uma experiência passar despercebida.
E a comida, apesar de nunca sair de cena, muda de função. Deixa de ser um dos motivos principais deste encontro e vira o intervalo dele, através do café que esfria do lado da tela de desenho ou do pedaço de bolo dividido entre duas pessoas que se conheceram há vinte minutos. É irônico pensar que o lugar que sempre foi ponto de partida para qualquer relação social continue sendo ponto de apoio, só que agora em segundo plano.
Para você viver essa experiência também

Na prática, o Mezza Mezzo é praticamente uma galeria com agenda própria. A programação muda todo mês e mistura formatos de eventos para o público com o valor de inscrição partindo de +- R$50. Esse mês, por exemplo, tem café filosófico aberto ao público em parceria com a Aliança Francesa e a PUCPR, workshop sobre a arquitetura de Lina Bo Bardi e o museu que ela projetou, uma noite de pintura livre regada a taça de vinho, sessão de cineclube discutindo como a cor comunica sentimento no cinema, e uma manhã de yoga seguida de brunch.
E para quem quer emendar a atividade com uma mesa deliciosa como eu fiz, vai a minha sugestão de pedida: o brunch café americano, com uma fatia de pão com pasta de abacate, bacon, ovo frito e pimenta calabresa + cookie artesanal + salada de frutas frescas + suco de laranja + um espresso puro.
A gastronomia não perde o posto porque ninguém busca a arte para passar fome, mas ela está cada vez mais dividindo o protagonismo com companhias que nunca deixaram de importar historicamente: a arte, uma socialização que busca retomar formatos antigos, e a vontade crescente de ficar sem olhar pro celular por algumas horas.
Agora, fica o próximo questionamento: será que sair para comer alguma coisa, sozinha, ainda dá conta do recado?

