Sarah Guilhermo

Sarah Guilhermo

Sarah Guilhermo é jornalista, produtora de conteúdo e, inevitavelmente, Gen Z. Disseca o comportamento da própria geração à mesa, no bar, no café e na madrugada de qualquer dia da semana. Na coluna COOL KIDS, ela coloca em palavras o que essa geração já sabe… mas nunca viu escrito. @sarahguilhermo

Cool Kids

O melhor rolê da semana pode ser sovar massa ao lado de desconhecidos

22/10/2026 13:32
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Sarah Guilhermo na estreia da aula de massa da Cantina do Délio.

Nessa semana, a parte mais divertida envolveu um ovo e 100 gramas de farinha numa terça à noite.
Fui convidada para a estreia da aula show da Cantina do Délio Itupava. A ideia era aprender a fazer massa fresca com o chef, Délio Canabrava, premiadíssimo e, pessoalmente, um querido. Levei uma amiga, que não é da área da gastronomia (na verdade, Amanda é uma jornalista esportiva) e a ideia era justamente essa: ver como alguém reage a um programa que, de fora, parece ser de especialista. Ou, pelo menos, que poderia ser destinado a qualquer entusiasta da gastronomia.
A massa fresca em Curitiba tem história. Entre 1872 e o início do século XX, mais de 20 mil italianos desembarcaram no Paraná. Muitos vieram do Vêneto, no norte da Itália, e em 1878 fundaram a colônia de Santa Felicidade. Eram camponeses, trouxeram a língua, a fé, o jeito de comer, e passaram a abastecer a cidade vendendo hortaliça de carroça. Com o tempo, o bairro virou sinônimo de cantina. Faz tanto sentido que a gente quase esquece de perguntar de onde veio.
Existe um detalhe curioso nisso. A massa de ovo que a gente aprendeu a fazer na aula, em 2026, no centro da cidade, é mais ligada à tradição da Emilia-Romagna, de onde vêm o tagliatelle e boa parte das massas frescas que a gente conhece, e não ao Vêneto dos primeiros colonos. A medida que o chef Délio Canabrava nos deu é a clássica de lá: 100 gramas de farinha para cada ovo. Ou seja, a Itália que chegou ao Paraná no século XIX ganhou, mais de cem anos depois, outra Itália, a que a gente aprendeu a sovar numa mesa de restaurante.
Isso me lembrou de uma amiga que viajou para a Itália com o namorado e colocou a aula de massas no roteiro turístico da viagem. Claro, a Itália tem isso muito forte, aprender a fazer massa com um italiano é um programa que o viajante já embarca querendo fazer. E agora Curitiba tem isso também!
Na aula, cada um recebeu seu ovo e sua farinha, misturou, sovou, e o chef foi mostrando como a massa precisava ficar. Depois, observamos como ele corta o ravioli e como precisa ser feito o nhoque de batata, que tem seus segredos – isso fica para quem quiser viver a experiência, acho que o chef vai saber contar melhor ao vivo do que eu, neste texto (humildade em primeiro lugar).
No fim, voltamos para casa com a massa que a gente mesmo montou, para testar sozinha depois.
A degustação veio da cozinha do restaurante, em porções pequenas, e fechou com uma sobremesa. Então não foi a nossa massa que comemos, foi a da cozinha dele, e isso é parte da graça: você vê o processo inteiro e depois prova o resultado de quem faz isso há anos. E leva para casa a sua massa fresca, para reproduzir no dia seguinte.
Troquei ideia com a minha amiga durante toda a noite, e saímos com a sensação de ter feito algo diferente numa terça, que geralmente é o dia mais sem graça da semana. É uma sugestão de programação que combina com quem anda procurando outros jeitos de se encontrar.
Ninguém precisa entender de gastronomia para estar ali. Todo mundo come, e de preferência gosta de comer bem. Todo mundo, uma hora, precisa cozinhar. É isso que une quem entende de massa fresca e de cozinha italiana e quem só quer jantar bem e aprender a se virar na cozinha. A aula foi feita para ser divertida, e não para ser uma aula de teoria gastronômica, e é por isso que funciona com qualquer pessoa que você levar.
Sair para jantar não é ultrapassado, mas toda mudança na rotina é bem-vinda! Em vez de só sentar, comer, beber vinho e ir embora, você sai dali sabendo reproduzir um pedaço do jantar em casa.
Só não o jantar inteiro, porque cada aula show da Cantina do Délio tem um prato diferente. Quem foi esta semana e voltar no mês que vem, por exemplo, vai provar outras massas e aprender outras técnicas, mas já sai sabendo fazer massa fresca com o que tem na despensa.
Vou ser honesta sobre uma coisa: o ingresso custa R$250, é um programa gourmet e especial. Mas ele também não exclui ninguém pela lógica da gastronomia, porque não pede repertório, não pede bagagem, só pede vontade de colocar a mão na massa. Que é, aliás, o que a gente sempre fez ao redor de uma mesa, em qualquer época.