André Bezerra

A Xepa

O Dia Que Maria Clara Conheceu o Pomar

20/04/2026 16:25
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Crédito: jcomp/Freepik

Por André Bezerra
Até quando estivesse bem velhinha, quase senil, Maria Clara jamais esqueceria o dia quando o pai a levou pra passear pelo Pomar. As visitas dele eram escassas e os momentos sozinha com ele, raríssimos. Mesmo assim, aquele passeio foi um marco determinante.
A menina passou a infância atada à mãe. O elo entre as duas era tão grande, que Maria Alice chamava a filha de “Pingente”. Logo cedo, enquanto o galo emitia os primeiros cacarejos, despertava a menina: “Vamos, meu Pingente, abra os olhinhos”. Maria Clara despertava para o aroma do bolo de milho, da fornada de pão de queijo, do café coado pela mãe e pelas ajudantes, Maria Lúcia, Marlene e Mariana. A Casa no campo era grande, cercada pela varanda ao redor da construção. Havia samambaias, roseiras, orquídeas e trepadeiras por toda parte.
A cozinha era a parte mais ampla. Ali estavam o forno à lenha, o fogão, a pia que mais parecia uma piscina, as panelas, bandejas, tábuas e travessas de todas as formas e tamanhos. Havia uma grande mesa central. Em volta, as mulheres trabalhavam e conversavam. Paralelo a uma das paredes, varais sustentavam raízes, ramalhetes de folhas e cascas de frutas. Uma vez desidratados, eram utilizados nas bases de doces, molhos, sopas e chás.
Do lado de fora da cozinha, uma horta verde oliva, como o da bandeira nacional. Maria Clara era enviada ali a toda hora. Como um soldadinho, sua missão era colher ervas e temperos frescos. Desde quando deu os primeiros passos, aprendeu a reconhecer salsinhas e ervas daninhas. Com as mãozinhas curiosas, arrancava buvas, capim-pé-de-galinha e tiririca que alimentariam o fogo dos fornos e da lareira. Colhia ramos inteiros de cebolinha, coentro, alecrim, orégano e manjericão. Estes iriam nas receitas dos pratos e nas massas dos pães, sobre as pizzas. A menina, literalmente, colocava as mãos na massa. Untava, polvilhava, incorporava, amassava e esticava. Com os dedinhos, separava o nhoque, desenhava bordas, salpicava coberturas de empadões e tortas.
Desperta pela mãe, a pequena Maria calçava as botas de borracha e corria, ainda de camisola e com os cabelos soltos, para a cocheira, onde assistia a ordenha matutina. Observava os animais atentamente, com os olhinhos todavia incomodados pela luz do alvorecer. Aprendeu, precocemente, a reconhecer as reações dos bichos. Intuía o alívio de uma vaca ao ter as tetas esvaziadas de todo aquele leite. O amor de uma égua pelo filhote recém-parido. O alarido dos gansos, marrecos e patos anunciando a proximidade do temporal.
Foi num começo de estação das chuvas que o pai veio passar uns dias. Sempre ocupado com as muitas empresas que comandava, eram poucas as horas que conseguia dedicar diretamente à Casa do campo e à família. De longe, cuidava para que nada faltasse materialmente. De perto, aos olhos da filha, era um visitante eventual, quase um estrangeiro. Mesmo estando na Casa, passava a maior parte do tempo encerrado, entre livros e pessoas que vinham vê-lo, na Biblioteca. Por isso, foi especialmente marcante quando ele convidou a menina para um passeio, sozinhos, até o Primeiro Pomar. Maria Clara ouvira falar, desde cedo, sobre este lugar.
O Primeiro Pomar ficava num dos pontos mais distantes da propriedade, depois da Cocheira, das Granjas, da Represa, dos Campos Irrigados e do Vale dos Bichos. Para além do Primeiro Pomar, somente a Floresta. Tratava-se, então, de um lado inexplorado para qualquer pessoa, além do pai. Foi num dia atípico que quebrou uma sequência de chuvas torrenciais. Os raios de sol atravessavam, como lanças douradas, o teto de nuvens. Levada pela mão, filha e pai caminharam por horas até terminarem o trajeto diante de um bosque gigantesco de árvores frondosas. Era outono, por isso as folhas se soltavam e formavam um grande “tapete”.
Ao se aproximarem, a menina reconheceu. Eram notas de dinheiro, novinhas. Hectares e hectares de um grande pomar, a perder de vista. Jabuticabeiras se intercalavam com laranjeiras, jaqueiras, limoeiros e maracujazeiros. Havia pés de mimosa, de frutas do conde, cajuzeiros e tomateiros. Fileiras intermináveis de macieiras, videiras, parreirais e bananeiras, numa espécie de floresta de permacultura a perder de vista. Frondoso, o pomar fazia sombra para um chão forrado de notas de reais, dólares, yens e euros. Um tapete grosso, espesso, que escondia raízes e onde os pés afundavam até acima dos joelhos de um adulto, até a cintura de Maria Clara. Quanto mais se embrenhavam no Pomar, mais intensa e ruidosa tornava-se aquela “chuva” de dinheiro se soltando das copas das árvores.
E aquela visão permaneceria na memória mais remota da menina, do “Pingente” de Maria Alice. O pai teria dito algo como “para colher, é preciso plantar”. Pediu desculpa à filha por não estar sempre com ela como gostaria. Aconselhou que nunca renunciasse à família, que cuidasse da mãe e jamais se afastasse dos irmãos. Mas que, acima de tudo, escolhesse o próprio destino. Que saísse daquela Casa quando achasse que era hora. Mas que sempre voltasse para a propriedade. Havia muitos caminhos a serem percorridos no mundo e a vida, no final das contas, era breve como uma caminhada pelo campo, como escolher feijões, separar as ervas daninhas daquelas com poder medicinal.
Dentre tudo o que conheceu e explorou enquanto viveu, Maria Clara escolheu voltar às origens. Seguiu cultivando a horta, ordenhando as vacas, cuidando dos bichos, fazendo crescer a massa, desenvolvendo e preparando as receitas. Teve filhos, criou-os e deixou os anos a pegarem na estrada, junto com o vento que lhe embaralhava os cabelos. Morreu em algum país distante, com um nome curtinho, mas difícil de ser pronunciado. Seus livros e criações culinárias, porém, seguem inspirando cozinheiros brilhantes mundo afora. Velhas receitas ganham vida enquanto o legado de uma menina perdura através dos anos.
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