A cidadezinha fica no interior de Minas. Em volta da única praça, a lotérica, a farmácia, um mercado, a velha sorveteria, um sobrado que virou hotel e um boteco. Na rua de trás, prefeitura, hospital e dois botecos se intercalam com as casas de alvenaria e muros baixos diante delas. Mais uma rua, delegacia, rodoviária, a pensão e outra meia dúzia de botecos.
Há anos o circo não voltava pra cidade e o calendário de eventos oficiais consta duas “festas” populares: a procissão do santo padroeiro, São Benedito, e o concurso de botecos. Vinda da capital, a disputa transformou a rotina e mexeu no caldo cultural da cidadezinha. As pessoas torcem pelo seu “buteco” favorito como se fossem times de futebol. Mais do que isso, é o júri popular - a população - quem entra nos botecos, prova a culinária, uma bebida e avalia.
Nenhuma pessoa vai à igreja exclusivamente para fazer a circunflexão, se confessar, rezar um rosário e ir embora, por mais beata que seja. Ninguém vai à missa para ouvir o padre e sair, sem dar tchau. Os fiéis frequentam a igreja também em busca de socialização, de estar junto com outras pessoas. Assim são os botequeiros “de carteirinha”. Eles não vão aos botecos somente para beberem. É no botequim que estão alguns dos maiores tesouros da gastronomia. Ali estão os amigos, a rede de contatos, o “balcão de informação”. Por isso o concurso que elege o melhor boteco da cidade mobiliza a todos: homens, mulheres, velhos, jovens e até as crianças, que vão com suas famílias passearem, provarem um tira-gosto e tomarem refrigerante.
Mas havia algo peculiar sobre o concurso naquela cidade. Todo ano, desde o princípio, era o mesmo boteco que conquistava o primeiro lugar. Típico “Bar do Fulano”, atrás do balcão é o próprio “Fulano”, sempre de camisa aberta até o início da pança, quem destampa as cervejas, prepara os rabos-de-galo, frita o torresmo, cozinha o frango e o quiabo. Quando a organização do concurso anunciava o campeão local, sempre em meados de maio ou junho, o Fulano ganhava ainda mais notoriedade, conquistava aqueles quinze minutos da fama que ele, vaidoso, tanto aprecia. O resto do ano ele passava exibindo sua galeria de placas de Campeão, de Melhor Boteco da cidade. Fazia questão de exaltar, aos quatro ventos e para quem tivesse ouvidos para ouvir, a importância do evento, não apenas para o estabelecimento familiar dele, mas para toda uma cadeia chamada Gastronomia. Sem falar no turismo. O tal concurso movimenta todos os negócios da cidade, chama atenção e atrai gente de todos os lados, das cidades vizinhas e até os mais aventureiros de BH, a capital mineira.
Chegou um ano, porém, e, finalmente, outro boteco venceu e o “eterno” campeão se viu obrigado a amargar um segundo lugar, dentre mais de dez participantes. Eis que o tal Fulano não teve dúvida. Sacou o telefone, ligou para a organização do concurso e, ao atenderem, começou a xingar antes de dar bom dia. Entre impropérios impublicáveis, disse que era amigo do delegado, que recebia o pároco na casa dele, que era íntimo do prefeito e que tinha amizade até com o governador do estado. Gritou contrariado, disse que aquele concurso era uma palhaçada, que entregaria todos os envolvidos às autoridades, processaria um por um e daria um jeito de eles nunca mais entrarem na cidade ou trabalharem em qualquer outro lugar.
No ano seguinte, consta, inscreveu seu boteco de volta no mesmo concurso. Se ganhou ou se perdeu, não importa, mas a cidadezinha segue competindo. Enaltece e celebra seus melhores estabelecimentos, os cozinheiros, receitas e aquela culinária autêntica, mineira, de raiz.