Brasil
Do vinho sem álcool aos novos terroirs: o que a Wine South America revela sobre o futuro do setor

Da ascensão dos desalcoolizados ao crescimento do consumo no Brasil, a Wine South America mostrou que o vinho brasileiro vive uma de suas fases mais dinâmicas e interessantes dos últimos anos. Cesar Silvestro/Divulgação
Feira em Bento Gonçalves mostrou avanço dos vinhos desalcoolizados, novas regiões produtoras, sustentabilidade e um consumidor brasileiro cada vez mais interessado em qualidade, experiência e gastronomia
A Wine South America 2026 encerrou sua sexta edição em Bento Gonçalves com um recado claro para quem trabalha com gastronomia, varejo, hospitalidade e bebidas: o vinho brasileiro amadureceu e o consumidor também. Em três dias, a feira movimentou R$ 120 milhões em negócios, reuniu mais de 7 mil visitantes profissionais, compradores de mais de 20 países e superou em 20% o volume de negócios da edição anterior.
Mas, para além dos números, a feira revelou um setor em transformação. O vinho já não se limita à lógica da garrafa clássica, da origem tradicional ou do consumo formal. Na edição deste ano, ganharam força temas como vinhos desalcoolizados, sustentabilidade, novas regiões produtoras, experiências enogastronômicas e a profissionalização do vinho em bares e restaurantes.

O avanço dos vinhos sem álcool
Uma das tendências mais evidentes da feira foi o crescimento da categoria dos vinhos desalcoolizados - bebidas produzidas pelo processo tradicional de vinificação e que passam posteriormente pela remoção total ou parcial do álcool, preservando características sensoriais do vinho.
A Vinoh apresentou o primeiro espumante Brut desalcoolizado brasileiro elaborado a partir de 100% vinho, um diferencial importante diante de muitos produtos “zero álcool” disponíveis no mercado, frequentemente derivados de compostos ou sucos.
Já a Aurora entrou oficialmente na categoria com um novo desalcoolizado da linha Procedências, elaborado com 100% Chardonnay e voltado à valorização dos terroirs de seus cooperados.
Mais do que tendência passageira, a categoria sinaliza uma mudança importante no comportamento do consumidor: cresce o interesse por experiências de consumo mais leves, versáteis e conectadas ao bem-estar, sem abrir mão do ritual, da estética e da sofisticação do vinho.

Sustentabilidade deixa de ser discurso periférico
Outro movimento forte da feira foi a consolidação da sustentabilidade como valor estratégico - e não mais apenas institucional.
O Miolo Wine Group apresentou sua Certificação Carbono Neutro, conduzida a partir da metodologia GHG Protocol e envolvendo suas quatro unidades brasileiras. A empresa também aproveitou a WSA para reforçar a aposta em vinhos de mínima intervenção com o lançamento do Miolo Wild Gamay 2026, primeiro tinto da safra elaborado sem adição de SO².
A chilena Odfjell Vineyards também chamou atenção pela filosofia de produção orgânica e sustentável, baseada em solos vivos e equilíbrio ambiental, reforçando uma tendência global: consumidores querem entender não apenas o sabor do vinho, mas também a forma como ele é produzido.

O vinho brasileiro já não cabe apenas no Sul
A feira também confirmou uma transformação silenciosa - mas profunda - na geografia do vinho brasileiro. Com mais de 280 marcas nacionais representando nove estados, a edição mostrou que o setor se expandiu muito além da Serra Gaúcha. Hoje, o vinho brasileiro nasce também no Cerrado, no semiárido nordestino, em Brasília, Goiás, Espírito Santo e Minas Gerais.
O Vale do São Francisco, por exemplo, segue consolidando sua posição como uma das regiões mais singulares do mundo para a vitivinicultura, com possibilidade de colheita durante todos os meses do ano graças à irrigação controlada às margens do rio.
Já Brasília participou da feira pela segunda vez com vinícolas de alta gama e rótulos premiados internacionalmente, reforçando o Cerrado como uma nova fronteira relevante para o vinho brasileiro.

Brasil cresce enquanto mercados tradicionais desaceleram
Em um momento em que mercados tradicionais da Europa registram desaceleração no consumo de vinho, o Brasil segue na contramão - e em crescimento.
Segundo levantamento apresentado pela Ideal BI durante o Wine Summit, o consumo per capita no país voltou a 3 litros anuais, crescimento de 7% sobre o ano anterior e de 35% na última década. Sul e Sudeste seguem acima da média nacional, enquanto os espumantes atingiram nova máxima histórica, com 4,5 milhões de caixas. As mulheres já representam 57% do público consumidor da categoria.
Os dados ajudam a explicar o ambiente visto na feira: um mercado mais profissionalizado, disposto a experimentar novos estilos, novas regiões e novas ocasiões de consumo.

Gastronomia, experiência e serviço entram no centro da conversa
Para bares, restaurantes e hotéis, talvez esteja aí um dos recados mais importantes da WSA: vinho precisa deixar de ser tratado apenas como carta e passar a ser entendido como experiência.
A programação da feira triplicou em relação à edição anterior, reunindo painéis, workshops, Wine Talks e debates sobre inteligência de mercado, e-commerce, Reforma Tributária e rentabilidade no canal on-trade.
A conexão entre vinho e gastronomia ganhou protagonismo com a estreia do Cozinha Show, comandado pelo chef Carlos Bertolazzi, em aulas-show harmonizadas com rótulos da Salton.
O movimento reforça uma mudança clara: o consumidor contemporâneo não quer apenas beber vinho. Quer contexto, harmonização, narrativa, hospitalidade e experiência.

O vinho entra em uma nova fase no Brasil
A próxima edição da Wine South America já está confirmada para maio de 2027. Até lá, algumas pistas parecem claras: menos formalidade, mais experiência; menos fronteiras geográficas, mais diversidade brasileira; menos produto isolado, mais construção de marca, serviço e storytelling.
No fim, a feira mostrou que o vinho no Brasil vive um novo momento - e ele interessa não apenas a sommeliers e enólogos, mas também a chefs, restaurateurs, varejistas e consumidores que entenderam que, hoje, uma boa taça também precisa contar uma boa história.

