Rio Grande do Sul

Festival Africano em Porto Alegre: feira, música, arte e um banquete assinado pelos chefs João Diamante e Sidy

Anderson Hartmann, com Kátia Gutierrez Berger
29/10/2026 13:08
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Crédito: Eloisa Marchetti

Sabores, ritmos e saberes da África ganham as ruas do Centro Histórico de Porto Alegre (RS). Com entrada gratuita, o 2º Festival Africano – Áfricas no Centro acontece em 7 de novembro, na Rua Coronel Genuíno, e reúne à mesa o chef baiano João Diamante e o senegalês Sidy.
Muito do que o gaúcho põe na mesa, canta no galpão e celebra na fé veio da África. Nem sempre com esse nome. Ao longo de três séculos, receitas trocaram de nome, ritmos ganharam sotaque de fronteira e a fé aprendeu a se guardar nos bairros mais afastados do centro. Mas ficou.

Vindos de diferentes regiões da África, homens e mulheres chegaram ao Rio Grande do Sul sobretudo nos séculos 18 e 19, para trabalhar nas charqueadas, nas lavouras e nas cidades. Trouxeram o tambor, o tempero e os orixás. Deles nasceu o batuque, religião de matriz africana que se firmou em Porto Alegre. Pelo Censo de 2022, 3,2% dos gaúchos seguem religiões afro-brasileiras, mais que o triplo da média nacional. No coração do Mercado Público, o Bará, orixá que abre os caminhos e representa a fartura, foi tombado como patrimônio da cidade no início dos anos 2020.
Foi também em Porto Alegre que nasceu o 20 de Novembro. Em 1971, o poeta Oliveira Silveira e o Grupo Palmares reuniram cerca de 20 pessoas num clube da Capital para lembrar Zumbi dos Palmares. A data virou o Dia da Consciência Negra.
No sábado, 7 de novembro, essa herança cabe numa mesma rua. O 2º Festival Africano – Áfricas no Centro ocupa a Rua Coronel Genuíno, em frente ao UniSenac, no Centro Histórico, a partir das 10h. A entrada é gratuita. Tem comida, música, moda, arte e conversa. E tem um banquete assinado por João Diamante, chef baiano radicado no Rio de Janeiro, ao lado do senegalês Sidy, que vive em Porto Alegre há alguns anos.

Um banquete entre a África, a Bahia e o Pampa

João Diamante nasceu em Salvador e cresceu no morro do Andaraí, no Rio. Fundou o Diamantes na Cozinha, projeto que forma jovens em situação de vulnerabilidade em cozinha, nutrição e hospitalidade. Em 2024, recebeu o prêmio Champions of Change, do The World's 50 Best Restaurants, que reconhece quem usa a gastronomia para transformar a sociedade. João Diamante já antecipa o que o público pode esperar do banquete, destacando o respeito aos ingredientes e a valorização de tudo o que vai para a panela.
“Saber de onde o ingrediente vem, como chegou até você, pra você ter esse respeito ao ingrediente, a quem produziu, e utilizar o alimento na sua integralidade. Isso faz parte da responsabilidade social de um cozinheiro e de um cidadão”, afirma o chef.
No banquete, João Diamante vai dividir a cozinha com Sidy, do projeto Raízes do Chef Sidy. Senegalês, ele traz para o banquete a memória de quem cresceu na África. A divisão de papéis foi explicada por Aline Barilli Alves, do Produtores Gaúchos Unidos, que organiza o festival.
“O Sidy mais África, o João com um olhar mais Brasil e a gente com a pitada do Rio Grande do Sul”, resume Aline.
Para Sidy, o festival é também uma chance de mostrar outra imagem do continente.
“Isso tem um grande significado pra nós, através da religião, através da cultura, através de onde a gente vem, porque a gente vê que as pessoas mostram muita coisa na mídia que não tem nada a ver”, diz o chef.
O banquete africano será servido das 12h às 15h, na cantina do térreo do UniSenac, em uma experiência que aproxima tradições culinárias africanas dos ingredientes e sabores brasileiros. O chef João Diamante apresenta preparações como salada de mungunzá à campanha e xinxim de galinha, acompanhadas de farofa de dendê, feijão com couve e amendoim, legumes tostados com gengibre, cuscuz de milho temperado e arroz com lentilha. Entre as sobremesas estão a cocada mole e o Doce Raízes, opção vegana. Já o chef senegalês Sidy traz salada Raízes, mbakhal niébé vegano, arroz de cordeiro com toque senegalês e uma releitura de massa de fermentação natural com mel e coco. Para encerrar, o thiakry, sobremesa tradicional do Senegal, completa o encontro de sabores e referências culturais.
Crédito: Eloisa Marchetti
Crédito: Eloisa Marchetti

Um ingrediente de festa

O chef Fabrício Goulart, formado em Gastronomia e Marketing no Senac, também participa do festival, com uma aula no sábado. Para essa aula, Fabrício escolheu um ingrediente conhecido de quase toda cozinha gaúcha: o milho da canjica, que aparece doce, salgado, em sopa e em sobremesa.
“A canjica salgada vem do sul da África, com variações de um prato que é celebrado em formaturas, em casamentos, que traz essa alegria que a cultura afro tem”, explica Fabrício.
Para ele, a pergunta que mais ouve tem resposta simples. A cultura negra faz parte da cultura gaúcha, do churrasco aos cozidos.
“Muitas das receitas que a gente conhece, que ao longo dos tempos foram tendo seus nomes trocados, estão enraizadas nessa construção da cultura gaúcha”, afirma.

Uma rua para comer, ouvir e ver

Quem não comprar o banquete também tem muito o que provar. A feira reúne produtores gaúchos e da agricultura familiar, com comidas e bebidas típicas à venda. Na rua, há DJs e atrações culturais, desfiles de moda africana e de beleza africana e um espaço para as crianças. Oficinas de gastronomia com saberes e ingredientes de matriz africana e uma palestra no anfiteatro têm inscrição gratuita pelo Sympla. A ideia é levar ao Centro quem não costuma frequentá-lo, conta Aline. A primeira edição, em 2025, foi organizada em dez dias, numa proporção bem menor, na Unisinos.
“O nosso objetivo é trazer pessoas que não estão acostumadas a viver o centro pra vivenciar um centro diferente, um sábado com a família, trazer os filhos”, diz.
A música e a poesia também têm raízes negras, lembra a secretária de Cultura de Porto Alegre, Liliana Cardoso, que é declamadora e foi patrona dos Festejos Farroupilhas de 2021. Como legado do patronato, lançou o livro A Matriz da Cultura Negra no Gauchismo.
“A milonga é negra, a vaneira é negra, a poesia é negra, de Oliveira Silveira”, afirma Liliana.
Para o Chef Fabrício, comer junto é a forma mais simples de celebrar essa herança.
“Afro é coletividade. Independente da nossa cor de pele, a gente sempre abre as portas pro todo”, diz.
Poucas formas de conhecer uma cultura são tão boas quanto sentar à mesa com ela. No festival, a mesa vem acompanhada. O dendê e o amendoim no prato, a música tomando a rua, as estampas coloridas da moda africana na passarela, a arte espalhada pelas barracas. Provar um prato senegalês pela primeira vez, ouvir de quem cozinha a história por trás dele e emendar a tarde entre a feira e as atrações culturais é um programa que a cidade raramente reúne num só lugar. E a porta de entrada, a rua, é aberta a todos.
Uma comida diferente, música boa, arte e conversa no mesmo sábado: é assim que a herança afro-gaúcha volta ao centro da cidade, e à mesa.

Música, poesia, arte e ancestralidade ocupam o Centro Histórico

A programação do 2º Festival Africano – Áfricas no Centro vai muito além do banquete. Ao longo do dia 7 de novembro, das 10h às 18h, a Rua Coronel Genuíno e os espaços do UniSenac recebem apresentações musicais, declamação, oficinas, debates, moda, artesanato e uma feira de produtores, em uma celebração das culturas africanas, afro-brasileiras e afro-gaúchas.
No palco externo, a secretária de Cultura de Porto Alegre, Liliana Cardoso, apresenta uma declamação às 12h30. Às 15h, João Diamante e Sidy se encontram para um bate-papo sobre gastronomia. A programação também reúne Nina Fola, Sopapo Poético, Sopapinho Poético, a Tamborada das comunidades quilombolas do Litoral Médio e a curadoria musical de Camila, da Rádio Agulha.
No auditório do UniSenac, João Diamante apresenta uma palestra às 11h. Às 14h, o Instituto Identidade RS promove um painel com Flávia Mu, Marcelo Schambeck e o professor Jorge Amaro. Às 15h, Liliana Cardoso e Bruna Serrano discutem a relação entre o Centro, a cultura e novos olhares para a cidade. O encerramento da programação do auditório, às 16h, será com Miriam Krindges, em uma conversa que aproxima vinhos e ancestralidade.
O público também poderá participar de experiências práticas, como a oficina de canjica salgada com o chef Fabrício Goulart, às 10h, e a oficina AfroColagens com Marissol Machado. As atividades indicadas pela organização exigem inscrição gratuita pelo Sympla.

Programação do Festival Africano – 7 de novembro

10h – Abertura oficial, no palco externo.
10h – Oficina de canjica salgada com o chef Fabrício Goulart, na cantina. Inscrição gratuita pelo Sympla.
11h – Palestra do chef João Diamante, no auditório do UniSenac.
12h às 15h – Banquete africano, na cantina do térreo do UniSenac.
12h30 – Declamação da secretária de Cultura de Porto Alegre, Liliana Cardoso, no palco externo.
14h – Painel do Instituto Identidade RS, com Flávia Mu, Marcelo Schambeck e o professor Jorge Amaro, no auditório.
15h – Bate-papo entre os chefs João Diamante e Sidy, no palco externo.
15h – Oficina AfroColagens com Marissol Machado, na rua. Inscrição gratuita pelo Sympla.
15h – Liliana Cardoso e Bruna Serrano conversam sobre um novo olhar para o Centro, no auditório.
16h – Miriam Krindges fala sobre vinhos e ancestralidade, no auditório.
18h – Encerramento do festival.
Durante todo o dia: feira de produtores, moda, artesanato e atrações musicais e culturais, incluindo Nina Fola, Sopapo Poético, Sopapinho Poético e a Tamborada das comunidades quilombolas do Litoral Médio.
2º Festival Africano – Áfricas no Centro
Endereço: Rua Coronel Genuíno, 130, em frente ao UniSenac, Centro Histórico, Porto Alegre (RS)
Horário: sábado, 7 de novembro, a partir das 10h
Entrada: gratuita
Banquete Africano: das 12h às 15h30, R$ 90 por pessoa, bebidas à parte. Ingressos no Sympla
Oficinas e palestra: inscrição gratuita pelo Sympla
Instagram: @festivalafricano e @produtoresgauchosunidos

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