Rio Grande do Sul
16 vinhos às cegas e 800 pessoas: uma experiência para viver ao menos uma vez na Serra Gaúcha

Mais do que uma degustação, a Avaliação Nacional de Vinhos reúne 800 pessoas para provar, simultaneamente, os vinhos que ajudam a revelar o retrato da safra brasileira.
Avaliação Nacional de Vinhos reúne 800 pessoas para degustar às cegas 16 amostras que representam a Safra 2026 e pode ser o ponto de partida para um roteiro pelas vinícolas da principal região produtora do país
Durante muito tempo, falar em vinho brasileiro significava olhar quase automaticamente para o Rio Grande do Sul. A Serra Gaúcha continua sendo o coração histórico dessa produção, mas o mapa mudou. Hoje há vinho sendo produzido em diferentes latitudes, altitudes, climas e ciclos de cultivo. Há a tradição do Sul convivendo com a dupla poda do Sudeste, novos projetos no Centro-Oeste e vinhedos que desafiam antigas certezas sobre onde seria possível produzir vinho no Brasil.
No dia 17 de outubro, parte dessa nova geografia poderá ser experimentada em um mesmo lugar. Bento Gonçalves recebe a 34ª Avaliação Nacional de Vinhos – Safra 2026, promovida pela Associação Brasileira de Enologia (ABE). Nesta edição, foram inscritas 569 amostras de 84 vinícolas de 10 estados e do Distrito Federal, o maior número já registrado pelo evento.
E, para quem vem de fora, a experiência pode ser também um bom motivo para transformar a Avaliação em uma viagem pela Serra Gaúcha. Afinal, é possível passar algumas horas provando um retrato da nova geografia do vinho brasileiro e, nos dias seguintes, percorrer vinhedos, conhecer produtores, visitar caves e sentar à mesa justamente no território que ajudou a construir a história do vinho no país.
Mais do que aumentar, a produção brasileira está se diversificando. E talvez seja essa a melhor palavra para compreender a edição de 2026: diversidade.

Um retrato da safra, não uma competição
Apesar da dimensão do encontro, há uma diferença fundamental entre a Avaliação Nacional e os concursos de vinhos. A Avaliação não é uma competição.
Não há primeiro, segundo ou terceiro colocado. O objetivo é construir um retrato técnico da safra brasileira e identificar os vinhos que melhor representam aquele momento da produção nacional. A própria ABE define o evento como de caráter educativo, voltado à promoção do vinho brasileiro e à disseminação das práticas de degustação e apreciação. Realizado desde 1993, o formato é apresentado pela entidade como único no mundo. O processo começa muito antes de o público ocupar as mesas em Bento Gonçalves.

Neste ano, equipes da ABE percorreram as regiões produtoras para buscar as amostras diretamente nas vinícolas. Os vinhos foram encontrados em diferentes estágios de elaboração - em tanques de aço inox, barricas, ovos de concreto ou já engarrafados -, identificados por códigos e levados para a etapa técnica da Avaliação.
Entre os dias 1º e 4 de setembro, 109 enólogos participaram da Degustação de Seleção. Sem rótulos, marcas ou informações sobre a origem, cada profissional teve diante de si apenas o vinho. Dessa avaliação saem os 30% representativos de cada categoria da Safra 2026. E, entre eles, apenas 16 amostras chegarão às taças do público em outubro. Quais são? Esse é um segredo guardado até o grande dia.

16 vinhos. 800 taças ao mesmo tempo
É aqui que a Avaliação deixa de ser apenas um trabalho técnico e se transforma em experiência. Às 17h do dia 17 de outubro, 800 pessoas estarão reunidas no Parque de Eventos de Bento Gonçalves. Cada uma receberá os mesmos 16 vinhos selecionados para representar a Safra 2026. Todos degustam juntos. A cada amostra, um convidado comenta suas percepções. E há um detalhe fundamental: o público também não sabe qual vinho está bebendo.
Sem a influência de uma marca conhecida, de uma região famosa ou de um rótulo prestigiado, sobra aquilo que está dentro da taça. Só depois a identidade é revelada. É uma dinâmica que coloca lado a lado quem produz vinho todos os dias e quem simplesmente gosta de bebê-lo.

“Ela precisa ser vivenciada”
Essa aproximação entre os dois públicos é justamente um dos movimentos que a ABE quer ampliar. Embora profissionais do setor, enólogos, produtores, sommeliers e representantes de vinícolas historicamente tenham presença importante na Avaliação, a proposta é trazer cada vez mais apreciadores e consumidores para dentro dessa experiência.
Para o enólogo e vice-presidente da ABE, Michel Zignani, tentar explicar a Avaliação para quem nunca participou é um desafio justamente porque ela reúne diferentes dimensões em um mesmo evento.
É um evento técnico, é um painel sensorial de apresentação do que a safra apresentou no Brasil, mas é uma experiência e, acima de tudo, é uma festa. Mais do que explicar, é importante que as pessoas participem. Ela precisa ser vivenciada para entender o que de fato é a Avaliação.
Essa talvez seja uma das particularidades mais interessantes do encontro. Não é preciso ser enólogo. Não é preciso ser sommelier. Nem dominar o vocabulário técnico do vinho. É possível simplesmente sentar, receber a taça, ouvir quem entende, provar e construir a própria percepção.

O Brasil dentro de uma taça
Para o presidente da ABE, o enólogo Mário Lucas Ieggli, a expansão geográfica da Safra 2026 ajuda a dimensionar a transformação pela qual passa o vinho brasileiro.
A grande palavra e o significado desta 34ª edição é a diversidade do vinho brasileiro. Diversidade é a palavra-chave.
O número de origens representadas ajuda a materializar essa afirmação. O Rio Grande do Sul continua respondendo pela maior parcela das amostras, mas divide o painel com produções de outras dez unidades da Federação. A edição contempla desde regiões de longa tradição vitivinícola até territórios cuja presença no mapa brasileiro do vinho é muito mais recente.

Para Ieggli, esse movimento mostra um país ainda em processo de descoberta:
Nosso Brasil está cada vez mais vitivinícola, cada vez mais ganhando espaço na mesa do consumidor com vinho brasileiro. Isso mostra o quão grande é o nosso país e o quanto ainda temos para desbravar.
Não significa que todos os territórios façam o mesmo vinho. Justamente o contrário. A graça está nas diferenças. Climas, solos, altitudes, variedades, técnicas e períodos de colheita distintos começam a produzir identidades próprias. A Safra 2026 contempla seis categorias - base para espumante, brancos não aromáticos, brancos aromáticos, rosés, tintos jovens e tintos - e admite também vinhos de regiões de dupla poda e viticultura tropical, elaborados com uvas de 2025.
A Avaliação funciona, assim, quase como uma fotografia anual desse Brasil vitivinícola em transformação.

Do setor para quem bebe vinho
Há ainda outra diversidade que a ABE pretende ampliar: a de quem ocupa as cadeiras da Avaliação.
“Existe um entendimento de que talvez seja um evento para dentro do setor”, reconhece Michel. A intenção, segundo ele, é justamente romper essa percepção.
Queremos cada vez mais trazer pessoas que são bebedoras, amigos do vinho, para vir junto conosco, desfrutar, conhecer e vivenciar esse momento.
É uma mudança importante. Quanto mais o vinho brasileiro amplia suas fronteiras produtivas, mais precisa também ampliar suas fronteiras de consumo. E poucas situações permitem ao consumidor compreender essa diversidade de maneira tão concentrada quanto provar, na mesma tarde, 16 vinhos escolhidos para representar uma safra nacional, sem saber previamente de onde cada um veio.

Uma experiência que continua depois da última taça
A degustação é o coração do evento, mas não encerra a noite. Depois das 16 amostras, a programação segue com coquetel de encerramento, espumantes, gastronomia e vinhos, em um ambiente que reúne produtores, enólogos, sommeliers, profissionais do setor e apreciadores. O encontro começa às 17h e segue até a meia-noite.
Em 2026, há ainda um significado adicional: a Associação Brasileira de Enologia completa 50 anos, cinco décadas acompanhando e ajudando a construir parte da história recente da vitivinicultura nacional. Talvez por isso esta edição permita olhar simultaneamente para trás e para frente. Para um país que durante décadas teve sua imagem vitivinícola concentrada em poucas regiões, colocar lado a lado vinhos de tantos territórios significa mais do que aumentar números. Significa perceber que não existe mais apenas um caminho para fazer vinho brasileiro. Existem muitos. E no dia 17 de outubro, em Bento Gonçalves, 16 deles estarão dentro das taças.
Serviço
34ª Avaliação Nacional de Vinhos – Safra 2026
17 de outubro de 2026
Credenciamento às 16h | início às 17h | encerramento à meia-noite
Pavilhão E do Parque de Eventos - Bento Gonçalves (RS)
Degustação simultânea das 16 amostras representativas da Safra 2026 + coquetel de encerramento
Ingressos ainda disponíveis, em número limitado, diretamente pela ABE. Para o público geral, o valor informado é de R$ 750 via Pix; associados da ABE pagam R$ 650.
17 de outubro de 2026
Credenciamento às 16h | início às 17h | encerramento à meia-noite
Pavilhão E do Parque de Eventos - Bento Gonçalves (RS)
Degustação simultânea das 16 amostras representativas da Safra 2026 + coquetel de encerramento
Ingressos ainda disponíveis, em número limitado, diretamente pela ABE. Para o público geral, o valor informado é de R$ 750 via Pix; associados da ABE pagam R$ 650.

