Bom Gourmet
Brasil deve receber 10 milhões de turistas estrangeiros em 2026, e a gastronomia é um dos principais impulsionadores

Nesta segunda-feira (3), aconteceu o II Seminário de Turismo Gastronômico, evento destinado à discussão para fortalecer o setor como um pilar de experiência no turismo e a fomentar a busca do turismo, sem estereótipos. O evento foi sediado no Auditório do Sebrae-PR e foi idealizado pelo Thiago Paes, fundador do coletivo Embaixadores do Turismo e co-realizado pelo Bom Gourmet.
Na abertura do evento, autoridades e referências do setor da alimentação fora do lar paranaense foram convidados para o palco, incluindo Andréa Sorgenfrei, CEO do Bom Gourmet, e Caroline Olinda, head do Bom Gourmet. Neste momento, as duas afirmaram que a participação do evento
‘“O Prêmio Bom Gourmet tem uma grande relevância em Curitiba e queremos levar esta relevância para outras cidades do Paraná. Por isso, essa temática do Sabor é o Destino e a realização do Seminário é tão importante para nós, porque reforça o nosso propósito enquanto empresa”, afirma a CEO.
Ao longo das dez horas de evento, foram abordadas as novidades e dados do Plano Brasis, realizado pela Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), conceitos e estratégias sobre o que é turismo gastronômico, discussões sobre empreendedorismo gastronômico turístico, internacionalização, enoturismo e futuro do setor. Abaixo, confira os destaques do evento.
Plano Brasis: qual o planejamento estratégico de marketing turístico para 2025 a 2027?

Ana Paula Jacques, gerente de projetos estruturantes da Embratur, abriu a programação do dia com a apresentação do Plano Brasis, plano internacional de marketing turístico do país para o período de 2025 a 2027. O posicionamento que a agência pretende levar ao exterior é a riqueza da cultura e da sociedade brasileira porque, segundo Ana Paula, "o Brasil é uma vibe".
Em sua fala, Ana apresentou a trajetória da Embratur, que neste ano completa 60 anos na promoção internacional dos destinos brasileiros. Para fortalecer esse trabalho, ela reforçou que a agência atua como orientadora do trade turístico no país, por meio de ações com inteligência de dados, promoções com foco em conservação, reposicionamento competitivo e ferramentas em sinergia com os negócios para transformar o desejo em demanda.
A internacionalização já começa a ganhar força. Segundo os dados apresentados pela gerente de projetos estruturantes da Embratur, apenas no primeiro semestre de 2026 o Brasil recebeu cerca de 5,2 milhões de turistas estrangeiros. A expectativa é fechar o ano com 10 milhões de visitantes internacionais. Em 2025, o número registrado foi de 9,3 milhões. O interesse pelo Brasil como destino também vem aumentando ano após ano: desde o período pós-pandemia, o país registrou crescimento de 46% na chegada de turistas estrangeiros.
A gastronomia entra como um dos principais pilares para o fomento do turismo no país. No entanto, para que o segmento seja fortalecido, Ana ressalta que "os restaurantes precisam se entender como agentes do turismo". Entre os caminhos que podem ser explorados pelos empresários estão demandas reprimidas de diferentes públicos, envolvendo segmentos como luxo e autenticidade, bem-estar, resorts e observação da natureza.
Turismo Gastronômico, ‘cacofonia alimentar’ e a territorialidade como motivador de viagem

O Seminário carrega em seu nome o conceito de "Turismo Gastronômico", mas o que isso significa, na prática? Esse foi o ponto de partida da palestra de Tainá Zaneti, primeira doutora em Gastronomia do Brasil. Com uma abordagem mais acadêmica, ela apresentou conceitos e reflexões sobre a construção de estratégias para o desenvolvimento de destinos gastronômicos.
Entre eles, Tainá definiu o turismo gastronômico como "o movimento da experiência humana em transformar o cotidiano em experiência". Segundo a pesquisadora, as viagens têm a capacidade de reorganizar emocionalmente o olhar das pessoas sobre aquilo que faz parte do dia a dia, transformando hábitos cotidianos em vivências memoráveis.
Como parte desse sistema, a doutora elencou três atores fundamentais: os chefs, responsáveis pela execução dos pratos; as agências de viagens, que estruturam as experiências de acordo com o perfil de cada visitante; e os "guardiões dos saberes", como definiu os agricultores que preservam tradições de cultivo e as compartilham com os turistas.
Outro ponto abordado foi a comunicação dos destinos. Para Tainá, vivemos uma "cacofonia alimentar", marcada pelo excesso e pela fragmentação das informações. Nesse cenário, ela defendeu que uma comunicação mais eficiente passa pela escuta ativa do público, pela valorização dos aspectos sensoriais e pela compreensão dos diferentes nichos de consumidores.
Por fim, a pesquisadora destacou a importância da territorialidade e afirmou que o Brasil ainda precisa se apropriar melhor de seu potencial. Entre os exemplos citados estão as indicações geográficas, os patrimônios, os biomas, a sociodiversidade e os selos de proteção. Valorizar esses elementos, como o uso de produtos com indicação geográfica nos cardápios, além de diferenciar os negócios, contribui para fortalecer toda a cadeia produtiva e o turismo gastronômico.
Construção de desejos, visibilidade de mídia e produtos únicos são diferenciais dos restaurantes que se tornam destinos gastronômicos

Com o tema "Como o turismo e a gastronomia andam juntos em seu restaurante", o painel reuniu os chefs Antonio Mendes, do Nalva Restaurante, Claudia Krauspenhar, do K.sa Restaurante, Danilo Takigawa, do ASU, e Johnlee, da Délices de Sucre e ex-participante do MasterChef Confeiteiros. A conversa foi mediada por Thiago Paes, fundador do seminário, e Caroline Olinda, head do Bom Gourmet.
Ao longo do debate, os chefs mostraram como a identidade de cada operação contribui para transformar a gastronomia em um atrativo turístico. A valorização da cultura local, a escolha de produtos artesanais, a produção própria de ingredientes e o respeito à essência de cada restaurante foram apontados como fatores que tornam a experiência mais autêntica e fortalecem a relação entre gastronomia e destino.
A visibilidade conquistada por meio de programas de televisão, listas especializadas e premiações também foi apontada como um importante impulsionador dos negócios. Segundo os participantes, esses reconhecimentos ampliam o alcance dos restaurantes, atraem novos públicos e geram impacto direto no aumento das reservas, estimulando visitantes a conhecerem um destino pela sua gastronomia.
Os chefs também destacaram que inovação e autenticidade caminham juntas. Viagens, pesquisas, trocas com outros profissionais e o networking foram citados como formas de ampliar repertório sem perder a identidade de cada operação, contribuindo para fortalecer a gastronomia como patrimônio cultural e motor do turismo.
O papel do trade na promoção dos destinos internacionais

O painel sobre promoção turística internacional reuniu Giancarlo Takigawa, diretor-geral da Air Canada; Sheila Nassar, fundadora da VBRA, empresa especializada em estratégias de turismo para o Canadá; e Natália Leal, gerente de marketing Brasil do Turismo da Suíça. Em comum, os três defenderam que o fortalecimento de um destino passa pela integração entre o poder público, a iniciativa privada e, principalmente, o trade turístico.
Representando o Turismo da Suíça, Natália Leal explicou que a estratégia de promoção do destino combina ações de trade, mídia e comunicação. Segundo ela, o Brasil é um mercado prioritário pelo alto potencial de consumo dos turistas, e as agências de viagens desempenham papel fundamental, sendo responsáveis por 72% das reservas de brasileiros para o país.
A importância da parceria entre iniciativa privada e trade também foi destacada por Giancarlo Takigawa, diretor-geral da Air Canada. Para ele, o crescimento de um destino depende da integração entre turismo de lazer, corporativo e programas que aproximem estudantes, agentes de viagens e outros públicos estratégicos.
Esse modelo inspirou a criação do consórcio de marketing cooperado Extraordinário Canadá, lançado em 2025 em parceria com a Air Canada e liderado pela iniciativa privada. A iniciativa reúne 14 parceiros e promove ações de relacionamento com o trade, road shows e campanhas para ampliar o interesse dos brasileiros pelo destino. A companhia aérea também investe em viagens de familiarização para que agentes conheçam o país e se tornem promotores do destino.
Ao falar dos desafios, Sheila Nassar defendeu que o Brasil precisa superar a "cultura de vira-lata" e reconhecer seu potencial como mercado emissor de turistas. Natália reforçou que o visitante brasileiro é um diferencial para a Suíça, destacando a alegria e a espontaneidade do público nacional como características valorizadas pelo destino.
Enoturismo impulsiona destinos por meio de experiências e transforma os visitantes em embaixadores dos produtores

O enoturismo também esteve entre os temas debatidos durante o seminário, em um painel que reuniu Luciana Masiero, CEO da Escola de Enoturismo da Serra Gaúcha, e Ana Daleffe, chef do Buffet Telhado de Paris e do Ana Bistrô, em Campo Mourão. A conversa foi mediada pela jornalista Simone Meirelles, do Comer e Curtir, e pelo sommelier Vinícius Schupil, do DUQ Gastronomia, e destacou como o vinho e a gastronomia podem impulsionar destinos turísticos por meio das experiências.
Para Luciana, o vinho deixou de ser o principal motivo para uma viagem e passou a ser um instrumento para proporcionar experiências. Segundo ela, as pessoas já não saem de casa apenas para comprar um rótulo, mas para viver momentos ligados à cultura, ao território e ao conhecimento. As visitas às vinícolas podem atender tanto quem busca uma imersão técnica no universo do vinho quanto quem deseja apenas desfrutar de uma experiência. "A experiência marca a memória do vinho", resumiu, explicando que esse vínculo fortalece não apenas a marca, mas toda a cultura do destino.
A mesma lógica orienta o trabalho de Ana Daleffe no interior do Paraná. À frente de restaurantes em Campo Mourão, a chef afirmou que investe na alta gastronomia justamente para criar um motivo para que as pessoas visitem a cidade. Em um município com poucos atrativos turísticos tradicionais, a boa comida se transforma no destino. "Meu restaurante é uma casa de vó. É acolhedor e todo mundo quer voltar", afirmou.
As duas também discutiram os desafios para fortalecer o enoturismo brasileiro. Luciana explicou que a Escola de Enoturismo surgiu para capacitar profissionais especializados para atuar no setor na Serra Gaúcha. Apesar da qualidade da produção nacional, ela destacou que cerca de 80% dos vinhos finos consumidos no Brasil ainda são importados, cenário que atribui à falta de comunicação e visibilidade dos rótulos brasileiros.
Segundo ela, o desempenho dos vinhos nacionais em competições internacionais mostra que há qualidade para mudar essa percepção e que, para que isso aconteça, é necessário um trabalho de explicar ao público essa qualidade. "Não podemos falar de gastronomia brasileira degustando vinho exportado", defendeu Luciana.
Construir uma carreira na gastronomia exige técnica, gestão e propósito

Encerrando a programação do II Seminário de Turismo Gastronômico, o painel "Histórias e desafios de construir uma carreira na gastronomia" reuniu Jussara Voss, jornalista, escritora e especialista em gastronomia e viagens; Pedro Nunes, chef do Nunes Parrilla; Ronaldo Fogaça, chef do Ichigo Ichie; e Well Ferreira, chef do Avenida Paulista. A conversa foi mediada por Dani Machado, criadora de conteúdo gastronômico e colunista do Bom Gourmet, e Eloá Cruz, jornalista gastronômica e colunista da Tribuna do Paraná.
Ao compartilhar suas trajetórias, os participantes mostraram que construir uma carreira na gastronomia envolve desafios que vão da gestão das equipes à valorização da cultura gastronômica. Jussara Voss destacou que o setor ainda precisa ampliar o espaço da gastronomia nas instituições e fortalecer o debate sobre seu papel como patrimônio cultural.
Na visão dos chefs, a técnica é apenas uma parte do processo. Ronaldo Fogaça afirmou que a construção de um restaurante passa pela definição de uma identidade, pela pesquisa e pelo entendimento do público, enquanto Well Ferreira destacou que um dos principais desafios é manter a equipe alinhada ao padrão da casa. Para ele, conhecer os ingredientes, dominar as técnicas e oferecer uma experiência consistente são fatores que fazem o cliente voltar, especialmente em um restaurante onde cerca de 60% do público é formado por turistas.
A comunicação também apareceu como um dos pilares para o crescimento dos negócios. Os painelistas defenderam que a experiência do cliente é a principal ferramenta de divulgação dos restaurantes e que o marketing boca a boca continua sendo um dos meios mais eficientes para fortalecer a reputação das casas e atrair novos visitantes.

