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Eventos Bom Gourmet

Mistura: a festa do povo peruano

De Lima (Peru) -- Jussara Voss, especial para a Gazeta do Povo
17/10/2013 03:16
“Difícil definir”, ouvia isso, mas também adjetivos de sobra. “Você ainda não foi?”, perguntavam os interlocutores surpresos. Claro, impossível acreditar que uma pessoa que escreve sobre gastronomia e que gosta de comer bem nunca tinha pisado num dos mais importantes eventos do setor. Então, fui buscar a redenção e levei um susto. Vergonhosamente, desdenhamos um pouco nossos vizinhos, olhamos desconfiados, mas, acredite, eles são profissionais. Isso sem falar na comida.
Pois a feira Mistura deixa mesmo boquiaberto o mais preparado dos visitantes. Primeiro porque não se sabe que roteiro seguir: se conhecer alguns dos muitos produtos trazidos pelos mais de 400 agricultores; se afundar em chocolates ou pisco, a famosa aguardente local; ou, ainda, se perder no mundo das brasas, com seus assados apetitosos. Enfim, a lista de atrações é mesmo infindável.
Os números também surpreendem: dividida em 12 “mundos” (norteño; andino; sureño; del ceviche; de las brasas; de los líquidos; oriental; amazónico, limeño; anticucho; de las tabernas y bares; de los sanguches), a feira recebeu cerca de meio milhão de pessoas, de todas as classes sociais e nacionalidades, um crescimento de 7% em relação ao ano anterior. Foram 387 mil ingressos vendidos, além de convidados, imprensa e envolvidos na organização do evento, cujo tema foi “A água e os recursos hidrobiológicos”.
A estrutura envolvia ainda o grande auditório, que abrigava a demonstração das cozinhas regionais, concursos, premiações, aulas magnas e foros; os espaços “grande aquário”; o impressionante “o grande mercado” e a “rota de gigantes”.
De acordo com os dados da Sociedade Peruana de Gastronomia, a Apega, promotora da feira, há quatro anos, 9% dos peruanos gostava de sair para comer fora; hoje, em 2013, esse número chega a 36%. A atividade gastronômica quadruplicou, o que é facilmente constatado com a valorização de produtos emblemáticos e com a abertura de restaurantes. No balanço final do Mistura, os números, resumidos, eram contabilizados assim: 10 mil pratos disso, 20 mil porções de outra iguaria, 13 mil sanduíches numa soma sem fim. Longas filas de mais de uma hora para provar um leitão à pururuca, ou visitar o aquário, tudo com muita organização e dose de paciência do povo. Impres­­sionante mesmo. A edição de 2013 aconteceu de 6 a 13 de setembro, com inúmeras tentações, com tempero de apresentações artísticas de brinde. Um espetáculo único.
Paixão peruana
A gastronomia está na alma do povo peruano, é orgulho, é assunto no boteco da esquina e no táxi, assim como o futebol é para os brasileiros. Todo mundo entende um pouco. Isso também ajuda a compreender o que é a feira Mistura, que acontece há seis anos no país. Se ainda não foi ao território gastronômico vizinho, não pense que pode conhecê-lo em um fim de semana prolongado, reserve no mínimo oito dias, tempo para os sabores ficarem impregnados, alimentando o desejo de voltar rapidinho para outra estada de descobertas e de fartas e incríveis mesas.
Impossível não citar o nome de Gastón Acurio, à frente da revolução econômica e social derivada da “cocina novoandina”, que idealizou a feira e está tornando o ceviche – prato popular do Peru, com peixe marinado – a nova pizza, ou sushi, como fez o Japão. Pelo menos, é a sua intenção. Hoje, porém, existe uma turma de chefs talentosos que estão abrindo outras casas e ganhando estrela Michelin, inclusive, como o jovem Virgilio Martínez, do restaurante Central, um lugar imperdível, de gastronomia regional, preparada com carinho, inovação e qualidade.
Os peruanos aprenderam a valorizar os seus pequenos agricultores e cozinheiros, reverenciando a biodiversidade do país, “uma das mais ricas do mundo”, dizem em coro, além de difundir a cultura peruana pelo mundo. Uma boa estratégia.
Apega / Divulgação
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