
Jussara Voss
Jussara Voss é jornalista especializada em gastronomia. Reconhecida por seu olhar criterioso, valoriza autenticidade, origem dos ingredientes e o trabalho autoral dos chefs. É uma das vozes mais respeitadas fora do eixo Rio-São Paulo e autora do livro Juro que Comi e dos e eventos Letras à Mesa - um jantar literário-, e do Juro que danço, uma balada ao meio-dia, durante a semana, para retomar as atividades da Gastromotiva em Curitiba. Instagram: @jussaravoss
Vosso Blog de Comida
Um curso para embarcar no universo de Nina Horta e as minhas preferências
falassem um pouco sobre si e suas preferências na gastronomia em 60
segundos. Logo depois de aceitar o desafio fui ficando agoniada, honrada
com o convite de ser uma das 31 mulheres escolhidas, porém
agoniada. Sofro com escolhas.
estava: “se pudesse escolher em toda a história da humanidade alguém
para jantar, quem escolheria”? Muito difícil, pensei, tanta gente
que eu gostaria de uma prosa íntima em uma refeição especial: de Gandhi
até Lacan e Sócrates. Daí achei que eu deveria escolher
alguém da área, nem deu tempo de piscar e a jornalista Nina
Horta apareceu, claro. Um encontro com a “mais importante cronista de
comida do Brasil” seria o máximo, divertido também, com certeza. Mas
não é que fui atropelada por Shakespeare, o inglês foi o escolhido
– culpa das aulas e leituras sobre o autor que abracei na pandemia.
vida, esbarrei nas colunas, publicadas no jornal Folha de São Paulo, da Nina
Horta, que morreu em 2019. Nunca mais abandonei e quase morri quando
um dia em casa abri um envelope com as receitas de um chef
famoso que tinha andado por aqui, com uma dedicatória. Então,
ela existia mesmo.
mundo que gosta de comer, cozinhar, ler e escrever”. Misturar literatura
e comida abre o meu apetite e Luísa entra na categoria
mulheres inspiradoras.
fácil: frango assado, criado solto e sem ração,
recheado com farofa doce e preparado por quem me criou. Daí lembrei do frango
com foie gras que vem com um ramo de lavanda e ervas
todo brilhante e exibido, servido no hotel Nomad, em Nova York, que
recomendo e não citei no vídeo. Digo sempre para convidar alguém a
dividir o prato. Quem experimenta devolve sinceros agradecimentos.
Ainda teria dito, se tivesse tempo, que o lugar tem um clima
parisiense do século passado com ar contemporâneo, merece a visita,
nem que seja para um drink em um dos bares.
resolvi citar as melhores refeições que já tive, fui injusta, faltaram
duas, teria muitas mais, mas daí já seria um exagero.
Mugaritz, do chef Andoni Aduriz, em San Sebastián. Foi a
minha iniciação na área e a visita rendeu horas no divã, era a descoberta
de um outro mundo. Marcantes também as primeiras refeições no El
Celler da Can Roca, dos irmãos Roca, e no Asador Extebarri, do
chef Victor Arguinzoniz. Dois estilos de cozinhas diferentes que me
deixaram de boca aberta, sem adjetivos que pudessem defini-los.
Magnus Nilsson, na Suécia, que infelizmente deixou fãs sem
rumo. O jantar lá foi como colocar os pés em um mundo totalmente
novo. Às vezes duvido que estive naquela fazenda em terras geladas
beirando o Polo Norte, acolhidos dentro de um antigo e aquecido celeiro.
Durante três anos contei algumas dessas experiências no Bom Gourmet, que
em breve estarão em um livro.
mas vou confessar que alguns menus-degustação provados, longe ou perto
de casa, me deram vontade de ser a Jeannie, aquela gênia
de dois mil anos de idade do seriado na TV, libertada pelo astronauta
Tony Nelson e que realizava seus desejos. Pois, o meu, às vezes, é sumir
sem deixar vestígios de pratos intocados em jantares enfadonhos.
achei muito “besta”, como diria um amigo, isso porque se fosse uma comida
eu falei que seria uma vieira (crua ou levemente grelhada) e não sei se
é porque amo o molusco ou porque sou tão reservada que pareço estar
dentro dos dois leques de uma concha. Agora, se fosse uma bebida,
falei que seria champanhe e aí não tenho desculpas de me acharem
esnobe demais, mas não sou.
on-line)
24/4 e 1/5



