Jussara Voss

Jussara Voss

Jussara Voss é jornalista especializada em gastronomia. Reconhecida por seu olhar criterioso, valoriza autenticidade, origem dos ingredientes e o trabalho autoral dos chefs. É uma das vozes mais respeitadas fora do eixo Rio-São Paulo e autora do livro Juro que Comi e dos e eventos Letras à Mesa - um jantar literário-, e do Juro que danço, uma balada ao meio-dia, durante a semana, para retomar as atividades da Gastromotiva em Curitiba. Instagram: @jussaravoss

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Quem tem menos doa mais

18/09/2026 10:51
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Mesa Solidária em Curitiba: quem tem menos doa mais. Crédito: Divulgação.

Quase ao final da edição de mais um Juro que danço, a balada diurna durante a semana, escutei Daiana Roberta Klotz dizer que fazia 20 anos que não dançava. “A gente cuida dos outros e se esquece da gente”. Para a última edição da festa criada para retomar as atividades da Gastromotiva em Curitiba, recorri à Secretaria Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional para convidar os voluntários do programa da prefeitura Mesa Solidária. Queria conhecê-los. Daiana estava entre eles.
Fiquei curiosa com a afirmação dela e pedi seu telefone. Logo depois fizemos uma chamada de vídeo. Eu no meu esconderijo semanal longe da cidade, ela em um dos parques de Curitiba, “preciso de um refúgio perto da natureza para ter energia”, explicou-me. Eu também. Além de aliviar tensões musculares, como massoterapeuta, Daiana acha tempo para ajudar de outra maneira. Contou-me que sempre sofria ao ver pessoas nas ruas sem ter o que comer. “Quando encontrava alguém com fome, sempre dava um lanche”. Religiosa, um dia, quando vinha da Região Metropolitana, onde morava, para ver a sogra doente, percebeu que não conseguia ajudar tanta gente e rezou. “Fazer o bem a quem não tem” foi a mensagem que diz ter recebido. Deveria também juntar-se a outras pessoas para poder ampliar a rede de solidariedade. Quando chegou em casa, escreveu a frase no Facebook. Os comentários de apoio vieram rápido e um grupo foi formado. Lá se foram 14 anos de dedicação. 
A história foi quase interrompida na pandemia com a iniciativa da prefeitura de organizar a doação de refeições e não deixar restos de alimentos nas ruas, motivo de reclamação dos comerciantes. Teve resistência. Hoje, apesar de o novo arranjo ainda precisar de ajustes, é oferecido um local adequado para quem vai comer e para os voluntários cozinharem. 
Daiana aderiu à proposta que ganhou o nome de Mesa Solidária. Participa há cinco anos. Hoje, comemora a aproximação com outros programas da secretaria, como a Fazenda Urbana, de onde vêm os ingredientes para o preparo da comida, e também com o Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional, ligado à SMSAN, um colegiado que subsidia o governo na formulação e monitoramento de políticas públicas.
Outra reviravolta na sua vida veio do contato com crianças autistas e com o grupo de apoio às “mães atípicas”, em Piraquara. “Descobri que as mulheres, geralmente abandonadas pelo companheiro, não conseguiam trabalhar e ouvi um pedido de socorro”. Veio outro insight: fazer uma massa com verduras, um macarrão proteico. Então, começou a testar receitas. Ela conta que em três meses a criança com quem teve contato mais próximo estava com suas funções gastrointestinais reguladas. De acordo com ela, a explicação é que a massa com batata-salsa, cenoura, abóbora, inhame e feijão branco tem a mesma aparência da preparada com farinha e ovos, um aspecto importante para algumas crianças que têm dificuldade em aceitar o que foge do padrão visual conhecido. Uma vez por semana a voluntária vai até a Casa Culpi, onde funciona uma cozinha da prefeitura, e prepara a comida com a ajuda delas. Aos poucos, formou-se uma rede com outras entidades para ampliar o atendimento.  
O maior gargalo é a falta de uma cozinha própria, de alguns equipamentos e de recursos para financiar a logística de entrega, atualmente bancada por rifas e “vaquinhas”.  
A conversa com a Daiana, que encontra tempo na sua rotina para tentar minimizar o sofrimento das pessoas, levou-me à fala de Geize Diniz. Escutei a empresária no recente encontro em comemoração aos 20 anos da Gastromotiva, em São Paulo. 
Se o discurso social não comove, o econômico poderá comover, disse Geize, que criou o Pacto contra a Fome. No encontro, destacou que metade da força de trabalho brasileira está empregada no setor privado e um quarto da população ainda sofre com algum grau de insegurança alimentar. O problema da fome não é apenas do governo ou das ONGs. Ela lembrou que prevenir custa, mas tratar as consequências em saúde, em educação, em produtividade perdida custa muito mais. Por que não temos uma cultura de filantropia? Foi outra provocação dela no evento, e é a pergunta que fica. “Quem tem menos doa mais” é uma certeza.
O convite para dançar em plena hora do almoço, num intervalo durante um dia da semana, pode ser um começo para mudar realidades. O Juro que danço nasceu como um evento disruptivo para tentar trazer a Gastromotiva de volta a Curitiba. A ONG foi criada há 20 anos pelo chef curitibano David Hertz, que usa a comida como motor de transformação social. 
A ideia da festa vai além de colocar todo mundo para dançar: a primeira ação foi a reativação de uma padaria comunitária em Campo Magro, seguida de uma oficina de empreendedorismo para mulheres em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Contou com o patrocínio da Moageira Irati/Trigo de Origem e de alguns restaurantes da cidade. Quem sabe a próxima conexão possa acontecer com o lucro revertido para a iniciativa da Daiana. A meta dela é passar dos 16 kg que produz de massa para 700 kg  por mês, o que requer a aquisição de um cilindro e uma amassadeira industrial.