
Jussara Voss
Jussara Voss é jornalista especializada em gastronomia. Reconhecida por seu olhar criterioso, valoriza autenticidade, origem dos ingredientes e o trabalho autoral dos chefs. É uma das vozes mais respeitadas fora do eixo Rio-São Paulo e autora do livro Juro que Comi e dos e eventos Letras à Mesa - um jantar literário-, e do Juro que danço, uma balada ao meio-dia, durante a semana, para retomar as atividades da Gastromotiva em Curitiba. Instagram: @jussaravoss
Vosso Blog de Comida
Foi magia, fiquei mais apaixonada pela cultura do chá, culpa do El Club del Té
de chá, havia recebido um presente. Desconfiei. “O chá é um caminho
sem retorno”, segredou-me a especialista Victoria Bisogno em meio a uma
cerimônia com a bebida ancestral servida ao estilo chinês e ainda na
presença da pequena estátua de Lu Yu (733-804), uma espécie de santo padroeiro.
Acatei a provocação. Parecia mais uma benção. Uns dias depois, desviava ainda
mais a minha rota embarcando no curso de Tea Blender.
palavras do imperador chinês Shennong, a primeira pessoa a usar a Camellia
Sinesis, ecoava. A lenda diz que uma folha se desprendeu da
árvore, por volta do ano 2.750 a.C., indo direto para a sua caneca com água quente
transformando ele e o mundo. Já o Japão acredita que o costume de beber
chá tenha sido levado da Índia por Bodhidharma, o fundador do budismo
zen.
de a legislação no Brasil permitir que infusões levem o nome de chá,
no mundo todo chá é apenas o preparo com a planta originária da China. “O
chá é uma infusão, mas nem todas as infusões são chá”, explica Victoria
Bisogno.
mais consumidas são a Camellia Sinesis Sinesis, da China,
e a Camellia Sinesis Assamica, da Índia. E são sete as
variedades que usamos: branca, verde, amarela ou dourada, pouchong (levemente
oxidadas), oolong ou chá azul, preto ou vermelho e dark tea. A planta
é mantida em arbusto para facilitar a coleta de suas folhas.
o corpo e ajuda na concentração”, escutei. Não precisei de nenhum grande
esforço para entender. Constatei. Era o que eu estava precisando.
inspiradora
a avó francesa, foi a responsável por envolver a pequena Victoria Bisogno
ainda criança no mundo do chá. As borboletas, habitantes do
jardim da casa onde era preparada a bebida, desta vez com o ritual inglês,
foram carregando-a para um mundo de infinitas possibilidades e prazeres.
Ela nem imaginava.
engenheira e saiu a trabalhar. Morou fora. No caminho, oferecendo
uma xícara de chá para um colega, não sabia que estava em frente ao seu
futuro marido e principal incentivador. Depois do altar largou tudo. As borboletas
estavam por ali, puxaram Victoria para outro desafio impondo desta vez cálculos
destinados a determinar infusões.
deu o primeiro passo profissional, criou o Charming Blend, um pequeno
laboratório de transformação de folhas secas na mais complexa bebida.
terra ao espírito” é a filosofia do El Club del Té. O termo “cultura”
vem do latim cultus, deriva de colere, que significa “cultivar a
terra”. Mais aprendizado. Com o tempo, “... o conceito da prática de cultivar a
terra foi ampliado com uma conotação metafórica para à prática do cultivo do
espírito e das faculdades intelectuais”. Aprendi no Manual do Sommelier
de Chá.
mundo possam nos aproximar tão bem do conceito de cultura como o chá, já
que ambos nascem do cultivo da terra e culminam no cultivo do espírito”, escreveu
a especialista.
dificuldade em conseguir chás especiais e livros sobre o
assunto. Por isso, O Clube do Chá foi criado. Fomos pioneiros. Começamos
desenhando a escola há 10 anos com muito carinho”, conta Victoria, que
também desenvolveu uma metodologia de análise sensorial.
Aires, onde Victoria nasceu e mora. Hoje, tem um grupo de
especialistas formados que integram o time de profissionais em várias cidades,
na Argentina, na Espanha, no Chile e no Brasil. As
aulas, também on-line, podem ser ministradas em espanhol, inglês,
italiano ou português.
curso de Tea Blender descobri como identificar as variedades,
aprendi a fazer análise sensorial e a saber mais sobre o protocolo do
chá.
minha biografia, uma certa dificuldade com identificação de aromas,
fiquei perplexa. Parecia mais fácil do que subir em árvore.

ensaiando misturas é preciso entender o que se quer passar com a bebida que
será criada. É preciso um propósito e harmonia. “Técnica e inspiração”,
completa Victoria. E também “coração, coragem e imaginação”,
desafiou já na primeira aula. Ufa.

função de sommelier é restrito ao mundo dos vinhos. A
palavra tem a origem na Idade Média quando existiam diversos tipos, de
pão até o sommelier eclesiástico.
no caminho do chá. Preparo-me agora para o curso on-line
de “sommelier”. Sigo o instinto e escuto as orientações: pontualidade,
compromisso com a palavra, cuidado com a água. Não é apenas isso, claro.
aprendo, pode assessorar clientes na hora da escolha, promover
eventos especiais, realizar análises sensoriais e degustações,
por exemplo. Tem muito mais. São novas possibilidades de negócios, até por
isso, Curitiba foi escolhida. Temos aqui a maior quantidade de lojas e
interessados no tema.
pela enésima vez escutei sobre a necessidade de estarmos no “aqui e agora”.
A consciência plena, vivendo o presente e deixando o passado e o futuro
no lugar deles, um feito de recordações e outro de expectativas. Se
o chá ajuda é lição para a vida. Tive certeza.
agricultor”, também deve ter contribuído para o passo que dou agora, que
não imagino onde vai me levar. Um mistério, como o que ronda os efeitos
do chá e da sua origem. Compartilho aqui o que tenho aprendido, quem
sabe desperte em você o interesse. Mas olha só, é mágico, nasce como
o amor e não tem volta, Victoria Bisogno avisou.



