Rafael Lafraia, com colaboração de Cadu Lopes
Um chef pelo mundo
Tecnologia, gente e bolso: as três forças que estão redesenhando o setor

Os colunistas Rafael Lafraia e Cadu Lopes se unem para discutir a força do setor gastronômico. Crédito: Freepik
CADU - Em minhas consultorias com alguns agentes do setor, percebo que a alimentação está sendo redesenhada por três forças que atuam ao mesmo tempo: tecnologia, pessoas e pressão econômica. A transformação digital ampliou a eficiência e elevou as expectativas dos consumidores, enquanto a gestão de equipes tornou-se um desafio estratégico diante da escassez de mão de obra qualificada. Ao mesmo tempo, custos crescentes e margens mais apertadas exigem decisões cada vez mais inteligentes. O diferencial competitivo passa a ser a capacidade de equilibrar essas três dimensões em uma gestão integrada. Mas esta seria uma visão macro do setor, para sermos mais assertivos, vou precisar da companhia de quem olha o negócio sob o prisma da operação. Eu estou falando do meu mais recente amigo Rafael Lafraia.
RAFAEL - Passei boa parte dos últimos anos rodando cozinhas e feiras de gastronomia no mundo. Cada lugar desses sempre me mostra algo novo pra mim, na hora penso “já temos isso no nosso mercado? Da pra adaptar”. O Cadu enxerga o setor pelo lado da gestão e do negócio, lado que também adoro. Mas nesse artigo, eu enxergo pelo lado de quem está dentro da operação, com a mão na massa e com a conta para fechar no fim do mês. Resolvemos juntar as duas visões para falar do que está mudando de verdade nos restaurantes, sem cair no papo bonito que não se aplica na segunda de manhã.
TECNOLOGIA - Dados na linha de frente IA e automação mudando a rotina dos restaurantes
CADU - A Inteligência Artificial representa uma mudança robusta na gestão da gastronomia, isso porque, pela primeira vez, decisões tradicionalmente baseadas na experiência podem ser complementadas por análises preditivas em tempo real. Em um setor de margens estreitas, alta perecibilidade e demanda volátil, a IA permite antecipar cenários, otimizar compras, reduzir desperdícios, ajustar escalas de trabalho, precificar de forma dinâmica e compreender padrões de consumo que dificilmente seriam percebidos apenas pela observação humana. O estabelecimento que adotar essa tecnologia apenas para automatizar tarefas terá ganhos limitados; já aquele que a incorporar ao processo decisório transformará dados em vantagem competitiva, tornando a gestão mais precisa, eficiente e lucrativa sem perder o elemento mais valioso da hospitalidade: as pessoas.
RAFAEL - Começo pelo que mais me perguntam quando falo de inteligência artificial na cozinha. Uso IA no meu restaurante e nas consultorias, e nunca foi para substituir ninguém. Foi para acabar com o estoque no olhômetro e com a campanha de marketing feita no chute. Em alguns lugares já vi cozinhas onde a tecnologia mede o desperdício sozinha e o cozinheiro só decide o que fazer com aquele número. É esse o ponto que interessa. A máquina conta e organiza, o profissional decide. Quando a parte chata sai das costas da equipe, sobra tempo para treinar gente, criar prato e atender bem. E isso o cliente sente na mesa, mesmo sem saber que existe um sistema por trás.
GENTE - Multiculturalidade na prática Gerir equipes com nacionalidades e idiomas diferentes
CADU - Liderar equipes formadas por diferentes nacionalidades exige muito mais do que fluência em idiomas; exige inteligência cultural. Ao longo da minha trajetória, tive a oportunidade de conduzir equipes e negociar em diversos países, convivendo com culturas, estilos de liderança e formas de tomada de decisão bastante distintas. Essa experiência mostrou que práticas de gestão consideradas eficazes em um contexto podem fracassar completamente em outro. Em nosso país o setor gastronômico, onde estabelecimentos e operações são cada vez mais multiculturais, o verdadeiro desafio é construir uma cultura organizacional capaz de integrar essas diferenças sem eliminar identidades e aproveitando a contribuição fabulosa que esta multicultura pode oferecer. Quando há respeito às particularidades culturais, comunicação clara e liderança consistente, a diversidade deixa de ser um obstáculo e se transforma em uma poderosa vantagem competitiva.
RAFAEL - Em alguns países como na Holanda e no Canadá já trabalhei em brigada com gente de seis, sete nacionalidades ao mesmo tempo. No começo parece caos. Idioma diferente, tempo de resposta diferente, jeito de receber um comando completamente diferente. O que aprendi é que time nenhum se leva no grito, e num ambiente multicultural com costumes e referencias diferentes, um processo claro deixa tudo mais fácil. Ficha técnica escrita, foto do prato montado, rotina padronizada na parede. Quem não entende a sua palavra entende a imagem e a sequência. E tem o outro lado, que para mim é o mais legal. Cada um traz o tempero da sua própria casa, em conversas sobre ingredientes e comidas originarias das cidades e países de cada colega, sempre guardo referências e compartilho as minhas, um dia elas virarão ideias e inspiração na cozinha. No Brasil as cozinhas estão começando a viver isso nos últimos anos, ser aberto e se preparar é preciso, a diversidade pode ser uma poderosa vantagem como disse o Cadu.
BOLSO - Comportamento do consumidor e momento econômico. O cliente mudou e o bolso apertou
CADU - O cliente continua disposto a gastar, mas tornou-se muito mais criterioso sobre onde, como e por que investe seu dinheiro. O cenário de pressão econômica que o mundo vive hoje, inflação persistente, redução do poder de compra e custo de vida em uma escalada só vista em tempos de inflação descontrolada vividas nos meados dos anos 80, cada visita ao restaurante passa por uma avaliação consciente da relação entre preço, qualidade, experiência e necessidade. Isso significa que competir apenas por preço é uma estratégia frágil. Os negócios que hoje prosperam em nossa região são aqueles capazes de entregar valor percebido, construir vínculos com seus clientes (A famosa fidelização) e transformar uma simples refeição em uma experiência que justifique a escolha. O bolso apertou, mas a expectativa por excelência nunca foi tão alta.
RAFAEL - O cliente mudou e dá para sentir no salão. Ele sai de casa já sabendo quanto pretende gastar e quer que aquela conta valha a pena. Vejo isso na Europa e vejo em Curitiba exatamente do mesmo jeito. O cardápio gigante virou inimigo, porque confunde o cliente, trava a cozinha e come a margem sem ninguém perceber. Cardápio enxuto, com pratos que a casa faz muito bem, vende mais e sobra mais no caixa. Mas tem um detalhe que os números não mostram. O cliente quer sentir que tem gente do outro lado. Ele aceita pagar por comida honesta e por um atendimento que lembra o nome dele. Preço baixo sem história nenhuma não segura por muito tempo.
ANÁLISE - Fim
CADU - Particularmente penso o seguinte! Se existe uma certeza para os próximos anos e me permitindo um trocadilho, é de que o sucesso na gastronomia dependerá cada vez menos de receitas e fórmulas prontas e cada vez mais da capacidade de adaptação. A tecnologia continuará evoluindo, o comportamento do consumidor seguirá em transformação e as pressões econômicas não darão trégua. Nesse cenário, sobreviverão aqueles que conseguirem integrar inovação, gestão de pessoas e inteligência de negócio em uma estratégia consistente. A essência da gastronomia continuará sendo servir e encantar pessoas, a excelência estará na forma como cada empresário utilizará tecnologia para apoiar decisões, desenvolver equipes capazes de entregar experiências memoráveis e criar valor em um mercado onde a escolha do cliente é cada vez mais racional e menos por impulso O futuro do setor pertence àqueles que ousam imaginá-lo e construí-lo.
RAFAEL - Do meu lado, um agradecimento ao Cadu por participar dessa troca de ideias e visões, e um recado que é simples. Nenhuma dessas mudanças exige um investimento gigante para começar. Exige organização. Escrever a ficha técnica, olhar os números do delivery, enxugar o cardápio, treinar a equipe com processo claro no lugar do improviso. São coisas que cabem no bolso de qualquer restaurante de bairro. O mundo lá fora não está anos luz na frente, está alguns passos, e esses passos a gente consegue dar. Quem começa agora chega no ano que vem com a casa organizada. Quem espera, chega correndo atrás.

