
Anacreon de Téos
Luiz Augusto Xavier é o nome por trás do pseudônimo Anacreon de Téos. É jornalista especializado em gastronomia e cozinheiro na incansável busca de novos sabores e novas texturas.
Panela do Anacreon
Um peixe inteiro, assado no grill e servido na tábua. Nacional Bar e Mar traz prato de volta a Curitiba

O peixe (olhete) assado na parrilla e servido na tábua, com seus acompanhamentos. | Foto: Anacreon de Téos
Dias atrás fiz uma viagem gastronômica pelo tempo. Fui parar na “Rua da Praia”, aqui em Curitiba. Sim, já tivemos isso, até fins do século passado. Era como, carinhosamente, chamavam a Rua Mateus Leme, apinhada de restaurantes especializados em peixes e frutos do mar.
O Albatroz era o mais famoso (e chegou até a abrir uma filial na Campína do Siqueira), mas tinha também o Casca Velha, o Rei do Camarão e o Sereia, todos já extintos. E ainda o Bar do Victor, que até começou a funcionar na Mateus Leme, para depois passar para uma rua perpendicular, a uma quadra dali – onde está estabelecido até os dias de hoje, sempre com bom público.
Lembrei-me do Peixe na telha do Sereia. Era delicioso, recheado e assado na própria telha, por muitas vezes foi o prato da família nos fins de semana. Peixe inteiro, o que não se vê mais por aí.
Não se via, corrigindo. Pois essa minha incursão no passado se deve exatamente ao fato de agora, novamente, ser possível encontrar peixe inteiro num restaurante curitibano. O Nacional Bar & Mar, inaugurado há pouco mais de três meses, no Batel, inclui o peixe inteiro no cardápio, com toda pompa e circunstância. E o resultado é o interesse dos clientes, que, ultimamente, só vinham encontrando o peixe servido desta maneira nos restaurantes e quiosques de praia.

Quando soube, fui lá provar (já tinha ido na inauguração, mas naquele dia não foi possível ter o prato à disposição). Como o chef e sócio da casa, João Gabriel Nunes, é um especialista em parrilla e já havia demonstrado isso no seu outro restaurante, o Bar Nacional, este voltado basicamente para as carnes, incluir um peixe inteiro ali foi simplesmente um ato automático.
Embora o processo não seja tão óbvio nem simples assim. Do mar para a câmara de maturação e, depois, direto para a parrilla, é o percurso dos peixes inteiros, assados na brasa. E os peixes variam, conforme o dia e a pesca. As opções costumam incluir robalo, carapau, olhete, anchova, namorado, olho-de-cão e tainha, preparados na tradicional churrasqueira depois de passarem pelo dry fish — processo de maturação a seco, que vem conquistando chefs ao redor do mundo.
Assim que chegam à casa, os peixes passam por esse processo de dry fish, na câmara de maturação. Com uma porta de vidro, o equipamento lembra uma adega. Em seu interior, os pescados são pendurados em ganchos, sem encostar uns nos outros nem nas prateleiras.
A câmara permite controlar a temperatura, a ventilação e a umidade durante todo o processo. Também conta com sistemas que filtram continuamente o ar interno, eliminando microrganismos e odores. O resultado realça o sabor do peixe e também deixa a pele mais crocante e a carne mais macia, além de ajudar a preservar e destacar a qualidade de cada produto.
Depois de passarem pela parrilla, os pescados chegam à mesa acompanhados de preparos desenvolvidos pelo chef, a partir de sua experiência como cozinheiro da família durante as temporadas que passa na praia. Entre os acompanhamentos, o pirão merece atenção especial. A receita leva dois dias para ficar pronta. Primeiro, é preparado um caldo com a cabeça e outras partes do peixe, deixando-o cozinhar por um dia inteiro. Em seguida, deixa o preparo descansar e maturar na geladeira. Na composição do prato, legumes e temperos, como cebola, salsão, cenoura, alho-poró, salsinha, coentro, cachaça, azeite de dendê e leite de coco.
Servido numa tábua de corte, o peixe ainda é escoltado por arroz de castanhas, vinagrete e farofa. Os preços variam de R$ 179 a R$ 289, conforme o pescado disponível.
A brasa é a estrela

Claro que esse peixe não é o destaque solitário da casa. O menu é extenso e tem até algumas opções de carne (para aqueles que não apreciam pescados e querem participar do jantar). E oferece tanto sugestões de petiscos, para um drinque e alguns momentos de happy hour, quanto pratos completos, sem nada dever a qualquer restaurante especializado.
Entre os petiscos, Crudo de peixe do dia (R$ 68), Tempurá de peixe do dia (R$ 62), um irresistível Bolinho de siri (R$ 52, quatro unidades) e os tradicionais Moules-Frites (R$ 72), com o detalhe de os mexilhões serem feitos na brasa, levando ao prato aquele toque defumado tão interessante. Alguns clássicos do irmão Bar Nacional também são encontrados, como a Barriga de porco braseada na cachaça (R$ 52), bem como opções de pasteis.


Numa sessão exclusiva de brasa, a minha escolha favorita está na Lula Nacional (lulas na brasa, com cebolas crispy – 92), embora o Espeto de camarão rosa com queijo coalho (R$ 122) não deva ser desconsiderado.
Entre os pratos individuais é possível escolher alternativas com vôngoles, salmão, polvo, marisco e até bacalhau. Para compartilhar, dois tipos de moqueca e bobó de camarão. O menu completo pode ser acessado na bio do Instagram do restaurante (clique aqui).
Nacional Bar & Mar
Rua Comendador Araújo, 731 – Batel
Horários: terça a quinta-feira, das 18h às 23h55; sexta-feira, das 17h às 23h55; sábado, do meio-dia às 23h55; domingo, do meio-dia às 17h.
Instagram: @nacionalbaremar
Para não deixar passar nada, conversei com o Chico Urban, do Bar do Victor. Único remanescente do que foi a Rua da Praia, ele corroborou as lembranças que eu tinha, incluindo ainda o Casca Velha, que ia me esquecendo.
Daí perguntei se ele não teria novamente peixes inteiros para servir. E ele, coincidentemente, me disse estarem iniciando testes para poderem incluir a opção no menu dos restaurantes Victor.
Por enquanto ainda não tem, mas já dá para ficar na expectativa do que pode vir pela frente, sempre com a qualidade Bar do Victor.
Instagram: @bardovictor
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