
Ledinara Batista
Vamos viajar pelo mundo da confeitaria? Sou a Ledinara, jornalista, apaixonada por doces. Crio conteúdo desde 2008 em blogs. Em 2014, criei um passeio gastronômico, o Tour Curitidoce, para mostrar o lado doce de Curitiba. Aqui, o doce é sempre protagonista.
O Mundo Doce
Três doces imperdíveis em Amsterdam (e as lições que eles deixam para quem ama gastronomia)

O roteiro mais doce de Amsterdam: 3 paradas obrigatórias. Crédito: Divulgação.
Se você está planejando uma viagem para Amsterdam e gosta de descobrir os sabores mais tradicionais de cada destino, anote estas três paradas. Durante minhas férias na capital holandesa, entre museus, canais e passeios de bicicleta, reservei um tempo para explorar alguns dos doces mais famosos da cidade. Voltei convencida de que eles merecem entrar em qualquer roteiro gastronômico.
Mais do que experiências deliciosas, esses endereços mostram como um único produto pode construir uma marca forte, atrair filas diariamente e transformar um negócio em referência mundial. São histórias que encantam turistas, mas também trazem ótimos aprendizados para quem trabalha com gastronomia.
Hans Egstorf: onde provar um stroopwafel feito na hora
Nenhum doce representa Amsterdam tão bem quanto o stroopwafel. E, para mim, o melhor lugar para experimentá-lo foi a Hans Egstorf, considerada a padaria mais antiga em funcionamento contínuo da cidade.
Fundada em 1898, a casa preserva a tradição da receita original da família há mais de 125 anos. Ao longo das décadas, aperfeiçoou a textura do caramelo, a técnica de prensagem e o processo de produção, sem abrir mão da essência que tornou o stroopwafel um dos maiores símbolos da confeitaria holandesa.
A loja é pequena e charmosa, repleta de latinhas decoradas e embalagens que acabam virando lembranças para os turistas. Mas a verdadeira atração fica ao lado da vitrine.
Ali, é possível acompanhar todo o preparo. Pequenas bolinhas de massa entram em uma prensa automática que forma e assa os finos discos. Logo depois, uma funcionária abre cada unidade ainda quente, espalha cuidadosamente o recheio de caramelo entre as duas camadas e entrega o doce praticamente saído do forno.
A diferença para um stroopwafel industrializado é enorme. Quentinho, ele ganha uma textura levemente crocante por fora, extremamente macia por dentro e um aroma amanteigado irresistível.
A lição que fica: tradição também pode ser um diferencial competitivo. Em vez de reinventar seu principal produto a cada temporada, a Hans Egstorf passou mais de um século aperfeiçoando uma única receita. Hoje, ela continua atraindo visitantes do mundo inteiro justamente por fazer um clássico excepcionalmente bem.
Winkel 43: a torta de maçã mais famosa de Amsterdam
Se existe uma sobremesa que aparece em praticamente todos os roteiros gastronômicos de Amsterdam, é a torta de maçã da Winkel 43.
Localizada no charmoso bairro de Jordaan, a casa funciona como café, restaurante e ponto de encontro de moradores e turistas. O cardápio é bastante variado, mas um único item conquistou fama internacional.
Para provar a famosa torta, enfrentei cerca de vinte minutos de fila. Depois da primeira garfada, entendi exatamente o motivo.
Ela é bem diferente das versões que encontramos no Brasil. Em vez de fatias finas, leva grandes pedaços de maçã, cozidos lentamente até ficarem extremamente macios. O recheio é úmido, generoso e delicadamente perfumado com canela e outras especiarias.
A torta chega à mesa ainda morna, acompanhada por uma porção generosa de chantilly fresco. Confesso que, quando vi aquele montante de chantilly, achei que seria exagerado. Mas ele é tão leve que acaba equilibrando perfeitamente a doçura e a textura da sobremesa.
Não há apresentações mirabolantes nem técnicas modernas. Apenas uma receita extremamente bem executada.
A lição que fica: nem sempre é preciso que todo o cardápio seja extraordinário. Às vezes, basta existir um produto tão memorável que faça as pessoas atravessarem a cidade só para experimentá-lo.
Van Stapele: o cookie que virou atração turística
Minha terceira parada foi também a que exigiu mais paciência.
A fila em frente à Van Stapele Koekmakerij já avisa que ali acontece algo especial.
Inaugurada em 2013, a pequena loja localizada na Rokin ganhou fama mundial a partir de 2023, quando vídeos mostrando seu famoso cookie começaram a viralizar nas redes sociais. Hoje, muita gente inclui o endereço no roteiro antes mesmo de conhecer alguns pontos turísticos da cidade.
O mais curioso é que a Van Stapele vende apenas um único produto. Sim, apenas um cookie.
A receita combina uma massa intensa de chocolate amargo, levemente crocante nas bordas, recheada com um creme de chocolate branco extremamente cremoso. O formato lembra um pequeno ravioli, já que apenas a região central cresce durante o forno, escondendo o recheio. Pequenos pedaços de chocolate espalhados pela massa deixam cada mordida ainda mais interessante.
Esperei cerca de meia hora na fila e comprei uma caixa com seis unidades. Depois da primeira mordida veio um único pensamento: eu deveria ter comprado o máximo permitido por pessoa, que são dez cookies.
A produção acontece durante todo o dia e novas fornadas saem constantemente do forno.
A lição que fica: especialização também vende. Enquanto muitos negócios acreditam que crescer significa aumentar o cardápio, a Van Stapele construiu uma marca internacional fazendo exatamente o contrário: decidiu produzir um único cookie e fazê-lo de maneira impecável.
Um roteiro doce e uma reflexão
Depois de conhecer esses três endereços, percebi que eles representam modelos de negócio completamente diferentes.
A Hans Egstorf construiu sua reputação preservando uma tradição centenária.
A Winkel 43 oferece dezenas de opções, mas ficou mundialmente conhecida por uma única sobremesa.
Já a Van Stapele criou toda a sua identidade em torno de um único produto.
São estratégias diferentes, mas todas têm um ponto em comum: encontraram um doce capaz de representar a marca e criar uma experiência memorável.
Para quem está planejando uma viagem, fica a recomendação: reserve um espaço no roteiro para conhecer esses três endereços.
E, para quem trabalha com gastronomia, talvez fique uma pergunta ainda mais interessante: qual é o doce que faria alguém atravessar a cidade, ou até viajar para outro país, apenas para experimentar o que você faz?

