
Ledinara Batista
Vamos viajar pelo mundo da confeitaria? Sou a Ledinara, jornalista, apaixonada por doces. Crio conteúdo desde 2008 em blogs. Em 2014, criei um passeio gastronômico, o Tour Curitidoce, para mostrar o lado doce de Curitiba. Aqui, o doce é sempre protagonista.
O Mundo Doce
O brunch mudou — e talvez você esteja procurando do jeito errado

Brunch da Maison Lalisse. Créditos: Ledinara Batista
Há alguns anos, quando alguém falava em brunch, a cena parecia quase sempre a mesma: mesas fartas, ovos mexidos, pães, frutas, doces, cafés, espumantes e uma certa atmosfera de domingo sem pressa. Um ritual entre o café da manhã e o almoço que não era nem uma coisa, nem outra.
Talvez você tenha conhecido esse imaginário pelos filmes e séries. Em produções americanas, o brunch sempre apareceu como um programa social: amigos reunidos perto do meio-dia, pratos compartilhados, conversas longas e taças tilintando sob a luz da manhã tardia. Em Sex and the City, por exemplo, ele quase virou personagem. Não era apenas uma refeição, mas um encontro.
Por isso, talvez, ainda exista quem se frustre ao procurar um brunch em Curitiba esperando encontrar exatamente aquela imagem clássica de fartura e buffet. Mas aqui vai uma notícia importante: o brunch não acabou.
Ele mudou.
E talvez o erro esteja justamente em procurar um único formato para algo que já se transformou em muitos.
Mais do que uma refeição, o brunch virou um comportamento. Reflete rotinas mais flexíveis, encontros menos engessados, horários fluidos e um desejo crescente de transformar uma simples ida ao café em experiência. Talvez por isso tenha crescido tanto nos últimos anos, não apenas em Curitiba, mas também em cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, onde cafeterias e padarias autorais passaram a reinterpretar o conceito.
Se antes ele era quase sinônimo de buffet, hoje o brunch se molda ao perfil do lugar, da operação e, principalmente, ao jeito como as pessoas gostam de comer.
Em Curitiba, alguns cafés ajudaram a consolidar esse movimento há bastante tempo, apostando em combos fixos sugeridos no cardápio, disponíveis durante boa parte do dia.
Pioneiros nesse formato, o Lucca Cafés Especiais e o Rause Café + Vinho mostraram que o brunch podia existir para além dos hotéis, de forma mais acessível, urbana e possível até numa terça-feira comum. Atualmente, lugares como COR Café também abraçaram a ideia e oferecem combos ao longo do dia. E também, num formato com dias predeterminados (apenas sábados e domingos), lugares como a Hagi, que traz combos juntamente com opções à la carte, para atender a todos os perfis. São experiências em que o cliente escolhe um conjunto de itens já pensados pela casa e pode encaixar o ritual em diferentes momentos do dia. Um café reforçado às 10h, um almoço leve às 14h ou até uma pausa prolongada no meio da tarde.

Há também casas que levam o brunch para um caminho mais autoral, quase como uma extensão do repertório criativo do chef. Na Bonin Bakery, por exemplo, o brunch acontece somente aos sábados, das 10h às 14h, com um único menu sazonal, pensado pela chef Mauren Bonin. O combo muda periodicamente e funciona quase como um diário de referências gastronômicas. O atual, por exemplo, nasceu de uma viagem da chef à Austrália, trazendo sabores e combinações inspiradas na experiência.

Já outros lugares perceberam que os clientes queriam algo diferente: menos limitação de horário e mais liberdade para montar sua própria experiência. Foi assim que muitos endereços migraram para um modelo à la carte, no qual o cliente cria seu próprio brunch, escolhendo pratos doces e salgados, bebidas e complementos conforme a fome, o tempo e o humor do dia.
É o caso da Chez Margot e da Maison Lalisse, onde o brunch se mistura à proposta estética e sensorial dos ambientes. Na Chez Margot, há quase uma atmosfera de brunch à la Bridgerton, delicada e romântica. Já a Maison Lalisse remete às antigas confeitarias europeias, com clima contemplativo e uma experiência que convida à permanência, incluindo torres de doces e salgados pensadas para compartilhar.

Há ainda formatos híbridos, que equilibram estrutura operacional e liberdade de escolha. Na Sotile Pasticceria, por exemplo, existe uma seleção especial de itens servidos em horários específicos, mas que podem ser combinados ao restante do cardápio da casa.
E aquele brunch clássico, abundante, servido em buffet?
Ele continua existindo, mas hoje aparece muito mais associado à hotelaria e a ocasiões especiais.

Quem viveu a cena gastronômica curitibana de alguns anos atrás talvez se lembre da Marbô Bakery, que ajudou a popularizar o brunch na cidade ao montar mesas fartas e visualmente encantadoras em uma charmosa casa no alto da Rua Dr. Faivre. Era um brunch de permanência: daqueles que transformavam a refeição num programa inteiro.
Hoje, a marca continua trabalhando com encomendas, mas mantém planos de retomar a experiência à moda antiga, um lembrete curioso de que certos formatos nunca desaparecem de verdade. Às vezes, apenas esperam o momento certo para voltar.
Talvez a maior mudança do brunch esteja justamente aí: ele deixou de ser um formato fixo para virar uma linguagem.
Mais do que perguntar se um lugar “tem brunch”, talvez a pergunta certa seja: que tipo de brunch você quer viver hoje?
Porque, no fim, alinhar expectativas talvez seja o segredo para sair da mesa encantado e não frustrado por ter encontrado algo diferente do que imaginava.

