Cadu Lopes

Cadu Lopes

Cadu Lopes é empreendedor e especialista em negócios, com a gastronomia como uma de suas principais paixões. Cervejeiro de formação, vive na prática os desafios do setor de alimentos e bebidas. Na coluna Negócio no Prato, compartilha reflexões e aprendizados sobre gestão, estratégia e o que sustenta um negócio gastronômico.

Negócio no Prato

Um chef precisa ser artista ou gestor?

13/05/2026 10:59
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A gastronomia vai muito além da criatividade no prato: exige liderança, estratégia e gestão para transformar talento culinário em um negócio sustentáve. Crédito: Freepik

Existe uma imagem fictícia projetada na gastronomia que romantiza a cena e coloca o chef de cozinha como um artista inspirado, criando pratos autorais enquanto a cozinha funciona quase como um palco. Essa visão existe e tem seu valor, mas ela representa apenas uma pequena parte do setor. Na prática, especialmente no Brasil, a pergunta que muitos profissionais precisam responder diariamente é outra: o chef precisa ser artista ou gestor?
A resposta mais honesta talvez seja: depende do tamanho da estrutura. Mas, em qualquer cenário, ele precisa entender que um prato não é só uma obra criativa para captação de aplausos ou para render fotos nas redes sociais. O prato é um produto e o produto precisa gerar resultado.
Nos pequenos restaurantes, bares, bistrôs e operações familiares, a realidade costuma ser brutalmente diferente. O chef é também o comprador, o gestor financeiro, o responsável pelo estoque, o líder da equipe, o resolvedor de problemas e, muitas vezes, até quem fecha o caixa no final da noite. Existe pouco espaço para glamour quando falta funcionário, e a exemplificação mais simplória é: Ou o CMV sobe ou o aluguel vence.
É claro que a criatividade continua sendo importante, mas ela precisa caminhar junto com a gestão. Não adianta criar um prato incrível se ele demora demais para ser executado, gera desperdício ou possui uma margem ruim. O cliente pode até elogiar e pagar por ele, mas o caixa da empresa talvez não sobreviva.
E é justamente aí que muitos negócios quebram: quando a cozinha pensa como arte e esquece que restaurante é operação. Um cardápio precisa ser bonito, mas também inteligente. Precisa considerar custos, produtividade, padronização, velocidade e rentabilidade. Um chef que entende números deixa de ser só o comandante e passa a atuar como empresário da própria cozinha.
Já nos restaurantes mais estruturados, o cenário muda completamente. Com equipes maiores, setores definidos e uma gestão administrativa consolidada, o chef consegue dedicar mais energia ao desenvolvimento criativo, pesquisas históricas e culturais, identidade gastronômica e experiência do cliente. Surge espaço para inovação, construção de marca e assinatura autoral.
Mas mesmo nesses casos, o pensamento estratégico continua indispensável. Os grandes chefs do mundo não são reconhecidos somente pelo talento culinário. Eles entendem posicionamento, gestão de pessoas, experiência de consumo e sustentabilidade financeira do negócio. Afinal, criatividade sem viabilidade econômica vira um hobby caro.
Existe também um ponto que muitas vezes é ignorado, a liderança. A cozinha não funciona só com técnica, funciona também com equipe. E liderar uma brigada exige muito mais do que saber cozinhar bem. Exige comunicação, controle emocional, organização, treinamento e capacidade de manter padrão sob pressão.
O chef profissional precisa compreender que seu papel é completo. Ele não é só o criador por trás do prato. Ele é o responsável por transformar conhecimento gastronômico em resultado operacional. E isso vale tanto para um pequeno restaurante de bairro quanto para uma casa sofisticada de alta gastronomia.
No final das contas, talvez a discussão correta não seja “artista ou gestor”. O verdadeiro desafio está em equilibrar os dois lados. Porque a gastronomia vive da emoção e também sobrevive da gestão. E o prato mais bonito e saboroso da casa continua precisando entregar aquilo que mantém qualquer estabelecimento vivo: lucro!