
Guilhermo Spindola
Guilhermo Spindola é chef de cozinha e beer sommelier, pesquisador de conexões entre gastronomia e cerveja. Compartilha dicas de harmonização e explora o uso da bebida na cozinha. Também atua na curadoria e no planejamento de eventos estratégicos do FoodCo. Experience.
Na mesa do cervejeiro
Quando o frio chega, a cerveja muda de sabor

Cerveja no inverno tem sabor diferente. Créditos: Daniel Reche
Curitiba muda completamente quando as temperaturas começam a cair. Os pratos ficam mais intensos, o pinhão volta a aparecer nas mesas e o paladar naturalmente começa a buscar sabores mais encorpados e reconfortantes. E, no meio dessa mudança de hábitos, muita gente esquece que a cerveja também muda no inverno.
Não porque a receita muda — mas porque o nosso paladar muda junto.
No verão, é natural procurarmos cervejas leves, cítricas e refrescantes. Já no frio, o corpo pede bebidas mais intensas, encorpadas e aromáticas. É exatamente nessa época do ano que estilos mais maltados e alcoólicos começam a fazer sentido de verdade.
E talvez esse seja um dos momentos mais interessantes para explorar o universo da cerveja artesanal.
Uma Stout, por exemplo, com notas de café, chocolate e torra, funciona muito bem com sobremesas de chocolate e brownies. Já uma Porter acompanha perfeitamente dias frios e pratos mais tostados e defumados.
Mas é quando a cerveja encontra a gastronomia local que a experiência fica ainda melhor.
A tradicional carne de onça, um dos maiores símbolos da gastronomia curitibana, ganha uma combinação interessante com uma Amber Ale ou uma Brown Ale. O malte conversa bem com o tempero, com a cebola e com a intensidade da carne crua, criando uma harmonização equilibrada e cheia de personalidade.
O pinhão também entra nesse jogo. Cozido, assado ou até servido em receitas mais elaboradas, ele combina muito bem com cervejas do estilo Bock, que trazem notas de pão, castanhas e leve dulçor maltado. É uma combinação extremamente sazonal — e muito paranaense.
Fondue, barreado, carnes assadas, hambúrgueres mais intensos e pratos com queijo também encontram no inverno cervejas perfeitas para acompanhar. E talvez esse seja o maior erro de quem ainda olha para a cerveja apenas como uma bebida refrescante: ela pode ser tão gastronômica quanto um vinho.
Aliás, no frio, isso fica ainda mais evidente.
Cervejas mais alcoólicas ajudam a trazer sensação de aquecimento, enquanto os maltes tostados remetem a sabores que naturalmente associamos ao inverno, como caramelo, café, castanhas, chocolate e pão recém-assado.
É quase uma cerveja de conforto.
E não existe momento melhor do ano para descobrir isso do que agora.
Porque quando Curitiba esfria, a cerveja deixa de ser apenas refrescante — e passa a ser experiência.

