Cissa Mariah

Cissa Mariah

Cissa Mariah é bartender, mixologista e educadora com mais de 17 anos de experiência na coquetelaria e mais de duas décadas dedicadas ao ensino. À frente da CM Bartender School, forma profissionais e compartilha conhecimento sobre técnicas, cultura de bar e o universo dos destilados, com destaque para a cachaça brasileira.

Drink ou Cocktail?

KOKORO BRASIL: quando Brasil e Japão se encontram dentro de um copo

15/10/2026 13:39
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Kokoro Brasil: o encontro do Brasil e do Japão em um copo. Crédito: Guilhermy Valero

Existem experiências gastronômicas em que a bebida deixa de ocupar um lugar secundário à mesa. Ela passa a fazer parte da narrativa, conversa com os pratos e revela tanto sobre a identidade de um restaurante quanto a própria cozinha.
Foi essa percepção que tive ao conhecer a nova carta de cocktails do Jun Sakamoto Casual, em Curitiba.
Batizada de KOKORO BRASIL, palavra japonesa que pode ser traduzida como coração, a carta propõe um encontro entre duas culturas a partir de ingredientes, técnicas e referências brasileiras e japonesas. Desenvolvida pelo mixologista Rick Sousa, a proposta vai além de incorporar ingredientes orientais a receitas conhecidas. Existe um esforço de construir uma identidade própria, em que as referências dos dois países convivem sem que uma precise se sobrepor à outra.
Erva-mate, jabuticaba, tangerina, limão-cravo e mel de bracatinga dividem espaço com yuzu, shiso, sakura, hojicha, kombu e shiitake. Ingredientes que carregam histórias e características muito distintas passam a integrar uma mesma linguagem sensorial.
A carta está organizada em três categorias: KI, dedicada a cocktails frescos e vibrantes; HANA, com propostas florais e elegantes; e UMAMI, que explora profundidade e referências gastronômicas.
Mas foi ao começar a degustação que percebi uma das características mais marcantes desse trabalho: o cuidado com a construção dos sabores aparece tanto nas criações alcoólicas quanto nas opções sem álcool.
Meu primeiro pedido foi o Yuzu Cloud, preparado com cordial de yuzu, maracujá, baunilha, suco de limão e albumina. A textura cremosa e aveludada acompanha o perfil cítrico, enquanto o sabor permanece no paladar mesmo depois do gole.
A ausência de álcool não diminui a experiência. Pelo contrário, o cocktail demonstra como textura, acidez, aroma e persistência podem construir profundidade quando os ingredientes são trabalhados com intenção.
Esse é um ponto que considero importante na coquetelaria contemporânea. Criar boas bebidas sem álcool exige muito mais do que retirar o destilado de uma receita. É preciso compreender como os sabores se relacionam, de que maneira a acidez sustenta a composição, como a textura interfere na percepção e quais elementos podem oferecer complexidade e permanência ao conjunto.
O Yuzu Cloud me chamou a atenção justamente por entregar essa experiência sem depender do álcool para se sustentar.
Na sequência, pedi o Shiso Brasil, uma criação que surpreendeu a todos à mesa. A receita combina cachaça de jenipapo Famigerada, cordial de limão-cravo, cordial de shiso e limão-taiti. O resultado é herbal, fresco e profundamente brasileiro em sua identidade, mesmo com a presença de um ingrediente tão associado à cozinha japonesa.
A composição me fez pensar na caipirinha, uma das expressões mais conhecidas da nossa coquetelaria, mas sem simplesmente reproduzir sua estrutura. Aqui, a cachaça e os cítricos encontram novas camadas aromáticas, e o shiso acrescenta uma dimensão que transforma a familiaridade dos ingredientes em outra experiência.
É uma releitura que surpreende sem perder o vínculo com aquilo que a inspira.
Aliás, a própria carta merece atenção. Além das descrições dos ingredientes e das características sensoriais, ela apresenta ilustrações dos cocktails, facilitando a escolha de quem deseja explorar novos sabores. Há também sugestões de harmonização, reforçando a proposta de integrar a coquetelaria à experiência gastronômica.
Esse diálogo aparece tanto nas criações autorais quanto no uso de ingredientes associados à cozinha, como kombu e shiitake, que ampliam as possibilidades de conexão entre o copo e o prato.
Durante a visita, o diretor de operações do grupo, Lucas Oliveira, permaneceu à mesa conosco e fez questão de compartilhar os processos e as ideias por trás das preparações. Essa disposição para explicar o trabalho revela algo que valorizo na gastronomia: a experiência ganha outra dimensão quando compreendemos as escolhas que existem por trás dela.
O Jun Sakamoto Casual recebeu o Prêmio Bom Gourmet 2025 na categoria Novidades. Na minha percepção, porém, a casa já conquistou seu espaço na cena gastronômica curitibana. A nova carta de cocktails reforça essa presença ao mostrar que o cuidado com a experiência não termina na cozinha.
Depois da degustação, conversei por telefone com Rick Sousa, que fez questão de saber como havia sido minha experiência. Reforcei o quanto as criações sem álcool haviam me surpreendido, especialmente pela complexidade e pelo equilíbrio.
Na conversa, ele contou que conheceu um produtor europeu de destilados sem álcool e que esse contato contribuiu para ampliar seu repertório e seu conhecimento sobre essas possibilidades.
A informação ajuda a compreender o trabalho que existe por trás das receitas. O resultado que chega à mesa não nasce apenas da criatividade, mas também da pesquisa, da troca de conhecimento e da disposição para explorar novas técnicas e combinações.
E talvez seja justamente esse o aspecto que mais me agrada na KOKORO BRASIL. A proposta não se limita a apresentar cocktails com referências brasileiras e japonesas. Ela mostra como a coquetelaria pode construir pontes entre culturas, ingredientes e experiências, sem perder de vista aquilo que torna cada criação singular.
No fim, um bom cocktail não precisa disputar espaço com a gastronomia. Pode ampliar a experiência, despertar novas percepções e fazer com que a gente enxergue os ingredientes de outra maneira.
No Jun Sakamoto Casual, vale reservar um momento da visita para olhar a carta com calma, conversar com a equipe e experimentar combinações que talvez não estivessem entre as suas escolhas habituais.
Porque algumas das melhores descobertas à mesa começam justamente quando decidimos provar algo novo.
Aos encontros entre culturas que nos fazem descobrir novos sabores, e aos profissionais que transformam pesquisa e criatividade em experiências que permanecem na memória.
Cheers!