Sarah Guilhermo

Sarah Guilhermo

Sarah Guilhermo é jornalista, produtora de conteúdo e, inevitavelmente, Gen Z. Disseca o comportamento da própria geração à mesa, no bar, no café e na madrugada de qualquer dia da semana. Na coluna COOL KIDS, ela coloca em palavras o que essa geração já sabe… mas nunca viu escrito. @sarahguilhermo

Cool Kids

Amar custa caro e a Gen Z sabe exatamente quanto

11/06/2026 13:20
Thumbnail
Perto do Dia dos Namorados, meu celular e Instagram enchem de mensagens de várias pessoas diferentes, e é por isso que eu amo essa data. E não, não tô falando que essa gente está me cortejando. É nessa época que amigos, colegas e conhecidos meus aparecem na minha caixa de entrada com uma pergunta em comum: "onde levo a minha namorada para jantar?". Queridos demais, que orgulho.
Nos últimos três anos, antes de virar colunista da Cool Kids, fui do time do Festival Bom Gourmet e ia gravar nos restaurantes que participavam do festival. Já perdi a conta de quantos estabelecimentos visitei. Eu sei que são mais de 300, em Curitiba e fora, de todos os tipos, para todas as ocasiões. Então a abordagem sazonal desse pessoal comigo faz sentido.
Antes de indicar qualquer lugar, faço as mesmas três perguntas: que tipo de lugar a pessoa quer, o que agradaria a namorada e, principalmente, quanto estão dispostos a gastar. Essa última é a mais importante, e também a que as pessoas mais hesitam em responder. Acho isso uma graça, sabe. Tem algo genuíno e bonito em alguém que chega até mim preocupado em escolher o lugar certo, porque isso significa que o esquema do romance já começou bem antes do jantar.
Essa semana, indiquei para um amigo um restaurante que fui no ano passado, no próprio Dia dos Namorados, com o meu parceiro. Amei a experiência. Não sabia o que estavam servindo esse ano e, na correria, cometi exatamente o erro que deveria ter evitado: indiquei sem checar. Esse meu amigo acabou escolhendo o primeiro da lista mesmo. Pouco depois, recebi uma mensagem dele: "me senti enganado". Cobraram R$150 de reserva de mesa, sem menu especial. Ele ficou revoltado. Amar custa caro mesmo. 
E esse é um exemplo perfeito de como a Geração Z se comporta com o financeiro nessas épocas sazonais. Existe uma pressão real, e na maioria das vezes genuína, de performar bem o romance de forma tradicional, o jantar especial, o lugar bonito, a experiência que justifica a data. Salvo quem não faz questão nenhuma disso, mas a grande maioria faz. O problema é que a realidade financeira dessa geração raramente combina com o preço que esse ritual cobra.
Segundo o estudo Gen Z – Os novos autores da cultura, realizado pela MindMiners com quatro mil brasileiros das classes A, B e C entre 18 e 28 anos, 76% da Geração Z acompanha os próprios gastos regularmente, com forte uso de aplicativos de bancos digitais. A mesma pesquisa mostra que 52% dos entrevistados têm a estabilidade financeira como principal prioridade para os próximos dez anos — à frente de carreira e casa própria — e que mais da metade convive com níveis elevados de ansiedade. É uma geração que recalibra expectativas não para abrir mão de projetos, mas para avançar com mais planejamento: a meta não é necessariamente ficar rica, é conseguir respirar sem ansiedade financeira constante.
Tenho uma colega que, sendo universitária e morando sozinha, senta todo mês para alimentar uma planilha de gastos. Categoriza tudo, entende onde o dinheiro vai, ajusta o mês seguinte. Eu achei uma baita prática responsável, hoje em dia faço o mesmo e ainda transformo em uma ocasião para nos encontrarmos: marcamos reuniões mensais num café, cada uma com a sua planilha e suas próprias contas, para entender onde estamos gastando mais e por quê. 
É exatamente esse perfil que chega num restaurante disposto a gastar +R$350 num jantar especial, sabendo muito bem do que está abrindo mão pra isso acontecer.
Acervo pessoal.
Acervo pessoal.
Recalibrar essas expectativas, nesse caso, não significa abrir mão das experiências, muito pelo contrário: significa escolher com mais critério quando e onde gastar. Os dados do CREST 2025, levantamento que monitora hábitos de consumo no foodservice brasileiro, mostram que a frequência de refeições fora de casa caiu 5% no ano passado, enquanto o ticket médio cresceu 6%. O consumidor está saindo menos, mas elevando as expectativas quando decide sair. O jantar especial não acontece toda semana, e quando acontece, ele precisa justificar o próprio peso.
Existe um conceito em economia comportamental chamado costly signaling: é a lógica de que um gesto vale mais justamente porque custa algo, popularizada por economistas como Robert Frank a partir de estudos sobre escolha e sinalização social. Um jantar de R$150 só de reserva diz, silenciosamente, que você vale o desconforto financeiro. É uma linguagem afetiva codificada em ticket médio, mas quando o produto não entrega, quando a reserva cobra R$150 sem aviso e sem contrapartida clara, o sinal se inverte. Não é só a sensação de dinheiro perdido, mas a de que o esforço foi capturado por um mecanismo que não te via como interlocutor real.
Vale lembrar que estratégias comerciais mudam. O restaurante que me encantou no ano passado pode ter reformulado completamente a proposta para essa data, testado um novo formato, recalibrado o público que quer atrair. Isso é legítimo e faz parte do jogo. Mas exige, da nossa parte, o mesmo critério que a gente já aplica na planilha: checar antes, perguntar, não assumir que a experiência anterior garante a próxima. Eu mesma falhei nisso.
Esse restaurante sabe quem está chegando nas mesas? E nós, como clientes jovens adultos, sabemos identificar quando um espaço foi planejado pra gente ou quando só estamos preenchendo uma cadeira que existe para outro público?
O date de +R$300 vale a pena demais. E existe uma engenharia financeira real para mantê-lo de pé quando se está virando um adulto premium, e ela está na planilha, no diálogo e justamente no mês organizado com esse objetivo em mente. Essa conta tem uma leitura mais generosa: a de uma geração que cresceu para bancar, com consciência, os rituais que escolhe manter.