Sarah Guilhermo é jornalista, produtora de conteúdo e, inevitavelmente, Gen Z. Disseca o comportamento da própria geração à mesa, no bar, no café e na madrugada de qualquer dia da semana. Na coluna COOL KIDS, ela coloca em palavras o que essa geração já sabe… mas nunca viu escrito. @sarahguilhermo
A vida saudável "wellness" vendida no TikTok cabe na vida real? Vivi 24 horas dela e essa foi a minha conclusão
06/08/2026 15:46
A vida saudável do TikTok cabe na vida real? Testei essa rotina por 24 horas e isso foi o que descobri. Crédito: Divulgação.
Já deve ter passado por você algum vídeo nas redes sociais em que a garota abre o dia às cinco da manhã, faz o devocional, toma um shot de gengibre com limão, vai para o pilates, volta, monta um bowl lindo, colorido e saudável e ainda sobra tempo para trabalhar antes do almoço. Um questionamento que sempre fiz, sozinha, sem externalizar para não gerar polêmica com esse nicho da comunidade wellness: será que essa vida existe fora da tela? Ou melhor, será que ela dá conta de si mesma quando não está se filmando?
Eu decidi descobrir. Separei uma quarta-feira inteira para viver, na prática, um dia dentro do universo wellness-clean girl que povoa minha timeline há meses. Yoga de manhã, pilates e academia à tarde, balé à noite e alimentação pensada dentro do que esse nicho costuma vender como ideal. Sem dieta prescrita, sem plano fechado, só eu tentando entender o que essa rotina entrega de verdade para quem vive ela por um dia, e o que ela custa, literalmente, para quem idealiza viver ela todo santo dia.
Preciso abrir com uma ressalva importante: eu sou jornalista autônoma. Isso significa que consegui encaixar yoga às 9h, café às 11h, almoço às 14h, pilates às 15h, tentei (já fica o spoiler) colocar a academia às 16h30 e balé às 19h, porque meu trabalho permite esse tipo de intervalo.
Uma pessoa CLT, com horário fixo e deslocamento até o escritório provavelmente não teria como testar esse mesmo roteiro num dia de semana. Esse já é o primeiro dado que, honestamente, talvez eu não precise te contar de forma aprofundada.
Meu corpo, naturalmente, já não segue esse padrão
Antes de contar como foi o dia, preciso confessar uma coisa sobre mim. Eu como pouco. Muitas vezes o almoço já me basta para o dia, dependendo do quanto vou me movimentar até a noite chegar. Não é uma escolha ligada a esse experimento, é um traço meu. Nas gravações do Festival Bom Gourmet, quando a gente passava cinco dias visitando entre 20 e 25 restaurantes em outras cidades para matar as gravações rápido (muitas vezes, visitava 5 restaurantes num dia só), eu nunca terminava um prato inteiro, apesar de me gravar provando todos. Meu corpo simplesmente não sustenta o modelo clássico de café da manhã, almoço, café da tarde, janta e desjejum.
Foi por isso que conversei antes com uma nutricionista amiga minha, a Carol Gibur, para entender como encarar um dia que ia me exigir bem mais do acostumado. Vou voltar nela mais para frente, porque o que ela me disse serve para você também, não só para o meu experimento de um dia.
Deixo isso registrado logo no início porque queria que ficasse claro: o que vem a seguir não é efeito do dia wellness. É a linha de base de quem eu já sou.
A manhã: yoga com estômago vazio
Comecei com yoga, minha primeira vez guiada num espaço físico (já tinha tentado sozinha, em casa, e é bem diferente). Fui de estômago vazio porque me disseram que era o ideal, embora não obrigatório, por causa de algumas posições.
Terminei por volta das 10h15 e segui direto pro café da manhã.
Descobri o lugar num vídeo do TikTok, pesquisando por opções saudáveis em Curitiba: o Breakfit Sugar Free, buffet livre de comida fit, zero açúcar, com uma imensidão de opções de carbo e proteínas deliciosas. O que chamou atenção antes mesmo da comida foi a lousa na entrada do espaço, avisando que todos os doces e bebidas eram sem adição de açúcares, com opções sem glúten e sem lactose. Tinha até balança no buffet, para quem precisa contabilizar g.
É engraçado como um restaurante consegue comunicar confiança através desses rótulos, antes mesmo de você provar qualquer coisa.
Comi duas mini tapiocas (uma com requeijão light e frango desfiado, outra com guacamole e carne seca), um omelete, algumas frutinhas e o suco detox que pedi junto. Fiquei cheia rápido, e essa sensação durou boas horas.
Só depois, olhando para trás, percebi que talvez tenha faltado carboidrato ali, porque pelo resto do dia eu senti mais sono e cansaço do que esperava.
O almoço que quebrou um "pseudo" preconceito meu
Fui almoçar no O Natural, no centro de Curitiba, e esse foi o momento em que o dia me surpreendeu de verdade. Sempre tive certo pé atrás com comida completamente saudável, não porque eu seja contra uma vida saudável, mas por experiências antigas que me deixaram com a impressão de que esse tipo de prato costuma ser sem graça e/ou caro.
Tive a sorte de conhecer o chef antes de pedir e expliquei o que estava fazendo naquele dia: ainda tinha pilates, academia e balé pela frente, e perguntei o que ele recomendaria para alguém nessa situação, buscando energia e comida de verdade.
Ele sugeriu um wrap de frango com sweet chilli (R$24,90) e um bebida de açaí, aveia, banana e whey protein (R$19,90). Os dois eram bem saborosos, fiquei satisfeita de um jeito que já fazia tempo que eu não sentia numa refeição fora de casa.
Adendo: novamente, não consegui terminar a refeição completa… não quero nenhum médico ou parecido analisando meu texto e me dando diagnóstico fora de contexto, hein? Hehe. Valeu!!!
Pilates, o cansaço e a decisão de pular a academia (rs)
O pilates foi bem legal. Achei que ficaria até mais cansada, mas não estava fazendo nada de alta performance, sem jogar em algum esporte, correr maratona nem nada do gênero. Mas o cansaço depois foi maior do que eu esperava, até maior do que em esforços mais pesados que já fiz, tipo as trilhas das montanhas da fazenda do Pico Paraná.
Não sei identificar exatamente por quê fiquei tão exausta. Poderia ser hormonal ou uma noite de sono ruim, ou pode ser o acumulado do dia inteiro tentando caber num roteiro que não é o meu. Mas eu prefiro deixar essa pergunta em aberto do que forçar uma explicação que eu não tenho.
O plano perfeito previa quatro atividades físicas encadeadas, com uma alimentação pensada entre cada uma delas para me dar energia para executá-las. O meu corpo decidiu que três já era o suficiente, e eu resolvi confiar nele em vez de continuar seguindo a agenda.
Fiz o que podia: fui para casa dormir! Não tenho vergonha disso.
Pensei bastante em uma amiga minha. Júlia Valenga, o nome dela. Ela é modelo internacional, e sabe escutar o próprio limite de um jeito que eu provavelmente experimentei uma parcela pequena e somente em um dia.
Ela viveu uma estrutura de rotina, alimentação cuidada, exercício certo, tempo dedicado ao corpo, só que não como curiosidade de um dia. Como necessidade, depois de um período em que restringiu drasticamente a alimentação e aumentou o treino ao mesmo tempo, período que cobrou um preço real da saúde dela – teve a síndrome da mulher atleta, acompanhada de uma fratura grave na perna, três meses sem andar, osteopenia e amenorreia. Foi só depois disso que ela escolheu reconstruir essa relação com o próprio corpo de um jeito mais sustentável, dentro de um clube de wellness onde viveu por mais de um ano.
O que ela me contou não é sobre performance para foto. É sobre um tipo de culpa que não desliga nunca. Ela descreveu estar numa aula de exercício funcional e ainda assim sentir que "nem treinou hoje". A frase que ela usou para resumir isso ficou comigo: "você sempre vai se sentir fazendo pouco, mesmo estando fazendo muito."
É um wellness que, em teoria, é focado em manter o corpo saudável, mas gera efeito rebote. A diferença é que às vezes vem mascarado de bonito, lindo e maravilhoso, com sentimento de destaque e campeão entre os outros meros mortais.
A rotina da Júlia e a minha rotina daquele dia são, bem na superfície, quaaase idênticas. Yoga ou pilates, alimentação cuidada, tempo dedicado ao corpo. Para mim foi um dia de curiosidade jornalística, sem custo real além do cansaço. Para ela, foi uma resposta a um corpo que já tinha cobrado a conta antes. O que separa as duas experiências não é disciplina. É o motivo por trás, e o quanto de tempo, dinheiro e estabilidade cada uma tem disponível para sustentar essa escolha.
Dito isso: chegada a hora da academia, eu escutei o meu próprio cansaço e não empurrei. Cancelei, rs. Foi, sem dúvida, o momento mais honesto do dia inteiro, e talvez o mais parecido que eu já cheguei do que a Júlia descreve como escutar o corpo antes da agenda.
Fui pro balé às 19h30 com o que sobrou de energia, ainda me sentindo cheia desde o almoço, só bebi água antes de entrar.
O corpo segue a agenda, ou a agenda segue o corpo?
Eu esperava sentir muita fome, dada a demanda física do dia. Já cobri eventos em que andei 8km só naquele espaço, 14 dias seguidos, e nesses casos sim, comi café da manhã, almoço e janta todos os dias porque o meu corpo pediu. Nesse dia wellness, não. Mesmo fazendo yoga, pilates e balé, minha fome não aumentou na proporção que eu imaginava. Cada corpo tem sua própria adaptação, e o meu simplesmente não segue esse padrão.
Houve uma quebra de expectativa importante aqui. Eu fui achando que ia me sentir bem por cumprir a agenda toda, tabelada, igual aos vídeos que eu vejo e idealizo no TikTok.
E quando não consegui cumprir tudo (a academia e o restante da alimentação que ficou de fora), bateu uma sensação de falha, mesmo sabendo, racionalmente, que eu tinha tomado a decisão certa pro meu corpo. Isso diz bastante sobre o quanto essa estética entra na cabeça da gente sem pedir licença.
O que esse dia custou
Eu só comi fora de casa. Gastei R$44 no café da manhã e R$44,80 no almoço. Já as atividades têm um preço mensal que muda completamente a conta. A casa de yoga que frequentei, a Gaya Casa, cobra R$398 por mês no plano básico ou R$696 com direito a duas massagens mensais (vale lembrar que existem opções bem mais baratas, uma aula avulsa de yoga custa uma fração disso). Pilates em Curitiba gira em torno de R$88 a aula avulsa, com mensalidades que variam de R$149,99 a R$319,99 dependendo da rede e da quantidade de aulas incluídas. Balé clássico eu pago cerca de R$300 por mês fora de temporada, sem contar figurino, e uma sapatilha de ponta sozinha já custa outros R$300.
Isso sem falar em roupa própria para cada modalidade, deslocamento entre os lugares, e o tempo livre necessário para encaixar tudo isso num dia de semana.
E o dado mais interessante nem é sobre o meu bolso específico. É sobre uma tendência maior: segundo um estudo da UFMG em parceria com o Idec, a distância entre o preço de alimentos in natura e ultraprocessados só cresce. A projeção é que os ultraprocessados sigam mais baratos (média de R$18,40 o quilo em 2025 e R$17,90 em 2026), enquanto o quilo de comida saudável pode chegar a R$19,60 em 2026, ultrapassando de vez o preço do que é industrializado.
Essa diferença não é nova, vem subindo desde 2006. Ou seja, "comer bem virou nicho" não é só uma sensação de quem passa tempo demais no TikTok. É uma tendência de preço documentada.
Voltando na Carol, a nutri
Lembra que eu falei que conversei com ela antes desse dia todo começar? Carol Gibur é nutricionista e minha amiga, e uma fala dela resume sozinha o que eu andava tentando dizer o tempo inteiro:
"Tem pessoas que têm boas condições de comprar peixes, queijos e saladas orgânicas, e é ótimo. Mas e aquela pessoa que talvez só tenha dinheiro para comprar uma sardinha enlatada, palmito, que às vezes tem que comer um miojo em casa? Como é que isso se encaixa no padrão dela?"
Pensando na lousa cheia de avisos do buffet do Breakfit, essa outra fala dela também condiz com tudo que conversamos até agora nesse texto:
"Você não precisa, ‘performar saúde’ para ser saudável. Não precisa comer um bowl de salada, tomar água de lata... Às vezes você só precisa comer uma fruta em vez de um pacote de bolacha."
E sobre o fato de eu comer pouco, naturalmente, ela resumiu numa frase que também vale para qualquer corpo diferente do meu:
"O saudável é você quem dita, mas existe uma base: comer legumes, frutas, tomar água, comer comida de verdade. Arroz e feijão é um modelo de prato saudável."
E voltando na Júlia, a modelo internacional que sofreu a fratura na perna
Ela viveu essa mesma estrutura de rotina, alimentação cuidada, exercício certo, tempo dedicado ao corpo, só que não como curiosidade de um dia. Como necessidade, depois de um período em que restringiu drasticamente a alimentação e aumentou o treino ao mesmo tempo, período que cobrou um preço real da saúde dela. Foi só depois disso que ela escolheu reconstruir essa relação com o próprio corpo de um jeito mais sustentável, dentro de um clube de wellness onde viveu por mais de um ano.
A Júlia me contou que sente um tipo de culpa um tanto invencível, porque não tem muito bomo se desligar do que alimenta ela - a comparação, e, principalmente, as redes sociais. Ela descreveu estar numa aula de exercício funcional e ainda assim sentir que "nem treinou hoje": ou seja, você sempre vai se sentir fazendo pouco, mesmo estando fazendo muito.
No fim das contas
Eu não vim aqui para dizer que a vida wellness é fachada. Boa parte dela é saúde de verdade, para quem tem acesso a ela e para quem ela realmente serve. Também não vim provar que é tudo mentira nem tudo mérito.
Vim contar o que aconteceu quando eu, uma pessoa que come pouco, trabalha por conta própria e nunca fez quatro esportes no mesmo dia, tentei viver 24 horas dentro desse roteiro.
O que sobrou, no fim, foi bem simples. Meu corpo quis cancelar uma atividade no meio do caminho e eu deixei. Gastei cerca de R$90 só em duas refeições fora de casa. E entendi, na prática, que ser saudável não devia ser uma prova que damos aos outros, seja a internet, familiares e amigos, ou até mesmo o resultado estético de um corpo que sustenta a nossa alma e rotina todos os dias.
Se cuidar é um presente que a gente dá para o próprio corpo, do jeito que ele pedir, mesmo quando esse jeito não cabe inteiro numa agenda exagerada ou uma pasta do Pinterest.