
André Bezerra
A Xepa
O pão nosso de cada dia

O pão alimentava o corpo. A fé sustentava a casa. Créditos: Pexels
Toda noite, antes de dormir, a minha mãe rezava. Eu não podia escutar as palavras da prece dela, era uma oração silenciosa. Mas dava para ouvir a respiração da minha mãe. As pausas, o ar preso em aflição, um ou outro suspiro de alívio ou esperança. Eu ouvia em silêncio - do cômodo ao lado - como um anjo. Do meu pequeno colchão de criança, também arriscava as minhas primeiras preces. Recitava - bem baixinho para não despertar a irmã bebê - um Padre Nosso, uma Ave Maria e uma oração ao Espírito Santo, que a minha mãe me ensinou. Mas eu não sabia, ainda, conversar com Deus. A diferença entre uma prece e uma oração, quando a gente abre o coração para Deus, o anjo da guarda e todos os santos e santas no céu. Naquela noite, entre os silêncios sacros e os suspiros da minha mãe, eu aprendi a orar.
O meu pai costumava dizer que tinha um “canal direto” com Jesus Cristo. Foi a passagem sobre a multiplicação dos pães que o ajudou a escolher a profissão de padeiro. Para assumir na padaria, fazia uma viagem de mais de uma hora, diariamente, trocando duas vezes de ônibus. A primeira no terminal do Pinheirinho, a meia hora da nossa casa, e a segunda na Praça Rui Barbosa, de onde seguia em direção ao Boa Vista. Era um inverno rigoroso e o pai contava que as baixas temperaturas influenciavam diretamente na fermentação do pão. No frio, demorava mais para a massa crescer. O pai preparava todo tipo de pão: dos franceses, passando pelo “pão curitibano” e pelas broas, até os mais artesanais, de fermentação natural. Ele dizia que o ofício de padeiro aproximava o homem do Senhor, que todo padeiro era discípulo direto de Jesus Cristo, que fabricar pães era mais do que uma profissão, que era uma missão sagrada. Ele costumava dizer que todo padeiro realizava o milagre da multiplicação dos pães diariamente. Meu pai saía no meio da madrugada, bem antes do amanhecer, para ir trabalhar na padaria do outro lado da cidade.
Uma vez, um pouco antes da Maria nascer, a mãe adoeceu e precisou ser internada no postinho médico. O pai me levou com ele e, pela primeira vez, fui conhecer a padaria. A primeira coisa que chamou minha atenção foi o cheiro. Eu jamais esqueceria a sensação de sentir o aroma do levain - ainda cru - misturado na mesma atmosfera onde os fornos ardiam e recebiam as primeiras fornadas de pão. Ganhei uma touca, um avental improvisado e, mesmo inexperiente, pus a mão na massa. Do alto do banco de madeira onde me colocaram, eu me senti gente grande, como o meu pai e todos os padeiros em volta de mim. Eles espalhavam farinha sobre uma mesa grande. Minha tarefa era fazer bolinhas com a massa. A farinha tinha uma sensação boa, formava uma espécie de nuvem onde estávamos. Eu não podia chegar muito perto dos fornos ou das labaredas que eles abrigavam, mas, do alto do banco, conseguia ver as bolinhas entrando branquinhas e saindo morenas, cascudas, em forma de pão quentinho. Transportados no mesmo tabuleiro até os grandes cestos, os pãezinhos se materializavam para as pessoas que compravam e levavam em sacos de papel para as suas famílias. “O milagre da multiplicação”, repetia o meu pai, sorrindo pra mim.
Alguém me levou pelas mãos para conhecer o outro lado, o salão da padaria. Ali havia um balcão de vidro, como a vitrine de uma loja. Ao invés de roupas, acessórios ou sapatos, estavam tortas, bolos e salgados. Eu nunca tinha visto e nem sabia que existiam tantos tipos diferentes de bolos. Além de chocolate e cenoura, tinha de morango, abacaxi, ameixa e até de brigadeiro. Tinha pão de queijo, bombas de chocolate e misto quente saindo o tempo todo. Café e leite saíam de torneiras direto para dentro das canecas. A torneira de café fazia um barulho alto e soltava uma fumaça que parecia aquele trem que trazia o papai noel a Curitiba.
E havia as pessoas que entravam e saíam. Acho que foi a primeira vez que vi alguém usar terno e gravata fora da televisão. As mulheres eram perfumadas e usavam maquiagem, se vestiam e armavam os cabelos exatamente como na novela. Reparei que elas se sentavam em duplas, comiam salgados pequenos, fatias de tortas e bolos, bebiam de xícaras pequenas. Os homens chegavam sozinhos, ficavam em pé pelos balcões, comiam baurus, pão na chapa com ovo e bebiam de grandes canecas. Eu também me esbaldei: comi bauru, bombas recheadas com doce de leite, goiabada, tomei chocolate quente.
No final da tarde, quando já escurecia, caminhei com o pai por algumas quadras até o ponto de ônibus. Não conversamos quase nada e, se falamos, não lembro o assunto. Eu era ainda um menino, mas sei que o pai pensava na mãe e, em silêncio, caminhando pela calçada ou enquanto viajávamos no coletivo, ele orava por ela. Deu certo porque a mãe voltou pra casa. Em poucas semanas, a Maria nasceu, prematura mas saudável. As coisas mudaram dentro de casa. Eu continuei passando o dia na creche, mas a mãe parou de trabalhar fora, ficava em casa com a minha irmãzinha. O pai seguiu trabalhando na padaria, mas arranjou outro emprego numa pizzaria. Passava muito mais tempo fora de casa, a gente raramente se encontrava.
No inverno, as temperaturas mais baixas fazem com que os pães precisem de uma fermentação mais longa. No inverno curitibano os dias são mais breves, as noites mais extensas e frias. Quanto mais o meu pai trabalhava preparando o levain, esticando e assando as massas de pizzas, menos tempo ele passava com a família em casa. Naquela noite, enquanto ele não chegava, a minha mãe conversava com Deus. Pedia que guiasse o pai pra dentro de casa, que ele saísse da venda onde tinha conta “pendurada”e onde comprava mantimentos e o vinho fiado do compadre, Tio Clóvis, um italiano bem humorado, com cara de mau. Minha mãe rezava por mim, pela minha irmã e pelo meu pai. Ele que sempre vestia a mesma japona puída.
Nos pés, um par de velhos crocs sobre um par de meias de lã bem grossas, sempre novinhas, confortáveis, tricotadas de véspera pela mãe. Naquela noite ela ouviu o barulho do pai destravando o cadeado do portão para entrar em casa. Debaixo do braço, uma baguete e alguns pãezinhos. Ela encerrou a oração agradecendo, fez mais uma prece, rolou pro lado e fingiu dormir.
Nos pés, um par de velhos crocs sobre um par de meias de lã bem grossas, sempre novinhas, confortáveis, tricotadas de véspera pela mãe. Naquela noite ela ouviu o barulho do pai destravando o cadeado do portão para entrar em casa. Debaixo do braço, uma baguete e alguns pãezinhos. Ela encerrou a oração agradecendo, fez mais uma prece, rolou pro lado e fingiu dormir.

