Rio Grande do Sul

Saquê com churrasco? Um dos 108 Sake Samurais do mundo diz que sim e estará em Gramado

Anderson Hartmann, com Kátia Gutierrez Berger
08/10/2026 14:49
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Fabio Kenji Ota, um dos 108 Sake Samurais do mundo, estará à frente do Saquê Bar na estreia do Japão no Festuris, em Gramado (RS). Foto: Keiny Andrade/Divulgação

Fabio Ota comanda um Saquê Bar na estreia do Japão no Festuris e mostra por que a bebida pode ir muito além da comida japonesa: da pizza aos queijos brasileiros.
Antes de chegar à taça, o saquê é arroz, água e paciência. O grão é cozido, o amido vira açúcar e só então a fermentação começa a fazer o álcool. Em cada etapa ficam o clima, a região e a mão de quem produz. Por isso, quem bebe saquê bebe um pouco do Japão.
Em novembro, essa conversa sobe a Serra gaúcha. Pela primeira vez em 38 edições, o Japão participa do Festuris – Feira Internacional de Turismo de Gramado (RS), de 12 a 15 de novembro, no Serra Park. O país ocupa um ambiente próprio no Espaço Luxury e leva, entre as atrações, um Saquê Bar.
Quem conduz a imersão é o brasileiro Fabio Kenji Ota, um dos 108 Sake Samurai do mundo, título que reconhece quem dedica a vida a espalhar a cultura da bebida.
Um samurai sem espada
Neto de japoneses, Ota pisou no Japão pela primeira vez aos 13 anos e já retornou ao país cerca de 30 vezes. Em 2023, recebeu em Kyoto o título de Sake Samurai. Hoje é fundador da Mega Sake, que atende mais de 500 bares e restaurantes no Brasil, e, em 2025, abriu em São Paulo o Miyabi, casa dedicada à culinária kaiseki, a alta gastronomia sazonal japonesa, com harmonização de saquês.
A história da bebida por aqui é mais antiga que ele. O saquê desembarcou com a imigração japonesa, iniciada oficialmente em 1908. Nos anos 1930, nasceu em Campinas (SP) a empresa que daria origem à primeira produção comercial no país. Quase um século depois, o saquê saiu dos restaurantes japoneses e entrou nas cartas de bebidas e nos menus de harmonização da alta gastronomia.
Para Marta Rossi, CEO da Rossi & Zorzanello e idealizadora do Festuris, a estreia japonesa acompanha uma mudança no comportamento do viajante de alto padrão. “Hoje ele busca acesso à cultura, à gastronomia e a experiências que dificilmente poderiam ser reproduzidas em outro lugar”, afirma.
A taça certa é a de vinho
Para começar a entender de saquê, não é preciso comprar copinhos japoneses nem dominar qualquer ritual. Fabio Ota compara esse aprendizado ao do vinho - um universo que vai sendo descoberto aos poucos e que, segundo ele, ainda é relativamente novo até para muitos profissionais brasileiros. O primeiro passo pode estar no armário de casa: “A melhor forma de beber e aproveitar saquês de qualidade é usar taça de vinho”, explica.
O segundo mito é o do teor alcoólico. Muita gente conheceu o saquê dentro de uma caipirinha, ao lado da cachaça e da vodca, e ficou com a impressão de que se trata de um destilado forte. Não é. O saquê é fermentado, como o vinho, e costuma ficar entre 13% e 16% de álcool. Há rótulos abaixo de 10%. A diferença está no ponto de partida: a uva já tem açúcar, o arroz não. É preciso cozinhar o grão e transformar o amido em açúcar antes que a fermentação comece.
Também não existe temperatura obrigatória. O saquê pode ir à mesa gelado ou quente, a cerca de 60°C, como nos bares japoneses que só servem assim. Ota tem sua preferência: perto de 10°C, a temperatura de um vinho branco leve.
O inimigo é a prateleira
Se há uma regra que Ota repete, é a da geladeira. O saquê deve ser guardado refrigerado, e poucos importadores trazem a bebida assim do Japão. Na Mega Sake, as garrafas atravessam o oceano em containers a -5°C e seguem para um depósito refrigerado.
Por isso, a escolha começa antes do rótulo. Garrafa na estante, em temperatura ambiente, já é mau sinal. E estar na geladeira da loja não garante nada se a viagem foi feita sem frio. "Caso não tenha sido, o dano já está feito", alerta. O saquê não estraga por completo, mas perde aroma e sabor, e o álcool aparece mais no nariz e na boca. Os que mais sofrem são justamente os mais caros, feitos com arroz mais polido. Mais frágeis, eles ainda desmontam outro mito: polimento maior não significa qualidade maior.
Com pizza, churrasco e queijo
O saquê é a bebida alcoólica com mais umami, o quinto gosto, que se soma ao doce, ao salgado, ao azedo e ao amargo e ainda soa como mistério para o paladar ocidental. Segundo Ota, são quatro vezes mais umami que no vinho ou na cerveja. É isso que, para ele, faz do saquê a bebida que melhor acompanha comida, e não só a japonesa. Pizza, churrasco, queijo: vale tudo.
Mesmo assim, ele foge de receitas prontas. No Miyabi, cada prato é testado com vários saquês, em temperaturas, taças e copos diferentes. A casa já precisou trocar a bebida de um prato porque a vieira da semana chegou de outra origem, e a canadense não tem o mesmo sabor nem a mesma textura da japonesa. A única aposta que ele arrisca é que alguns saquês ficam incríveis com queijos brasileiros. E deixa uma lição de técnica: a harmonização acontece dentro da boca. Nada de comer, engolir e só depois beber. O certo é levar um pouco de comida e um pouco de saquê à boca ao mesmo tempo.
Uma porta de entrada para o Japão
Em Gramado, o Saquê Bar quer ser mais do que uma degustação. A ideia é usar a bebida como uma porta de entrada para o Japão, país onde, para Ota, o turismo de luxo é menos espalhafatoso que em outros mercados, mas marcado pela elegância, pelos detalhes e pelo cuidado com o serviço.
Depois de viajar ao país de três a quatro vezes por ano na última década, ele aposta no efeito de quem experimenta: quem conhece o Japão costuma planejar a próxima viagem; quem descobre o saquê japonês, abre espaço para mais algumas garrafas.
É também essa conexão entre experiência e identidade que Marta enxerga na chegada do país ao evento. “A estreia do Japão no Festuris traduz muito desse movimento: é um destino que reúne tradição e uma identidade muito própria, e queremos aproximar o nosso público desse universo”, afirma.
Para Ota, essa aproximação pode começar justamente pela bebida. O título de Sake Samurai, concedido pelos produtores japoneses, representa mais do que o reconhecimento pelo trabalho já realizado: é um compromisso de continuar levando a cultura do saquê para além das fronteiras do Japão.
Serviço
38º Festuris – Feira Internacional de Turismo de Gramado
Quando: 12 a 15 de novembro de 2026
Onde: Serra Park, Gramado (RS)
Saquê Bar: no Espaço Luxury, ambiente do Japão
Inscrições: festurisgramado.com