
Guilherme Rodrigues
Crítico independente e aficionado em vinhos, escreve sobre o tema desde 1990. Destaca-se participação permanente na Revista GULA (colaborador e coordenador de provas de 2004 a 2009) e Revista GOSTO (editor de vinhos, colunista, 2009-2015), editadas em São Paulo. Visitou e visita os melhores produtores mundiais de vinhos. Participou de juris nacionais e estrangeiros. Membro de confrarias, destacando-se: Vinho do Porto (Infanção - grau máximo), Ordre des Coteaux de Champagne, Bairrada, Periquita.
Notas Báquicas
O fabuloso Vinho da Madeira, entenda por que ele é tão famoso
de 600 anos atrás, dentre os maiores do mundo. Sua grandiosidade deve-se às
castas Sercial, Verdelho, Boal, Malvasia (Malmsey) e Terrantez, todas brancas.
Esta última quase extinta e de todas a mais espetacular. Desfrutar de um grande
Madeira, seja seco ou doce, é um prazer inigualável. Possui uma intensidade única,
aliada a complexidade, nuances, energia e poder indescritíveis. Além de ser
capaz de viver gloriosamente por mais de 100 anos, podendo ir até 200.
Descoberta e início do cultivo da vinha
pelas frotas do Infante D. Henrique, o Navegador. Em 1419, o grande navegador
português Gonçalves Zarco, a serviço do Infante, descobriu e tomou
definitivamente possa das Ilhas Encantadas para Portugal, permanecendo até hoje
como território português. Madeira, assim chamada pelas densas florestas, é a ilha mais importante. Pela posição estratégica, passou a ser ponto
de passagem, abastecimento e aguada das frotas das descobertas portuguesas e depois
das rotas da Índia, do Oriente e Brasil.
temperado, a Madeira sempre foi associada à ilha dos amores, sendo parada
obrigatória de muitos casais em lua-de-mel. Possui hotéis belíssimos, paisagens
deslumbrantes e clima permanentemente temperado. É famosa a história do Machin,
jovem inglês, que se apaixonou por Ana de Harfet, filha de um casal da nobreza.
Como os pais da noiva negaram permissão para o casamento, em razão da origem
humilde do noivo, os jovens apaixonados fugiram de barco para ir viver na
França. Uma tempestade acabou por arrojar os dois na Ilha da Madeira, onde
viveram seus dias de amores, tendo por lar o oco de uma gigantesca árvore. Até
hoje, na Madeira, há o local denominado Machico, onde supostamente o casal
apaixonado viveu seus amores.
Grandes episódios do Vinho da Madeira

muito apreciado pelos ingleses, que o consomem em grandes quantidades desde o
século XVI. Mencionavam a Madeira como a Ilha do Vinho. O Duque de Clarence,
condenado à morte por conspirar contra o soberano, Henrique IV, escolheu morrer
afogado dentro de um tonel de Malvasia (Malmsey) da Madeira, vontade fielmente
cumprida na Torre de Londres. O fato bem mostra a importância do Madeira já no
final do século XVI.
do “Henry IV”, em que Falstaff vendera a alma por um cálice de Madeira e uma
perna de frango.
XVIII e XIX eram de altíssima qualidade e as grandes garrafas disputadíssimas
ao preço de ouro, chegando a valores muitas vezes mais altos que os melhores clarets (Bordeaux), até 40 dólares a
garrafa, isso no século XIX !
bom gosto na opulenta corte dos Czares da Rússia.
Santa Helena, ganhou uma pipa de vinho do governador da ilha. Essa pipa acabou não
sendo consumida. Voltou à ilha e foi engarrafada a partir de 1940, com o título
de Battle of Waterloo. Winston Churchill, de visita à ilha, foi um dos
poucos contemplados com uma garrafa desse lendário vinho.
O estilo consagrado
Vinho Madeira somente começou a aparecer no século XVIII, quando iniciou-se o
processo de adição de aguardente vínica ao vinho, e depois ao mosto em
fermentação. Esse estilo acabou por triunfar e dominar a produção do Vinho da
Madeira.

os “de canteiro”, valendo em média o dobro do preço, em especial os icônicos
“East India Madeira”, ou ainda os V.O.W. I. (Very Old West Indies Madeira).
tornou-se proibitivo e assim os produtores começaram a tentar o mesmo efeito
com os vinhos em terra, deixando-os em estufas (hoje em dia, de sol ou
artificiais), em que a temperatura chega aos 40°C a 46°C, pelo tempo de uns 3
meses. Há Madeiras, contudo, que não passam pelo processo de estufagem e são
conhecidos atualmente como vinhos de “canteiro”.
As castas
(Cerceal), a rainha para os vinhos secos, plantada nas altitudes mais altas,
elevada acidez, por muito tempo pensou-se ser a Riesling do Reno, mas hoje está
demonstrado não haver relação entre elas; Verdelho, dominava os vinhedos
antes da filoxera, também para secos, ligeiramente menos ácida e mais encorpada
que a Sercial, com o tempo dá vinhos penetrantes, com nuances esfumaçadas e de
frutos secos; Boal (ou Bual) mais cheia, mais escura, mais
adocicada, grandiosos vinhos de sobremesa, muito complexa; Malmsey
(ou Malvasia), excelente corpo, balanço, perfume; e a Terrantez,
verdadeiramente sublime, quase extinta.
única de seus vinhos:
"As uvas Terrantez,
Não as comas nem as des.
Para o vinho,
Deus as fez."
O Madeira à mesa
refeições ou com as sopas. Os mais ricos (doces), com a sobremesa ou após as
refeições. Temperatura de serviço em volta dos 12°C para os mais secos
(Sercial, Verdelho, p. ex.), e dos 17ºC para os mais doces (Malmsey, Bual, p.
ex.) . Copos com algum volume, como para o Vinho do Porto.
que o vinho não se turve ao servir. Turvo, além de perder a beleza da cor, o
vinho fica como que abafado, e perde muito de suas melhores nuances e atrativos.
peixe, defumados, presuntos, azeitonas, sopas, consomés, e atum – é famosíssimo
o atum pescado em volta da ilha. Madeiras doces vão lindamente com sobremesas
como mousse de maracujá (uma iguaria !), chocolate, cremes, tortas, frutas
secas. Acompanham muito bem o filé à Madeira, fígados, cogumelos, carnes de
porco, foie gras (Madeira doce) e assim por diante.
perfeitas para o Madeira são o bolo de mel e os charutos.
Guarda e longevidade

dias, por mais tempo ainda que o Porto. Fechada, deve ser armazenada
preferencialmente na posição vertical.
ex-diretor de vinhos da casa de leilões Christie’s, em sua obra clássica “ The
Great Vintage Book”, onde reproduz a avaliação das provas que fez dos vinhos
mais notáveis do mundo desde o século XVII, emprega um critério em que o máximo
são as tradicionais 5 estrelas. Mas às vezes as 5 estrelas não bastam, e
Broadbent atribui impensáveis 6 estrelas a alguns raríssimos vinhos, de tão
notáveis. Entre eles, um Madeira, o H.M. Borges Terrantez 1.862, bebido algumas
vezes por eles, maior parte durante a década de 1980. O vinho com cerca de 120
anos, portanto.
deliciosos, com menos idade. A qualidade sobe (ou deve subir) com a idade. No
patamar de 10 anos, com a indicação a idade, já são vinhos bem superiores. Daí
em diante, quase sempre a safra vem indicada, assim como o tipo de uva com que
é feito.
um loteamento através dos anos com vinhos de diversas safras. Nestes caso, a
data indicada é a do vinho mais velho, que educa os mais novos que lhe são
adicionados, dando a personalidade do vinho final.


